Março de 2007
O navio, a lupa e o agronegócio
Nacional

O navio, a lupa e o agronegócio

Apesar de marginalizado por setores do governo, prejudicado por invasões dos ditos "movimentos sociais" e injustamente atacado por certa mídia, o agronegócio continua sendo coluna da economia nacional

Hélio Brambilla


Um navio singra os mares rumo ao Oriente. Ao ancorar, depara com o espectro de uma conspiração contra o agronegócio brasileiro. A China teria descoberto três ou quatro grãos contaminados de agrotóxico por tonelada de soja, razão para devolver todo o carregamento. Embora tenha ocorrido em 2005, o triste episódio somou-se à maior crise do agronegócio no Brasil nos últimos 40 anos, conforme palavras de Roberto Rodrigues, então ministro da Agricultura. Naqueles dias sombrios, o preço da saca de soja despencou de R$ 50 para R$ 30. A partir dessa crise os preços do produto — carro-chefe das exportações da agricultura brasileira — não se recuperaram mais. Estima-se que em 2007 a situação se equilibre, e quiçá seja solucionado em 2008 (vide seção “Informativo Rural” desta edição).

Enquanto isso, teria início outro fato sinistro. O governo, para financiar suas dívidas, vende títulos da dívida pública a juros altíssimos, atraindo aplicadores de bilhões de dólares no mercado, o que tem provocado a valorização do real e a depreciação do dólar. Não tardou para que o efeito dessa medida se refletisse como um raio sobre os produtos do agronegócio, bem como de outros segmentos industriais e comerciais, arrastando-os à beira da falência. Os ruralistas compram insumos, cotados em dólar à razão de R$ 3,50, e na hora da colheita vendem a safra com o dólar cotado a R$ 2,20. Cumpre ressaltar que na bolsa de Chicago –– ponto de referência das cotações mundiais –– os preços continuaram inalterados ou mesmo em alta. Mas, com o dólar defasado, no Brasil caíram assustadoramente.

Misteriosa mão e lupa seletiva




Ao mesmo tempo, uma misteriosa mão tomava uma lupa, superdimensionava alguns fatos e os fazia circular por todo o Brasil nos grandes órgãos da mídia, sobretudo televisiva. Apenas para exemplificar: em abril de 2006, iniciou-se a veiculação de notícia sobre a auto-suficiência brasileira de petróleo. A campanha durou quatro meses. Em dezembro, dois jornais brasileiros de grande tiragem –– “Folha de S. Paulo” e “O Estado de S. Paulo” (15-12-06) –– noticiaram que a auto-suficiência só viria em fevereiro de 2007, se tanto! O presidente da Petrobrás apressou-se em desmentir que a notícia da auto-suficiência tivesse fins eleitoreiros. Entretanto, um pesquisador da Coppe (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia) da UFRJ, Giuseppe Bacoccoli, criticou a posição da Petrobrás ao anunciar a auto-suficiência: “Sem dúvida, a campanha teve objetivo eleitoral. A notícia não foi dada em cima de um fato, mas sim baseada numa estimativa”. Outro especialista do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura) Adriano Pires, comentou: “Claramente, houve uso político da companhia. Quando foi anunciada, a auto-suficiência não existia”. “Folha de S. Paulo”, 15-12-06.

A mesma lupa também inflou os 11 milhões de bolsas-família e as 200 mil bolsas de estudo universitárias, denominadas Prouni, além de outros programas sociais do governo.

Essa mesma sinistra mão direcionou a lente para a “gripe aviária”. Detectou-se ao longe, nos países do Oriente, um vírus que contagiava as aves, matando algumas delas, o que teria obrigado as autoridades a dizimar edifícios de criação de aves para evitar um possível contágio humano. Esses fatos reais, um tanto preocupantes, foram noticiados no Brasil com uma tendência nitidamente de “terrorismo publicitário”. Com isto, nossas exportações de carne aviária despencaram. As corporações produtoras acumularam grandes estoques. A solução foi desová-los no mercado interno a preços aviltados. Em conseqüência, a mesma mídia deixava entender que o governo teria se tornado “o pai dos pobres”, uma vez que a população nunca havia comido carne de frango a R$ 0,99 o quilo.

Mais uma vez a mão dirige a lupa para um novo episódio.

Em decorrência da falta de controle das autoridades sanitárias, como denunciaram vários especialistas, focos de febre aftosa surgidos em assentamentos de “sem-terra” teriam contaminado o rebanho de uma fazenda, através das águas de um rio que passa pelo assentamento. Tal rebanho é de alta genética, sendo suas rezes vacinadas até quatro vezes ao ano. De lá, segundo o noticiário, a febre ter-se-ia espalhado para o estado do Paraná. Autoridades, de forma autoritária edesastrada, ordenaram que fossem abatidas milhares de cabeças de gado para evitar uma possível proliferação. A mesma mão assesta a lupa, aumenta o fato e o estrondeia para o Brasil e para o mundo, através de certa mídia. Nossas exportações de carne bovina e suína (os suínos também podem contrair a febre aftosa) despencaram, e os frigoríficos, com grandes estoques, colocaram o excedente no mercado interno, fazendo os preços desabarem no varejo. E a mesma mídia tocou o realejo: “Nunca o povão comeu carne bovina e suína a preço tão barato”. Fato curioso: pouco mais de um ano depois, laudos oficiais comprovam que os focos de febre aftosa não existiram no Paraná (Cfr. “Folha de S. Paulo” 29-12-06 e “Estado de S. Paulo” 29-12-06). Os prejuízos do setor de carnes, de acordo com o Boletim da Coopavel (Cooperativa de Agropecuária de Cascavel), superaram o valor de 5 bilhões de dólares.

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