Março de 2007
No Céu, um portador de deficiência física ainda terá sua deficiência? Os casais permanecerão casados?
A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac

Pergunta — Tenho uma dúvida a respeito de uma questão. Perdi uma amiga que sofria de uma doença no sangue, e devido a isso teve várias modificações corporais como inchaço, marcas pelo corpo, etc. Após a morte, se ela se encontrar na glória de Deus, estes sinais da doença ainda permanecerão? Outro caso: um portador de deficiência física, após a morte ainda terá sua deficiência? No caso dos casais, eles permanecerão casados? Obrigado, e rezem pela minha amiga.

Resposta — O consulente levanta o belo tema da ressurreição dos mortos e da vida bem-aventurada no Céu por toda a eternidade.

Segundo a Fé católica, o Céu é um prêmio para os que se comportaram bem na Terra, isto é, cumpriram devidamente os Mandamentos da Lei de Deus (um dos quais implica também no cumprimento das leis da Igreja). Logo depois da morte, a alma passa por um Juízo Particular, e se ela morreu em estado de graça e está purificada de todo pecado, vai imediatamente para o Céu e fica aguardando o fim do mundo, quando todos os mortos ressuscitarão e suas almas serão reunidas aos respectivos corpos. Se alguém morreu em estado de graça, mas não fez penitência suficiente para pagar a pena devida –– por todos os pecados mortais perdoados no Sacramento da confissão, ou pelos pecados leves não perdoados –– fica sua alma no Purgatório até ser inteiramente purificada (a passagem pelo Purgatório é o mais freqüente para os que se salvam); após o que vai se reunir às almas bem-aventuradas no Céu, onde também fica aguardando a ressurreição geral dos corpos, o Juízo Final que se lhe segue e a entrada definitiva no Céu, em corpo e alma. Os maus também serão enviados, na mesma ocasião, em corpo e alma para o fogo eterno do Inferno (suas almas já estavam lá logo após a morte e o Juízo Particular).

Perfeição física e espiritual

Em que condições ressuscitam os corpos das almas que se destinam ao Céu? As doenças e sofrimentos pelos quais passamos na Terra deixam suas marcas nos corpos ressuscitados? — Em princípio, não! Porque no Céu não há deficiência nenhuma, nem na alma nem no corpo do ressuscitado. Não há feiúra nem defeito de qualquer espécie. Não há nada de torto nem quebrado. Nada de desordenado ou descomposto. Nada de estridente ou cacofônico. Um hippie não entrará no Céu se antes não se converter e arrepender-se de seus pecados. No Céu não há rock, nem música (ou gente) descabelada, e muito menos imoral ou sensual. Não há modas psicodélicas, ou fabricadas com roupa suja, ensangüentada ou rasgada. Nada do que é desconforme a Deus entrará no Reino dos Céus, que é o Reino do "Santo dos Santos", ou seja, da "Verdade, da Santidade e da Beleza", como ensina o Doutor angélico. Lá reina a mais completa ordem, harmonia e respeito. Caos e sujeira são bons para o inferno, para onde será varrido todo o lixo que há na Terra. É como Santo Tomás descreve o fim do mundo, quando um fogo purificador queimará todas as impurezas que restarem na Terra e os anjos lançarão todos os detritos na Geena, para tormento dos réprobos e demônios.

Assim descrito o ambiente do Céu — no qual tudo é íntegro e perfeito — vê-se logo que Deus suprirá todas as deficiências que caracterizaram a vida dos homens nesta Terra; e aos que se salvaram, proverá com um corpo restaurado na plenitude de seu vigor e beleza. Porque Deus ama os seus eleitos e quer vê-los resplandecentes de luz e perfeição física e espiritual.

Assim, o missivista pode ficar tranqüilo de que “na glória de Deus”, onde certamente estará (se morreu com as devidas disposições) sua amiga, não terá em seu corpo glorificado (após o fim do mundo) nenhuma deformidade decorrente das doenças e outros males que contraiu na Terra, em conseqüência do pecado original.

“Visão beatífica” — visão de Deus face a face

Diz São Paulo: “Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1 Cor. 2, 9).

