Fevereiro de 2016
Na prática de esportes, há normas para o público feminino?
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A Palavra do Sacerdote

 

Monsenhor José Luiz Villac

Pergunta — Monsenhor José Luiz Villac: Existe algum problema moral no fato de mulheres jogarem futebol? Haveria um critério mais ou menos certo para discernir quais são os esportes mais adequados para serem praticados pelo público feminino? Respeitosamente.

Resposta No ano passado, alguns dos nossos leitores engajaram-se a fundo no combate contra a imposição da Ideologia de Gênero nos programas estaduais ou municipais de educação. E os demais certamente acompanharam muito de perto o debate, por tratar-se de um assunto capital para a educação das crianças de acordo com os princípios cristãos e a própria ordem da natureza.

Por isso, a pergunta de nossa missivista é de grande atualidade e ajuda a responder à seguinte questão: como foi possível chegar à negação de algo tão evidente e fundamental como a diferença entre os sexos? E a resposta é que, já há muitas décadas, começaram a ser aceitas pela sociedade a prática de atividades e a confusão de modos de ser e de apresentar-se que iam eliminando gradualmente essa diferença, conduzindo até ao estilo “unissex” no corte de cabelo, nas roupas, no linguajar, no comportamento, na vida profissional etc.

Ora, tal indiferenciação dos sexos é totalmente oposta ao plano de Deus para a humanidade. Lemos no Gênesis: “Então Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. [...] Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1, 26-27). Nessa passagem da Bíblia, a humanidade é descrita como sendo articulada, a partir de seu ponto de partida, pela relação entre o masculino e o feminino. Meditando mais tarde sobre a união entre o homem e a mulher descrita no relato da criação do mundo, o Apóstolo São Paulo exclamou: “Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 32).

 

O supremo exemplo da Santíssima Virgem

De fato, a maior diferença da mulher em relação ao homem, que a coloca numa situação muito especial na sociedade, consiste precisamente em que ela é chamada a representar, no plano natural, aquilo que a Igreja realiza no plano sobrenatural: acolhe novos membros e os purifica nas águas do Batismo, alimenta-os com o banquete eucarístico, reconcilia-os com Deus no confessionário, remedeia suas feridas com os santos óleos e, finalmente, os conduz até o lugar do descanso na esperança da ressurreição final. No curso da vida, a Igreja consola, dá sustento e, sobretudo, educa cada filho para que siga o caminho que lhe proporciona a verdadeira felicidade.

É nessas tarefas que o chamado “gênio feminino” encontra toda sua dignidade e seu significado. A mulher colhe esses elementos, combina-os segundo seus talentos e as circunstâncias concretas da vida. E, conforme a vocação que Deus lhe deu, seja no seio da família ou no seio da Igreja como virgem consagrada, perfuma com o encanto e as virtudes femininas a própria vida e a dos que a rodeiam. Foi essa, em boa medida, a vocação de Nossa Senhora, ao mesmo tempo Virgem e Mãe de Deus e de todos nós.

 

Uma revolução feminista e igualitária

Infelizmente, no curso do século XX, a corrente antinatural do chamado “feminismo” convenceu uma parte considerável das mulheres de que sua feminilidade era sinônimo de fraqueza e de uma inferioridade envergonhada em relação ao homem. Estas começaram então a olhar com desprezo certas virtudes — como a paciência, a abnegação e a ternura — e quiseram igualar-se aos homens em tudo, por vezes até mesmo no uso de um linguajar vulgar, para mostrar ao sexo “forte” que elas não eram frágeis e delicadas “bonecas”.

O feminismo provocou uma “guerra dos sexos” totalmente artificial, e as mulheres que caíram nas suas redes venderam sua grandeza e sua dignidade específicas por um “prato de lentilhas”, fechando os olhos para o fato de que Deus criou homens e mulheres, ambos portadores da mesma dignidade humana, mas diferentes e complementares.

Dois pôsteres que revelam a mudança de mentalidade e de indumentária na prática do esqui. O mesmo se deu, de certa forma, em inúmeras outras práticas esportivas.

 

Componente fundamental da personalidade

As nefastas consequências dessa evolução foram denunciadas em 2004 pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, em um documento da Congregação para a Doutrina da Fé intitulado “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo”.

Após assinalar que, na abordagem do tema da mulher, delinearam-se no século XX duas tendências opostas — uma que leva a uma rivalidade entre os sexos e outra que tende a eliminar as suas diferenças, considerando-as simples efeitos de um condicionamento histórico-cultural, a assim chamada Ideologia do Gênero —, a carta da Congregação afirma que esse “obscurecimento da diferença ou dualidade dos sexos é prenhe de enormes consequências em diversos níveis”. O primeiro deles é nada menos que “o questionamento da família, por sua índole natural biparental, ou seja, composta de pai e de mãe”, o que favorece “a equiparação da homossexualidade à heterossexualidade”, assim como o aparecimento de “um novo modelo de sexualidade polimórfica”.

“De acordo com tal perspectiva antropológica— prossegue a Carta — a natureza humana não teria em si mesma características que se imporiam de forma absoluta: cada pessoa poderia e deveria modelar-se a seu gosto, uma vez que estaria livre de toda a predeterminação ligada à sua constituição essencial”.

