Março de 2007
O glorioso Patriarca São José, patrono da Igreja Universal
Vidas de Santos

O glorioso Patriarca São José, patrono da Igreja Universal

A Igreja aconselha a não comparar santos. Mas São José, por ter sido o pai legal de Nosso Senhor e casto esposo de Maria Santíssima, atingiu um grau de santidade e de glória sem par em toda a Igreja

Plinio Maria Solimeo


A respeito de São José,(1) encontramos poucos dados nos Evangelhos, como também “os sagrados evangelistas nos dizem poucas coisas da Virgem, mas compendiaram todas suas glórias em um só título ao chamá-la Mãe de Deus — de quem nasceu Jesus. Do mesmo modo, pouco nos contam da vida e virtudes de São José, mas disseram muito ao chamar-lhe Esposo da Virgem. Como se dissessem: ‘Quereis que vos diga em uma palavra quem era José? Ei-la aqui: Era o esposo de Maria, a Mãe de Deus’. Nesta afirmação se encerram louvores quase infinitos”.(2)

Para avaliarmos essa grandeza, consideremos que Deus, ao escolher alguém para uma missão, dá-lhe graças proporcionais para realizá-la. Além do que, quanto mais alguém se aproxima da fonte da graça, tanto mais dela participa. Ora, São José esteve intimamente ligado à própria fonte, Jesus Cristo, e à Medianeira de todas as graças, Maria Santíssima. Daí sua grandeza.

Por outro lado, a missão e predestinação de São José, como a da Virgem Maria, requeriam uma santidade singular desde seus primeiros anos: “Considerada a missão totalmente divina de José, o Deus providente lhe concedeu todas as graças, desde sua infância: piedade, virgindade, prudência, perfeita fidelidade”.(3)

Segundo o comum dos teólogos, dois são os princípios nos quais se apóia toda a teologia sobre São José: primeiro, sua união com Maria pelo matrimônio; segundo, seu ministério paternal junto de Jesus Cristo. Ora, toda a mariologia se apóia em um princípio fundamental: Maria é a mãe de Deus-Redentor. Este é o título, fonte e raiz, fim e medida de todas as graças e privilégios de Maria Santíssima. De modo semelhante, a teologia tem a respeito de São José um fundamento primeiro e principal: o casamento que o liga a Maria, a Mãe de Cristo.

Virgindade do glorioso Patriarca

Santo Tomás de Aquino diz que é teologicamente certo que o matrimônio entre São José e a Virgem Maria foi verdadeiro e perfeito quanto à essência ou primeira perfeição, mas não quanto ao uso do mesmo, pois não coabitaram. E que São José guardou perfeita virgindade durante toda sua vida, pois tanto ele quanto a Virgem Imaculada mantiveram o voto de virgindade, condicionado antes do matrimônio, e absoluto depois.

O Doutor Angélico afirma assim que São José fez voto de virgindade. Acrescenta ele que a Bem-aventurada Virgem, antes de unir-se a José, deveria ter sido cientificada por divina revelação de que José tinha o mesmo propósito. E que, portanto, não se expunha a perigos, casando-se. Pelo que não só Maria, mas também José, estavam dispostos, em seu interior, a guardar virgindade. E deveriam ter feito mesmo um voto. Isso porque as obras de perfeição são mais louváveis se se cumprem sob voto.

São José, confirmado em graça

O Anjo ordena a São José levar a Sagrada Família para o Egito

Santo Tomás afirma também que a Mãe de Deus era superior aos anjos, quanto à dignidade a que havia sido eleita por obra de Deus, embora, quanto ao estado da vida presente, fosse inferior. O que, guardadas as devidas proporções, se pode dizer também de São José.

Pode-se ir mais longe: Como diz o Apóstolo: “A cada um de nós foi dada a graça na medida do dom de Cristo” (Ef 4, 7). Só Cristo Nosso Senhor teve a plenitude absoluta da graça, quanto à sua essência e quanto a todos os seus efeitos, que são as virtudes e dons, pela união estreitíssima de sua alma com a divindade, e por recebê-la também para comunicá-la como cabeça dos demais. A Virgem Maria teve a plenitude relativa, que correspondia à sua excelsa missão de Mãe de Deus, plenitude essa que é incomparavelmente superior à que podem obter todos os demais santos, e também mais excelente do que aquela a que pode chegar uma pura criatura, porque tal é a excelência da maternidade divina.

A plenitude relativa de graça, a que chegam os santos, equivale ao que os teólogos chamam de confirmação em graça ou confirmação no bem. Quer dizer, certa impecabilidade, que se dá mediante um grande aumento da caridade. A esta se soma uma proteção especial de Deus, que afasta as ocasiões de pecado e fortalece a alma quando necessário, de modo a preservá-la do pecado mortal e até de pecado venial deliberado.

Santo Tomás afirma que a Santíssima Virgem foi confirmada no bem em todo o decurso de sua vida, sem haver incorrido em contaminação alguma. E isso lhe competia por ser mãe da Sabedoria divina. Pelo que se pode afirmar que era também de todo conveniente que São José, pela sua íntima relação com a mesma Sabedoria divina e com a Mãe do Verbo Encarnado, fosse confirmado em graça, pelo menos a partir do momento de suas bodas com a Virgem Santíssima.

