Março de 2007
Nosso Senhor: modelo de bondade e combatividade
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Nosso Senhor é por excelência o modelo de bondade, mas também de combatividade

Em sua vida, paixão e morte, o Divino Mestre deu-nos magníficas lições de misericórdia, mas além disso foi o exemplo — no grau mais alto que imaginar se possa — do increpador justiceiro na condenação ao mal. Sem dúvida, Ele pregou a misericórdia, mas não propugnou a impunidade sistemática em relação ao mal.

Plinio Corrêa de Oliveira


Formamos o propósito de reservar para análise dos textos do Novo Testamento um capítulo especial [no livro “Em Defesa da Ação Católica”] mais amplo, em que cuidaríamos particularmente da posição em que perante eles se encontram as doutrinas que defendemos.

É óbvia a vantagem de um estudo especial neste sentido. Fazemos a apologia de doutrinas de luta e de força –– luta pelo bem, é certo, e força a serviço da verdade. Mas o romantismo religioso do século passado desfigurou de tal maneira em muitos ambientes a verdadeira noção de Catolicismo, que este aparece aos olhos de grande número de pessoas, ainda em nossos dias, como uma doutrina muito mais própria “do meigo Rabi da Galiléia”, de que nos falava Renan, do taumaturgo um tanto rotariano por seu espírito e por suas obras, com que o positivismo pinta blasfemamente Nosso Senhor, do que do Homem-Deus que nos apresentam os Santos Evangelhos.

Costuma-se afirmar, dentro desta ordem de idéias, que o Novo Testamento instituiu um regime tão suave nas relações entre Deus e o homem, ou entre o homem e o seu próximo, que todo o sentido de luta e de severidade teria desaparecido da Religião. Tornar-se-iam assim obsoletas as advertências e ameaças do Antigo Testamento, e o homem teria ficado emancipado de qualquer obrigação de temor de Deus ou de luta contra os adversários da Igreja.

Sem contestar que realmente na lei da graça tenha havido uma efusão muito mais abundante da misericórdia divina, queremos demonstrar que se dá às vezes a este fato gratíssimo um alcance maior do que na realidade ele tem. Não há, graças a Deus, católico algum que, por pouco que seja instruído dos Santos Evangelhos, não se lembre do fato narrado por São Lucas, que exprime de modo admirável o reinado da misericórdia, mais amplo, mais constante e mais brilhante no Novo Testamento do que no Antigo. O Salvador fora objeto de uma afronta em uma cidade da Samaria. "Vendo isto, os seus discípulos Tiago e João disseram: Senhor, queres tu que digamos que desça fogo do céu, que os consuma [aos habitantes da cidade]? Ele, porém, voltando-se para eles, repreendeu-os dizendo: Vós não sabeis de que espírito sois. O Filho do homem não veio para perder as almas, mas para as salvar. E foram para outra povoação” (9, 50-56).

Misericórdia não significa impunidade sistemática do mal

“E tu, Cafarnaum, [...] hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje. Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para ti”.

Que admirável lição de benignidade! E com que consoladora e grande freqüência Nosso Senhor repetiu lições como esta! Tenhamo-las gravadas bem fundo em nossos corações, mas aí as gravemos de modo tal que reste lugar para outras lições não menos importantes do Divino Mestre. Ele pregou certamente a misericórdia, mas não pregou a impunidade sistemática do mal. No Santo Evangelho, se Ele nos aparece muitas vezes perdoando, aparece-nos também mais de uma vez punindo ou ameaçando. Aprendamos com Ele que há circunstâncias em que é preciso perdoar, e em que seria menos perfeito punir; e também circunstâncias em que é preciso punir, e seria menos perfeito perdoar. Não incidamos em um unilateralismo de que o adorável exemplo do Salvador é uma condenação expressa, já que Ele soube fazer, ora uma, ora outra coisa. Não nos esqueçamos jamais do memorável fato que São Lucas narra no texto acima. E também não nos esqueçamos deste outro, simétrico ao primeiro, e que constitui uma lição de severidade que se ajusta harmonicamente à da benignidade divina, num todo perfeito; ouçamos o que de Corozain e Betsaida disse o Senhor, e aprendamos com Ele não só a divina arte de perdoar, mas a arte não menos divina de ameaçar e de punir: “Ai de ti, Corozain, ai de ti Betsaida, porque se em Tiro ou Sidônia tivessem sido feitos os milagres que se realizaram em vós, há muito tempo elas teriam feito penitência em cilícios e em cinza. Por isso vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidônia no dia do juízo, do que para vós. E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás porventura até ao céu? Hás de ser abatida ao inferno, porque se em Sodoma se tivessem feito os milagres que se fizeram em ti, talvez existisse ainda hoje. Por isso vos digo que no dia do juízo haverá menos rigor para a terra de Sodoma, do que para ti” (Mat., 11, 21-23).

Note-se bem: o mesmo Mestre, que não quis mandar o raio sobre o vilarejo de que acima falamos, profetizou para Corozain e Betsaida desgraças ainda maiores que as de Sodoma! Não arranquemos ao Santo Evangelho página alguma, e encontremos elemento de edificação e de imitação nas páginas sombrias como nas luminosas, pois que tanto umas quanto outras são salutaríssimos dons de Deus.

Se a misericórdia ampliou no Novo Testamento a efusão das graças, a justiça por outro lado encontra, na rejeição de graças maiores, crimes maiores a punir. Entrelaçadas intimamente, ambas as virtudes continuam a se apoiar reciprocamente no governo do mundo por Deus. Não é exato, pois, que no Novo Testamento só haja lugar para o perdão, e não para o castigo.

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