Em contraposição à Ideologia do Gênero, o Cardeal Ratzinger reafirma alguns dados essenciais da antropologia bíblica, a começar pelo fato de que “a igual dignidade das pessoas realiza-se como complementaridade física, psicológica e ontológica”, de onde a importância e o sentido da diferença dos sexos: “A sexualidade caracteriza o homem e a mulher, não apenas no plano físico, mas também no psicológico e espiritual, marcando todas as suas expressões”. Em vista disso não se pode reduzir a sexualidade a puro e insignificante dado biológico, mas é “um componente fundamental da personalidade, uma sua maneira de ser, de se manifestar, de se comunicar com os outros, de sentir, exprimir e viver o amor humano”.

Em contraposição ao homem, “a mulher conserva a intuição profunda de que o melhor da sua vida é feito de atividades orientadas para o despertar do outro, para o seu crescimento, a sua proteção. Uma tal intuição é ligada à sua capacidade física de dar a vida. Vivida ou potencial, essa capacidade é uma realidade que estrutura em profundidade a personalidade feminina. [...] Embora a maternidade seja um elemento chave da identidade feminina [...] a existência da vocação cristã à virgindade ]...] nega de forma radical toda a pretensão de fechar as mulheres num destino que seria simplesmente biológico”, posto que “a maternidade pode encontrar formas de realização plena também onde não há geração física”.

 

Influência dos trajes masculinos e femininos

É nessa perspectiva que “compreende-se o papel insubstituível da mulher em todos os aspectos da vida familiar e social que envolvam relações humanas e o cuidado do outro”, e quanto a luta dos sexos ou sua indiferenciação não passa de uma ilusão e provoca graves consequências para a própria mulher e para a sociedade.

Com acuidade e coragem, o então Arcebispo de Gênova e Presidente da Conferência Episcopal Italiana, Cardeal Giuseppe Siri, já havia descrito antecipadamente, em 1960, o devastador efeito que decorreria da generalização do uso de trajes masculinos pelas mulheres, e por que mecanismo se favoreceria a aceitação dessa nova moda:

 

“O motivo que leva[as mulheres] a portar roupas masculinas é sempre o da imitação e da concorrência em relação àquele que é considerado mais forte, mais desenvolto e mais independente. Esse motivo manifesta claramente que a roupa masculina é um auxílio sensível para criar o hábito mental de ser ‘como um homem’. Em segundo lugar, desde que o mundo é mundo, a vestimenta exige, impõe e condiciona gestos, comportamentos e um certo porte, e consegue impor do exterior uma determinada estrutura psicológica. Não se exclua portanto que a roupa masculina vestida pela mulher esconda mais ou menos uma contínua reação contra aquela feminilidade que a ela parece inferioridade e é somente diversidade. A contaminação da estrutura psicológica torna-se patente” (“A proposito del costume maschile della donna”, 12-6-1960).

A mesma contaminação ficou evidente em outros terrenos, como a vida profissional, chegando até a aberrações como, em nome da igualdade entre os sexos, certos exércitos ocidentais colocarem mulheres na linha de frente da guerra. O precedente de Santa Joana d’Arc não serve para justificar essa aberração, precisamente pela excepcionalidade de sua vocação e pelo fato de que, nos combates, ela nunca empunhou armas, mas apenas portava o estandarte e encorajava os guerreiros.

   

 

O veto do Papa Pio XII e de seu predecessor

Descendo ao problema dos esportes, evocado pela missivista, cumpre destacar, em primeiro lugar, tratar-se de uma atividade que “praticada com moderação e consciência, fortifica o corpo, torna-o são, fresco e robusto”; favorece “o acostumar-se à fadiga, a resistência à dor, os hábitos de continência e de severa temperança” com vistas à vitória, podendo ser “um antídoto eficaz contra a moleza e a vida fácil”, segundo o parecer que deles fez o papa Pio XII, num discurso aos esportistas em 1945.

O esporte não é, porém, isento de perigos. Segundo o mesmo Pontífice, o primeiro é o da divinização do corpo e uma concepção materialista da vida, que contrariam o fato de que a primazia no composto humano cabe ao espírito, à alma espiritual. O segundo perigo, segundo Pio XII, é que embora existam esportes que concorrem para refrear os instintos, outros há que os despertam, “seja pela força violenta, seja pelas seduções da sensualidade”. Além do que, afirma o Papa, “há no esporte e na ginástica, nos exercícios rítmicos e na dança, um certo desnudamento que não é nem necessário nem conveniente”. E o Papa conclui de modo peremptório: “A uma tal maneira de praticar a ginástica e o esporte, o sentido religioso e moral opõe seu veto” (Discurso aos professores de Educação Física, 8-11-1952).

Foi por isso que, no pontificado de seu predecessor, o Papa Pio XI, a Sagrada Congregação do Concílio (12-1-1930) recomendou “que os pais proíbam a suas filhas a participação em exercícios públicos e concursos ginásticos, e que se suas filhas forem forçadas a tal participação, velem eles por que elas trajem de modo que respeite a decência, e não tolerem jamais os trajes imorais”.

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Acreditamos que, com os sábios ensinamentos citados acima sobre a alteridade entre o homem e a mulher e os perigos envolvidos no esporte, nossa consulente e nossos leitores em geral terão os elementos necessários para discernir quais deles são mais adequados para serem praticados pelo público feminino e quais sejam as imposições de discrição e decoro de que seu exercício deve revestir-se para não atentar contra a sua própria finalidade de fortalecer as almas das esportistas e proporcionar aos assistentes uma distração moralmente sã.

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