Fevereiro de 2018
A Virgem do Coração de Ouro
Página Mariana

A Virgem do Coração de Ouro

Podem ocorrer aparições várias vezes seguidas às mesmas pessoas? A bela história de Nossa Senhora de Beauraing elucida essa questão.

§         Valdis Grinsteins



Capela Votiva da Aparição, edificada com pedra do país

Tendo comentado nesta seção várias aparições marianas, antigas ou recentes, algumas pessoas nos perguntaram qual o critério de discernimento para julgar se as aparições são falsas ou verdadeiras. Já tratamos dessa questão, em linhas gerais, em nossa última edição. Mas recebemos uma indagação mais específica: Nossa Senhora costuma aparecer uma só vez, poucas ou muitas vezes? E, do fato de Ela aparecer muitas vezes, pode-se deduzir que a aparição é falsa?

Primeiramente, é preciso esclarecer que, nesse assunto, não há uma regra geral. Nossa Senhora é Rainha e atua conforme os desígnios da Sabedoria de Deus. Atuando para o bem das almas, não se deixa limitar por nossos pobres critérios.

Em segundo lugar, há aparições que se deram apenas uma vez, como a que converteu o judeu Afonso Ratisbone, em Roma, no ano de 1842. Nela, Nossa Senhora sequer falou. Igualmente em Pontmain (França – 1871) e em La Salette (França – 1846) a Virgem Santíssima apareceu uma só vez.

Mas do simples fato de a Mãe de Deus aparecer várias vezes não se pode concluir que se trata de uma falsa aparição. Em Fátima Ela apareceu seis vezes, e ainda prometeu aparecer uma sétima vez. Em Lourdes, apareceu 18 vezes.

Outra pergunta: Nossa Senhora pode aparecer muito seguidamente?

Como resposta, parece-nos oportuno narrar a história de uma aparição ocorrida há 70 anos.

Beauraing: povoado comum

Um pequeno povoado de apenas 2.000 habitantes, situa-se na Bélgica, denomina-se Beauraing. Nada o distingue de muitos outros povoados da zona. Nesse local, nossa Mãe celeste apareceu 33 vezes a cinco crianças, de 29-11-1932 a 3-1-1933, ou seja, quase todos os dias! Tais aparições foram reconhecidas pela Igreja em 1943. É uma das cinco aparições, ocorridas no século passado, reconhecidas oficialmente.

Ainda mais, 12 dias após a última aparição em Beauraing, Nossa Senhora aparecerá oito vezes a uma menina, num outro povoado belga, a 80 quilômetros de distância do povoado anterior. Uma aparição também reconhecida pela Igreja. Logo, não é bom critério desqualificar uma aparição só porque ocorreu várias vezes e em locais próximos.

Uma característica da aparição de Beauraing é que Nossa Senhora fala pouco. Várias vezes não diz nada, limita-se a sorrir para as crianças.

Passemos ao relato dessas aparições.

As meninas Gilberte e Andrea Degeimbre, órfãs de 9 e 14 anos, acompanham Fernanda e Alberto Voisin, de 15 e 11 anos, que foram buscar, num pensionato de freiras, Gilberte Voisin, de 13 anos, irmã dos dois últimos. Os meninos brincavam, quando Alberto fica assustado e diz: “Olhem, a Virgem vestida de branco está caminhando sobre a ponte”. As meninas olham e ficam também muito assustadas. Batem com força à porta do pensionato. Surgem uma freira — a irmã Valerie, que nada percebe — e Gilberte Voisin, que vê a aparição e fica também muito assustada. Os meninos correm de volta à casa e contam a suas famílias o ocorrido. Estas não acreditam. Ainda pior: a irmã mais velha das meninas Degeimbre, tomada de inveja, diz: “Vocês duas vêem a Virgem? Se eu a tivesse visto, seria diferente... Mas, vocês duas!?” Dominada pelo despeito de nada ter visto, ela chegará a caluniar suas irmãs.



Outra capela em Beauraing

Simplicidade das palavras

Chama muito a atenção nessa narração o pouco que Nossa Senhora fala a estas crianças — fato que será utilizado como argumento principal pelos adversários das aparições. Após os meninos indagarem à Mãe de Deus o que queria deles, Ela simplesmente respondeu: “Sejam sempre bons”. No dia seguinte, Ela pergunta aos meninos: “Vocês serão sempre bons, não é verdade?”. “Sim!” — responderam enfaticamente.