É claro que no Céu nossa felicidade consistirá antes de tudo em ver a Deus face a face, tal como Ele é em sua essência, o que em linguagem teológica se chama “visão beatífica”. Isto é, o homem, como Deus o concebeu e criou, não tem condições de ver a face de Deus, porque sendo Deus infinito em suas perfeições, excede absolutamente a capacidade de compreensão natural do homem. Por isso, Deus dotará os eleitos de uma capacidade superior à sua natureza –– a graça sobrenatural –– de forma a poderem contemplar a Deus “face a face” e participar da própria vida trinitária de Deus. Isto é, da vida do Deus uno e trino, em que o Pai gera o Filho desde toda a eternidade; e do Amor recíproco de Deus Pai e Deus Filho, do qual procede o Divino Espírito Santo. Nessa visão de Deus face a face e participação da vida divina consiste a essência da bem-aventurança eterna.

Não obstante, nosso corpo, que participou de nossa luta contra as tentações e dos sofrimentos que suportamos por amor de Deus, é justo que participe também de nossa felicidade eterna. Nossa alma não se sentiria perfeitamente feliz se o corpo não fosse também inteiramente feliz. Em primeiro lugar, no Céu não haverá mais morte nem sofrimento de espécie alguma, ficando o corpo livre de todas as deficiências que possuía nesta terra, como foi dito acima. E, ademais, será adornado com todas as resplandecências e gozará de todos os confortos e castas delícias que a vida na mansão celeste comporta.

Por isso diz São Paulo: “Nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem jamais passou pelo pensamento do homem o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1 Cor 2, 9).

Segundo S. Pedro: “Novos Céus e nova Terra”

Embora nas Sagradas Escrituras não haja uma referência explícita a um lugar celeste que abrigue os corpos dos ressuscitados, o dogma da ressurreição da carne implica necessariamente a existência do que a teologia medieval, que tratou largamente do tema, chama de Céu Empíreo, isto é, o lugar onde ficam os corpos ressurrectos (evidentemente unidos às suas almas).

Entretanto, um importante texto da segunda epístola de São Pedro encaminha os espíritos nessa direção. Ouçamo-lo:

“Porém, o dia do Senhor virá como um ladrão, no qual os céus passarão com um grande estrondo, e os elementos se dissolverão com o calor, e a terra e todas as obras que nela há serão queimadas. Portanto, visto que todas estas coisas estão destinadas a ser dissolvidas, como deveis ser vós — em vossa santa conversação e em vossa piedade — na expectação e na disposição de avançar em direção ao dia do Senhor, no qual os céus, abrasados, se derreterão, e os elementos, com o ardor do fogo, se fundirão? Porém nós esperamos, segundo a sua promessa, novos céus e uma nova terra, nos quais habite a justiça” (2 Pt 3, 10-13), entenda-se a santidade.

Também o apóstolo São João, no Apocalipse, alude ao mesmo desfecho:

“E vi um novo céu e uma nova terra. Porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram [...]. E eu, João, vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu de junto de Deus, adornada como uma esposa ataviada para o seu esposo. E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: Eis o tabernáculo de Deus com os homens, e habitará com eles. E eles serão o seu povo, e o mesmo Deus, com eles, será o seu Deus; e Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem clamor, nem mais dor, porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21, 1-4).

Tal é o prêmio que Deus promete aos que forem justos nesta Terra, isto é, observantes dos Dez Mandamentos.

Relacionamento dos eleitos no Céu

Resta tratar de um ponto que o missivista coloca no fim de sua carta: os relacionamentos de parentesco e de amizade que contraímos nesta Terra permanecerão no Céu? Em particular, os casais permanecerão unidos no Céu?

Não há por que responder negativamente a esta pergunta, ressalvado que, no Céu, não havendo mais propagação da espécie, as faculdades geradoras do ser humano perdem a razão de se exercer. Por isso, Nosso Senhor ensina que “na ressurreição, os homens não terão mulheres, nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mt, 22,30). Mas o amor que uniu os esposos não desaparece, apenas se sublima e atinge seu clímax.

Assim também, todas as relações de amizade que se estabeleceram legitimamente na Terra serão restauradas na sua maior perfeição, no Céu. E os lances de nossa luta pela salvação da própria alma, e das almas de nossos amigos, máxime de tantas pessoas que procuramos beneficiar com nossas obras de apostolado, serão lembrados com emoção e celeste ternura: “Lembra-se daquele dia?”...

Tudo isto visto sub specie aeternitatis, quanto gozo nos trará?

Lutemos e nos esforcemos para sermos dignos dessa perspectiva grandiosa que a Fé católica nos apresenta, e como Verdade de Fé!

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