Julho de 2016
Autêntica concepção de Justiça e Misericórdia
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Capa - 1

Em vista do grande interesse suscitado pela matéria de capa da edição anterior, sobre o Sagrado Coração de Jesus enquanto espelhando misericórdia e justiça — dois atributos divinos que não se excluem —, Catolicismo oferece nesta edição alguns aprofundamentos doutrinários sobre essa questão de capital importância para o proveito espiritual e intelectual dos prezados leitores.

“Justiça social” e “misericórdia” são duas “palavras-talismãs”(1) muito em voga em nossos dias. Elas têm sido frequentemente usadas — inclusive por certas autoridades eclesiásticas — num sentido materialista e marxista, sem nenhuma referência à glória de Deus e ao fim sobrenatural para o qual o homem foi criado.

Assim sendo, pareceu-nos de interesse dos nossos leitores continuar a tratar dos conceitos de justiça e misericórdia, agora do ponto de vista da lídima e imutável doutrina da Igreja, aplicável a todos os tempos e lugares, ressaltando seus lados mais esquecidos ou propositadamente omitidos nos dias de hoje.

A Direção de Catolicismo

      Afonso de Souza

 

Em estrito senso, a misericórdia é um atributo divino. Por sua natureza e essência, é a bondade de Deus enquanto socorre e alivia os nossos males. Como o principal mal é o pecado, o pecador arrependido se torna o principal objeto da misericórdia de Deus, onde ela mais se exerce através do perdão.

Deus é amor e, enquanto tal, misericordioso. Sendo misericordioso, este atributo divino é como o motor que guia toda a história da humanidade.

Com efeito, “a história da misericórdia de Deus é a mesma que a história da Humanidade e a história do próprio Deus: ‘A terra está cheia de sua misericórdia’ (Sl 32, 5). ‘A misericórdia de Deus vem da eternidade, e se seguirá estendendo eternamente sobre aqueles que o temem’ (Sl 102, 17)”.(2)

Quando na história da Criação aparece o pecado — ou seja, uma ofensa e uma ingratidão a Deus merecedora da condenação eterna —, então “intervém a misericórdia e busca o restabelecimento do plano de origem, e o próprio pecado é ocasião de fazer esse plano mais admirável por meio da Encarnação. [...] Quanto mais a Humanidade se afasta de Deus, tanto mais se afirma sua misericórdia para com os homens. A história do povo de Israel não é outra coisa senão a história das quedas do homem e das misericórdias de Deus. [...] ‘Ainda que uma mãe se esquecesse de seu filho pequenino eu não te olvidarei’ (Is. 49, 15)”.(3)

 

Em Jesus Cristo justiça e misericórdia se completam

Sendo Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo é também o Deus de misericórdia. E isso transparece de modo claro e refulgente em todas as páginas do Novo Testamento. Quando iniciava a sua vida pública, falando na sinagoga de Nazaré, Ele atribui a Si a profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor [repousou]sobre mim; pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os contritos de coração, a anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a recuperação da vista, a pôr em liberdade os oprimidos e a pregar o ano favorável do Senhor” (Lc 4, 18-19). Essas palavras do Divino Redentor resumem as obras de misericórdia pregadas por Ele, como a Igreja ensina.

Sendo médico do corpo, Cristo Jesus o é sobretudo das almas: “Ó homem, são-te perdoados os teus pecados” diz Ele ao paralítico ao curá-lo de sua enfermidade (Lc 5, 20; 7, 48; Mt 9, 2). Na tocante parábola do Filho Pródigo, o Verbo Encarnado deixa transbordar a misericórdia do seu coração na imagem do pai que não só perdoa, mas recebe com alegria o filho prevaricador arrependido (Lc 15, 20 a 24).

Sobre a nossa regeneração pelo batismo, diz São Paulo em sua epístola aos Efésios: “Éramos por natureza filhos da ira, como todos os outros. Mas Deus, que é rico em misericórdia, pela sua extrema caridade com que nos amou, estando nós mortos pelos pecados, deu-nos a vida em Cristo (por cuja graça fostes salvos), e com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus com Jesus Cristo, a fim de mostrar aos séculos futuros as abundantes riquezas da sua graça, por meio da sua bondade para conosco em Jesus Cristo” (Ef 2, 3 a 7).

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