O que leva um teólogo a acrescentar que "a Virgem Maria, como ‘cheia de graça’, esteve adornada de todas as virtudes, possuindo-as no grau mais perfeito de que seja capaz uma criatura. Como dizem muitos autores, até as virtudes naturais, que se adquirem pelo exercício, devia tê-las infundidas por Deus, como perfeições apropriadas à sua natureza imaculada [...]. São José não se pode comparar exatamente com a Virgem, mas sempre é ele que está mais intimamente unido a ela, e por ela a Jesus. Por isso também está acorde com as exigências de sua santidade, e de sua divina preparação para tão alto ministério, a infusão das mesmas virtudes naturais, que sem dúvida obteve em muito alto grau”.(4)

Por isso, pode-se afirmar que o ministério de São José sobrepuja mesmo o de São João Batista, porque toca na ordem hipostática, enquanto que o do Precursor só toca na ordem da graça, como diz Cornélio a Lápide: “É mais ser pai e reitor de Cristo que seu pregoeiro e precursor”.(5) Pelo que se pode mesmo afirmar que o ministério de São José excede também ao dos Apóstolos pelo mesmo motivo.

Desse modo, não seria ousado afirmar que, sendo assim a santidade de São José a maior depois da Virgem, o mesmo se pode dizer de sua glória no Céu.(6)

Um varão adornado de todas as virtudes

Pode-se afirmar que São José foi confirmado em graça, pelo menos a partir do momento de suas bodas com a Virgem Santíssima.

São Mateus afirma em seu Evangelho que São José “era um varão justo”. Isto, na linguagem bíblica, significa um varão adornado de todas as virtudes. Por outro lado, tanto São Mateus quanto São Lucas afirmam que São José é descendente do rei David, o que revela sua dignidade mesmo do ponto de vista natural.

São José exerceu o ofício de pai dentro da Sagrada Família. A ele coube dar nome ao seu filho legal, como lhe foi dito pelo anjo. A ele coube também zelar pela segurança de Jesus-Menino e de sua Mãe. E, em todo momento, Jesus obedece a São José como a verdadeiro pai (Lc 2, 51).

No Evangelho consta que São José era carpinteiro: “Não é este o filho do carpinteiro?” (Mt 13, 55). Mas a expressão é mais genérica, pois diz filius fabri, quer dizer, filho de artesão. A tradição traduziu o artesanato por carpinteiro, mas sem excluir o fato, sem dúvida certo, de que São José, em muitas ocasiões, prestou outros serviços comuns de um trabalhador manual, para ganhar o sustento diário de sua família.

Patrono da Igreja, modelo das famílias cristãs

Na Encíclica Quamquam pluries, Leão XIII expõe de maneira densa e profunda a doutrina sobre São José, desde os fundamentos de sua excelsa dignidade e glória até a razão própria e singular de ser proclamado patrono de toda a Igreja, bem como modelo e advogado de todas as famílias e lares cristãos.

Bento XV, ao cumprir-se meio século da proclamação de São José como patrono da Igreja universal, em seu motu proprio Bonum sane, recordando a necessidade e eficácia da devoção ao santo Patriarca, propõe suas virtudes de modo especial às famílias pobres e aos trabalhadores humildes, tão descristianizados em nossa época neopagã.

São José, Padroeiro da boa morte

Diversos teólogos, entre eles São Francisco de Sales e Santo Afonso Maria de Ligório, afirmam que São José morreu de amor de Deus.

Por fim, é crença comum que o santo Patriarca dormiu no Senhor antes de Cristo começar seu ministério público, com toda certeza antes das bodas de Caná, e, por conseguinte, antes da Paixão do Senhor. E diversos teólogos, entre eles São Francisco de Sales e Santo Afonso Maria de Ligório, afirmam que ele morreu de amor de Deus.

Sendo impossível nos limites de um artigo abarcar toda a rica teologia de São José, terminemos com São Bernardino de Siena: “Piedosamente se há de crer que, em sua morte, teve presentes a Jesus e a Maria Santíssima. Quantas exortações, consolos, promessas, iluminações, inflamações e revelações dos bens eternos receberia em seu trânsito da parte de sua santíssima Esposa e do dulcíssimo Filho de Deus, Jesus”.(7)

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Notas:

1. Para este artigo baseamo-nos no excelente livro do Pe. Frei Bonifácio Llamera, O.P., Teología de San José, Biblioteca de Autores Cristianos, Madri, 1953.

2. João de Cartagena, Homiliae cath. De sacris arcanis Deiyparae et S. Ioseph, 1. 4. homil. 7 (Neap. 1859), apud Pe. Llamera, op.cit., p. 37.

3. Pe. Garrigou Lagrange, in "Angelicum", abril-junio, 1928, p.197, apud Pe. Llamera, op. cit., p. 198.

4. Pe. Llamera, op. cit., p. 217.

5. Celio a Lapide, Comm. In Mt 1, 16, apud Pe. Llamera, op. cit., p. 187.

6. Cfr. Pe. Muñiz, O.P., San José en la Teología, "La Vida Sobrenatural", abril/1935, p. 265, Salamanca, apud Pe. Llamera, op.cit., p. 299

7. Sermo de S. Ioseph, a. 2, apud Pe. Llamera, op. cit., p. 295.