No dia 30 de dezembro de 1932, ao mostrar seu Coração, que parecia de ouro, a Virgem Santíssima recomenda: “Rezai, rezai muito”. No dia 1º de janeiro, apenas aconselha: “Rezai sempre”. Na última aparição, no dia 3 de janeiro, Ela falará mais. E mesmo assim, será breve: “Eu converterei pecadores. Eu sou a Mãe de Deus, a Rainha do Céu. Rezai sempre”.

Curiosamente, a Virgem Santíssima, nesta derradeira aparição, revela três segredos pessoais a três dos videntes. O que revelou? Nada veio a público.

Algumas pessoas quiseram acrescentar palavras ao que Nossa Senhora asseverou, mas os videntes não aceitaram.

Incredulidade e perseguição

Outro aspecto digno de nota: os meninos viam Nossa Senhora com raios dourados em torno da cabeça, como se fosse uma coroa, símbolo de majestade. O que está em consonância com a afirmação: “Sou a Rainha do Céu”.

Desde o início as aparições chamaram muito a atenção, e o interesse público ia crescendo diariamente. No dia da última aparição, havia uma multidão de 30.000 pessoas presentes. Entre elas, numerosos médicos. Estes aproveitaram a ocasião para fazer experiências, durante as aparições. Eles beliscaram os videntes, apertaram-lhes a pele, aproximaram fogo de suas mãos, soltaram flashes incandescentes sobre os olhos, mas os videntes não reagiram. Não ficaram marcas ou cicatrizes de tais experiências.

Os videntes sofreram muita oposição. Nem o sacerdote do local acreditava neles, e não tinham nas adjacências a quem recorrer para os ajudar. Como até parte da imprensa católica tentava negar os eventos miraculosos, sentiam-se rodeados por um desprezo geral. No início, até seus pais mostravam-se contrários à veracidade das aparições. Muitos acusavam as crianças de mentirosas, pois esperavam que uma aparição da Mãe de Deus devesse ser necessariamente no estilo Hollywood, com milagres espetaculares e uma mensagem apocalíptica. A curiosidade geral encheu a loja dos Voisin. Mas logo eles perderam os fregueses, que não podiam ou não se atreviam a entrar na loja, que acabou tendo de ser fechada. Mas isto foi um fator para a conversão do pai, Hector Voisin, que abandonou o partido socialista e voltou a praticar a religião.

Uma aparição incomum?

Algumas pessoas perguntaram: por que Nossa Senhora apareceu para dizer tão pouca coisa, além do mais, já muito conhecida? Seria algo na linha de uma aparição “ordinária”, diferente de aparições “fora de série”, como as de Lourdes ou Fátima?

Como resposta, podemos lembrar, de início, que a Virgem Santíssima quis Ela mesma fazer apostolado, para nos ensinar que todo apostolado é santo, mesmo se dirigido a pessoas simples, e limitando-se a repetir doutrina já conhecida.

Em segundo lugar, a Religião católica não se caracteriza por sensacionalismos. É a Religião da perseverança em meio à vida cotidiana. Nunca uma aparição de Nossa Senhora é algo comum. Embora seja um acontecimento extraordinário, uma aparição mariana pode ter por objeto, entretanto, reafirmar uma doutrina básica da Igreja.

Em terceiro lugar, a Santíssima Virgem, com sua aparição, ressalta que Ela está protegendo a nós, seus filhos. Nem sempre mediante palavras, mas sempre nos amparando. O que mais podemos desejar?

Ademais, uma aparição de Nossa Senhora não pode deixar de trazer consigo grandes graças, seja para os videntes, seja para os que os rodeiam e mesmo para todo o mundo. Ela é a Mãe da divina graça, que conduz sempre a seu Filho amantíssimo, Jesus.

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Bibliografia:

–Yves Chiron, Enquête sur les apparitions de la Vierge, Ed. Perrin-Mame, 1995, França.

www.Corazones.org  Aparición de la Virgen en Beauraing.

– Jean Ladame, Notre Dame de toute l'Europe. Ed. Resiac, cidade, 1984.

– Domenico Marcucci, Santuari Mariani d'Europa, Ed. San Paolo, 1993.