Julho de 2003
São Gregório VII, Papa paradigmático da História da Igreja
Grandes Personagens

São Gregório VII, Papa paradigmático da História da Igreja

Embora esse extraordinário Pontífice tenha sido canonizado, devendo pois, em princípio, figurar na seção Vida de Santos, sua exponencial atuação de tal maneira marcou a História, que é adequado reverenciá-lo na seção Grandes Personagens

  Miguel Beccar Varela

O Imperador alemão Henrique IV aos pés de São Gregório VII

       À direita da nave central da Catedral de Salerno (século XI) encontra-se a Capela dos Cruzados. Lá não mais comparecem os cruzados para fazer sua vigília de armas. Sob o altar de pedra tosca está o túmulo de São Gregório VII. Atualmente, quem visita o local percebe ali um ambiente de solidão, uma penumbra cheia de recolhimento, impregnada de oração. E a recordação do grande Papa, marco na História da Igreja e da Cristandade, inspirador de Cruzadas, suscita admiração e enlevo nos visitantes daquele abençoado lugar.

Da calma do mosteiro às lutas em Roma

Hildebrando — futuro Papa São Gregório VII — era monge na célebre abadia de Cluny, na França, na época em que São Hugo dirigia como abade esse extraordinário mosteiro, onde o espírito feudal encontrou seu pleno equilíbrio católico.

      Em 1049, ali foi procurá-lo Mons. Brunon, Bispo de Toul, que havia sido nomeado Papa por seu parente, o Imperador Henrique III. Tal  método de designação de um Papa, ainda válido então, havia se tornado abusivo. Brunon, como Sumo Pontífice, adotou o nome de Leão IX. Levou o monge Hildebrando consigo para Roma e nomeou-o arquidiácono, primeira dignidade do Sacro Colégio de Cardeais e administrador da Santa Igreja. Iniciava-se assim um longo combate, de muitos anos de duração, daquele  que talvez tenha sido o maior dos Papas da História.

      Filho de um pequeno proprietário de terras, Hildebrando nasceu na diocese de Soana, na Toscana, entre os anos de 1020 e 1025. Em 1045 entrou em cena ao ser nomeado capelão do Papa Gregório VI. O estado de decadência em que se encontrava a Igreja o fazia sofrer, ao mesmo tempo que aumentava sua disposição e seu ânimo para uma autêntica luta.

     A esse propósito, assim escreveu o Abade São Hugo, de Cluny: “Gostaria de vos tornar compreensivas as tribulações que me acometem e os cuidados incessantes que me afligem cada vez mais. Pedi muitas vezes ao Divino Salvador que me tirasse deste mundo. Ou então, que me desse as graças para servir como devo à Santa Igreja. Vendo a Igreja do Oriente separada da Fé católica pelo espírito das trevas, sinto uma dor que não posso exprimir e uma profunda tristeza que invade minha alma. Procuro observar o Ocidente, o sul e o norte. Difícil encontrar alguns sacerdotes que chegaram ao episcopado pelas vias canônicas, levando vida conveniente e governando seu rebanho no espírito de caridade[...]. Entre os príncipes seculares, não conheço quem prefira a glória de Deus à sua própria glória, a justiça ao interesse. Romanos, lombardos e normandos, entre os quais vivo, são piores do que os judeus e pagãos[...]. Se não tivesse esperanças em melhores tempos e em ser útil à Igreja, não me conservaria mais tempo em Roma, onde estou, Deus o sabe, como preso há vinte anos, entre uma dor que se renova quotidianamente e uma esperança muito longínqua! Acometido por mil tempestades, minha vida é uma agonia continuada.”1

Contra investidura em cargos eclesiásticos

      Um dos maiores perigos que naquele tempo a Igreja teve que enfrentar foi a chamada luta das investiduras. Na instituição feudal, a investidura consistia numa cerimônia durante a qual o senhor concedia simbolicamente o feudo ao vassalo. Neste ato, entregava-lhe um objeto simbólico: um punhado de terra do feudo e um ramo. No caso de serem terras eclesiásticas, entregava o báculo ou o anel. Em conseqüência, o vassalo ficava vestido do feudo que recebia, adquirindo sobre ele um direito que compartilhava com o senhor. Após a investidura, realizava-se o juramento de fidelidade e a homenagem do vassalo ao senhor.2

      O problema se colocava nas grandes propriedades de terras que a Igreja possuía. Com efeito, durante séculos Ela havia recebido numerosas doações de terras. E os bispos e abades de toda a Europa administravam tais propriedades como grandes senhores feudais. Surgia, assim, o problema político da relação temporal entre o rei e o bispo ou o abade, como proprietário de terras. Era natural que o rei exigisse uma certa sujeição temporal do bispo, enquanto senhor de grandes domínios dentro do reino. Mas, pouco a pouco, para  assegurar essa fidelidade, os imperadores passaram a nomear leigos de sua confiança para os grandes feudos eclesiásticos. O imperador então os investia do anel e do báculo. Não apenas lhes outorgava a terra como feudo, mas também decidia quem seria sagrado bispo. Em vista disso, geralmente os candidatos às abadias e aos bispados não eram eclesiásticos, mas simples leigos, que pagavam ao imperador enormes somas pela investidura. A autoridade jurídica da Igreja sobre os clérigos assim nomeados se perdia, porque eles ficavam sujeitos à autoridade civil. A investidura laica tornou-se, pouco a pouco, um fato consumado que era necessário erradicar, sob pena de a Igreja perder sua independência.

      E ainda, para piorar as coisas, os bispos assim nomeados pelo imperador pretendiam que seu cargo se transmitisse por herança à sua família. Para isso, procuravam ter descendência. E, em conseqüência, não respeitavam o celibato, que havia séculos já estabelecera na Igreja do Ocidente.

      Foi a partir dos imperadores saxões e sálicos (Otos e Henriques, com exceção de Santo Henrique II) que o problema se tornou mais agudo. Roma passou a ser considerada apenas como uma diocese a mais.3


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