Dezembro de 2002
A ditadura da moda
Destaque

A ditadura da moda

Furar partes do corpo para inserir um anel, alfinete, anzol, grampo e outros objetos — é a moda do piercing

Luis Dufaur

Orelha, sobrancelha, queixo, nariz, bochechas, língua — tudo serve.

Dir-se-ia que a moda de incrustar objetos no corpo é a moda da dor e da infelicidade. O bom senso e o senso católico ficam chocados com extravagância tão repulsiva. Mais assustador ainda é o fundo moral e psicológico que essa moda revela.

Um historiador da arte, Denis Bruna*, pesquisou antecedentes da degradante moda no mundo cristão. No pagão, não precisava, pois índios americanos e selvagens africanos ainda costumam deformar o corpo com artifícios até mais sádicos e supersticiosos.

Em pinturas do fim da Idade Média, Bruna descobriu indivíduos com a face traspassada com anéis, cadeias, penduricalhos ou broches. Numa Via Crucis de Hieronymus Bosch, os carrascos de Nosso Senhor aparecem com piercing, com o rosto furado por anéis. Uma parteira histérica, um velho lúbrico e infiéis também portam esses piercings como estigmas de infâmia.

Outrora símbolo de castigo, hoje é moda...

Na Idade Média, certos crimes merecedores de uma execração especial, como falso testemunho e graves injúrias à autoridade, podiam ser punidos com um piercing na língua. O pingente masculino, desprezado nos tempos de fé, voltou na renascentista corte dos Valois, decadente e efeminada, mas extinguiu-se junto com essa dinastia.

É espantoso notar que, quase dois mil anos depois da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, a humanidade que recusou a Igreja e a Civilização Cristã disputa, para cravar em suas carnes, os sinais que outrora os pintores punham nos torpes semblantes dos carrascos que atrozmente crucificaram o Cordeiro sem mancha, nosso Divino Redentor.

*Cfr. Denis Bruna, Piercing. Sur les traces d'une infamie médiévale, Textuel, Paris, 2001.