Abril de 2001
Peregrinando por vários estilos de Brasil
Ambientes, Costumes e Civilizações

Peregrinando por vários estilos de Brasil

Plinio Corrêa de Oliveira

Palácio dos Campos Elíseos (fundos), na capital paulista

O paulista antigo – hoje quase não se tem idéia disso – era o fazendeiro, com muito senhorio. Sério, amável, de poucas palavras, com um quê de desconfiança. Diziam outrora que Minas começava em São Paulo... Enquanto no Rio de Janeiro as pessoas freqüentemente se visitam, entrar na casa de um paulista era uma dificuldade. Ele mantinha sua residência muito bem resguardada e recebia pouca gente. Eram belas edificações, muito bem arranjadas, tendo quase sempre uma sala especial, toda dourada, para receber parentes íntimos ou visitas de cerimônia, chamada “sala de visitas”.

         O tipo característico da casa paulista antiga pode-se ver ainda hoje: é o Palácio dos Campos Elíseos [situado no bairro do mesmo nome, abriga hoje uma secretaria de Estado].

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         Bem diferente era o mineiro. Há duas Minas. Uma do tempo colonial, a Minas de Ouro Preto, do Aleijadinho e dos Profetas. Minas recolhida, meditativa, inteligente, calma, desconfiada, rica e econômica. Ao longo da época imperial, entretanto, esta Minas foi sendo substituída por outra Minas, na qual,  infelizmente, o aspecto artístico deixou de ser  incrementado – a Minas política, bancária, comercial, agrícola, que vai se tornando industrial, e  que fornece os melhores políticos do País, que rivalizam com os gaúchos. O mineiro é rei na arte de sussurrar, de dizer a metade do que pensa e dar a entender o resto... A arte política dele faz-se mais em observar e falar baixinho...

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         A política dos gaúchos é declamatória. Eles têm lábia e verve. Sabem agradar as pessoas, mas falando muito, aos borbotões. Impolíticos nesse sentido são os paulistas – posso falar, porque minha mãe era de São Paulo e eu sou paulista –, mas a arte da política em São Paulo era outra: fazer fortuna e comparecer com dinheiro na mesa de negociações, dizendo o seguinte: “Nós entramos com tal orçamento e vamos tocar este negócio”. Nada de sussurro, nem de muitas palavras .

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O charme da primeira capital do País - Salvador

Bem, passemos à Bahia. Os baianos têm aquele charme que é o da primeira capital do Brasil, que foi Salvador. Eles, como os cariocas, possuem a arte de agradar. São leves, engraçados, dotados de uma inteligência luminosa. A par disso, deparamos com a Bahia cantante, pitoresca, poética, gastronômica, histórica, tradicional e mestre na arte da oratória. Colocados num púlpito ou numa tribuna, os baianos falam e arrastam...

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         Uma palavra sobre meus caros pernambucanos: bem inteligentes, discursam eles com muita facilidade, conhecendo o português primorosamente bem. E escrevem tão bem quanto falam. Têm um feitio de espírito que tende ao aprofundamento das coisas. Mas, sobretudo, são homens de ação: gostam de trabalhar e produzir. É próprio a eles o dom do mando. Em Pernambuco, cada um manda em sua terra, e ai de quem se meter a violar essa norma...

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         Por fim, o Ceará. Foi o único lugar do mundo – é preciso dizer que estive em quase todos os países da Europa, em vários da América Latina, e o Brasil conheço quase todo – no qual, andando pelas ruas, observando bastante, falando com muitos cearenses, cheguei à seguinte conclusão: não havia alguém que não fosse muito inteligente!

 

Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 14 de março de 1987. Sem revisão do autor.