NACIONAL

O Brasil arde como o Paço de São Cristóvão

José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Após trinta anos de uma Constituição carente de representatividade, marcada a fundo pelo utopismo incendiário e despótico do igualitarismo, a Nova República estertora num gravíssimo desacerto entre o Brasil de superfície e o Brasil profundo.

No dia 2 de setembro último o Brasil foi surpreendido por um incêndio que devastou o Museu Nacional. Nesse mesmo edifício histórico, que foi a residência da Família Imperial brasileira, 196 anos antes a Imperatriz D. Leopoldina, em presença do Conselho de Estado, assinou como Regente o decreto de Independência do Brasil. Aquela joia arquitetônica em chamas parecia uma imagem do edifício da Nação, consumido pelas chamas de uma revolução silenciosa mas inexorável, que há décadas exaure as energias vitais do País, liquefaz suas instituições, racha suas relações sociais.

O Brasil nunca atravessou uma crise tão carregada de riscos como a atual — crise ideológica, política, social, cultural, econômica, e sobretudo moral, com profundas repercussões religiosas. Um borrascoso processo vai minando a estabilidade das instituições, degradando a vida pública, gerando nos espíritos perplexidades sem fim. Acentua-se a cada dia mais a desconexão do mundo político, das instituições, da imprensa, e de largas faixas do clero, com relação ao profundo sentir da população. O quadro eleitoral, instável e inesperado, é mais um reflexo do que já foi tachado por alguns como a crise terminal da Nova República.

Após diversas e efêmeras vitórias eleitorais da esquerda, um sobressalto patriótico e salutar da opinião pública veio criar sérios entraves à marcha acelerada rumo a uma hegemonia de poder totalitário que se anunciava. Grandes manifestações de rua, por todo o País, reafirmaram o espírito ordeiro e conservador do brasileiro e sua natural aversão às práticas e ideias ditas progressistas. “Nossa bandeira jamais será vermelha” e “Queremos nosso Brasil de volta” — tornaram-se slogans emblemáticos dessa reação.

Olhar retrospectivo sobre a Nova República

Ao final da década de 70, o contexto político do Brasil passou por modificações sensíveis e relevantes. Em plena vigência do regime militar, a Abertura foi animada por uma gradual liberalização, até a inteira democratização do Estado. Tal democratização implicava na eletividade das funções públicas, liberdade de pensamento e de palavra para todas as correntes políticas e ideológicas, e ausência de qualquer ação repressiva estatal.

Pareciam distantes os acontecimentos tumultuosos do início dos anos 60, na era janguista, bem como a agitação terrorista do período 1968-1974, que quase tinham empurrando o País para uma ditadura de cunho socialista.

Crescia aos poucos a convicção de que uma política de entendimento e perdão amainaria as tensões, pacificaria os espíritos e restabeleceria a paz no Brasil. Convicção insuflada, aliás, pelo apoio fervente de esquerdistas de todos os tipos. Aprovou-se nesse clima a anistia para os presos políticos, e os exilados retornaram. A Abertura se tornou assim total, ou quase tanto. Mas a esquerda tumultuosa, bafejada por uma eficaz publicidade, tornou-se reivindicante e agressiva, operando em seu favor uma metamorfose do processo de Abertura. Os subversivos ou terroristas de outrora passaram a ocupar gradativamente o lugar de heróis, enquanto proliferava o fenômeno propagandístico do anti-anticomunismo.

As correntes inspiradas pelo comunismo internacional, gozavam de escassa influência na opinião pública, entrando por isso em cena certas personalidades da Hierarquia eclesiástica, mais precisamente da CNBB, afins ao “esquerdismo católico”. Dedicaram-se elas a prestigiar a ofensiva esquerdista durante o processo de Abertura. Deste modo o processo se transviava, e como num passe de mágica a massa do País ia sendo conduzida para um rumo que uma minoria queria impor-lhe. Enquanto isso a população era iludida com a imagem propagandeada de “povo soberano”, como nas campanhas ao estilo das Diretas Já.

A Constituinte, instrumento da democratização?

O processo de Abertura culminou em 1985 com a saída do General João Baptista Figueiredo da Presidência,

(continua)

LEGENDA:
- O PC do B se apresenta exigindo as “Diretas já”,0 e não escondendo sua velha bandeira ideológica a favor da Reforma Agrária.