Abril de 2003
A vítima expirou, o sacrifício foi consumado, opera-se a Redenção e o gênero humano foi salvo
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SEMANA SANTA

Meditada e comentada por Plinio Corrêa de Oliveira



“Nosso Senhor subia pela Via Sacra quando encontrou Nossa Senhora. Ele foi o mais amoroso dos filhos e Ela foi a mais perfeita das mães. Como Ela há de ter chorado, vendo-O nessa deplorável situação! Como Ele há de ter chorado, vendo-A presenciar o seu infortúnio tremendo!”

Na cidade espanhola de Úbeda (Andaluzia), realizam-se a cada ano piedosas e magníficas procissões na Semana Santa, com uma força de expressão e uma sacralidade ímpares. A Fé, servida pela piedade e cultura católicas, reluz de modo empolgante, num contexto arquitetônico religioso e nobiliárquico excepcional.

Quase 14.500 dos 32.500 habitantes da cidade estão inscritos em Confrarias e Irmandades devotadas aos passos da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. As mais antigas tomaram forma no século XVI. Mas a maioria é do século XX, tendo superado as devastações feitas pelos comunistas na Guerra Civil espanhola (1936-1939), e pela crise pós-conciliar* . Imagens e andores, em estilo tradicional, são entretanto de elaboração recente. De fato, quando o autêntico espírito de fé procura formas de sublimidade, como que instintivamente se aproxima dos modelos da grande e solene ordem medieval.

O conjunto fotográfico ilustra numerosos comentários e meditações do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, feitos para sócios e cooperadores da TFP, de 1965 a 1995. Catolicismo oferece a seus leitores uma seleção especial deles (correspondem aos trechos entre aspas e em letra diferente), precedidos de breves informações — redigidas por nosso colaborador, Sr. Luís Dufaur — sobre as confrarias.

Nas cerimônias de Ubeda, a co-redenção de Nossa Senhora vem admiravelmente ressaltada pela ardente devoção espanhola. Cada passo da Paixão de Nosso Senhor é seguido de um outro que explicita e comenta o papel da Mãe de Deus.

A maravilhosa e confortadora verdade da co-redenção ocupa também lugar central na visão do universo, do Prof. Plinio, especialmente em função da atual crise da Igreja.

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“Assim como a Redenção foi a culminância da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, a co-redenção foi o ápice da existência de Nossa Senhora.

O divino Redentor sofreu na Paixão por todas as vicissitudes que a Igreja Católica enfrentaria nas eras vindouras. Ele conheceu todas as misérias da Igreja na situação atual. Elas [Lhe] arrancaram os seus gemidos mais pungentes, pois a Santa Igreja é a Sua obra-prima.

Em verdade, como São Pio X denunciou na encíclica Pascendi Dominici Gregis, uma conspiração interna, o modernismo [e posteriormente o seu sucedâneo, o progressismo] pretende destruir a Igreja Católica. Trata-se da obra mais nefasta contra os frutos da Redenção. É como um novo deicídio, de cunho preternatural tão acen­tuado, que só seria exeqüível por mãos consagradas.

Nesse panorama, o que é o mais importante para a minha vida de católico? Não é o que eu vou fazer amanhã, mas é acompanhar em espírito essa Paixão da Igreja. É tê-la permanentemente como fundo de quadro, agir, rezar, sofrer, ter compaixão pela Igreja”.

Irmandades e Confrarias estimuladas por Santos e aprovadas por Papas e Concílios

As vestimentas das Irmandades ou Confrarias aqui descritas destoam do ateizado mundo moderno. Mas elas apresentam um rico passado católico. Foram aprovadas por Papas e Concílios desde a Idade Média. Naquela época, representava-se a Paixão diante das catedrais. Os intérpretes eram simples fiéis, que se recobriam despretensiosamente com roupas alegóricas e as cores da Liturgia. Esta é a origem remota das túnicas e chapéus (capirotes), que ocultam o rosto.

Desde 1411, São Francisco Ferrer criou na Espanha e França companhias de penitentes que faziam penitência pública e profissão de Fé, em grupos, por ruas e estradas. Visavam reparar as ofensas feitas a Nosso Senhor, durante a Paixão, e os pecados da época. Nos séculos XVII e XVIII na França, São Luis Maria Grignion de Montfort agiu de modo análogo.

No século XVI, com o estímulo do Papa Paulo III e do Concílio de Trento, as confrarias penitenciais revestiram–se de esplendor externo, oposto ao ascetismo hirto e vazio do protestantismo. Tais associações, ou pias uniões, também intensificaram muito o culto a Nossa Senhora. Elas florescem hoje em toda a Espanha, especialmente na Andaluzia. Mas há congêneres das mesmas, notadamente na América Central, no Peru, na Colômbia e no Equador.

DOMINGO DE RAMOS

A Real Confraria da Entrada de Jesus em Jerusalém e Maria Santíssima do Amor faz a sua procissão no entardecer do domingo. Os confrades portam túnica verde, capa dourada, capirote (chapéu cônico), cíngulo e luvas brancas. O andor da frente representa Nosso Senhor entrando na Cidade Santa, sentado num jumento. No andor seguinte, a Mãe de Deus contempla a tragédia que se avoluma.



“A entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos, patenteia quanto o povo O apreciava incompletamente. Aclamavam-No, é verdade, mas Ele merecia aclamações incomensuravelmente superiores, e uma adoração bem diversa!

Humildemente sentado num burrico, Ele atravessava aquele povo, impulsionando todos ao amor de Deus. Em geral, as pinturas e gravuras O apresentam olhando pesaroso e quase severo para a multidão. Para Ele, o interior das almas não oferecia segredo. Ele percebia a insuficiência e a precariedade daquela ovação.

Nossa Senhora percebia tudo o que acontecia, e oferecia a Nosso Senhor a reparação do seu amor puríssimo. Que requinte de glória para Nosso Senhor! Porque Nossa Senhora vale incomparavelmente mais do que todo o resto da Criação. Este é o lado misterioso da trama dos acontecimentos da Semana Santa.

Maria representava todas as almas piedosas que, meditando a Paixão, haveriam de ter pena d’Ele e lamentariam não terem vivido naquele tempo para tomar posição a seu lado”.

* Cfr. Prof. José Sánchez Herrero, catedrático de História Medieval da Universidade de Sevilla, La evolución de las Hermandades y Cofradías desde sus momentos jundacionales a nuestros días, http://www.hermandades-de-sevilla.org/hermandades/historiahermandades.htm.

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