Setembro de 1992
“Le Monde” e o “jeitinho
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Brasil Real

“Le Monde” e o “jeitinho

Leo Danielle

Com bastante freqüência, aqueles que fazem esta revista têm o privilégio de assistir a conferências do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre os acontecimentos da atualidade.

Nelas, a realidade no que tem de mais vivo entra em foco em todas as escalas, descendo quando oportuno das grandes cordilheiras aos menores pedregulhos.

Assim foi que, numa dessas reuniões, a atenção dos participantes viu-se solicitada a se fixar no jornal parisiense “Le Monde”, o qual tentava explicar para o público francês em que consiste o famoso “jeitinho” brasileiro.

–– Mas, por que não me convidaram? perguntará talvez, de si para consigo, algum leitor.

–– Não seja por isso. Em espírito, sente-se em nosso auditório e “ouça” um trechinho da reunião. Sinta-se em casa.

“Os senhores todos sabem que a expressão “jeitinho”, lingüisticamente falando, nada tem de extraordinário.

“Todo o mundo dá um jeito para ter um pouco de jeito. Um jeitinho é um jeito pequeno; não há nisso maior segredo. Mas, no caso concreto do “jeitinho brasileiro”, é um certo modo de fazer as coisas, que deixa muito intrigadas as pessoas de fora do Brasil. Elas percebem que há algo de especial e não sabem definir.

“Lembro-me de um europeu que há uns vinte, talvez trinta anos atrás, esteve conosco no Rio de Janeiro. Falávamos de uma e outra coisa, e da indolência que se nota em certos brasileiros. Ele, que era assim um pouco espevitado, voltou-se para trás:

–– Indolência! Mas os senhores ousam falar da indolência do brasileiro? Como é que se pode dizer isso de um povo que tem Chauffeurs de lotação como os do Rio de Janeiro?

Fiquei pasmo. Ele acrescentou:

–– Estive prestando atenção na conduta do motorista durante todo o percurso. Ele tinha nos vários dedos da mão diversas notas de diferentes valores. Sua mão era, assim, uma classificadora de notas em que já as punha todas dobradas de tal maneira que, quando precisava dar o troco ao passageiro, num instante o executava. Com a mesma mão, cheia de notas, mandava o trânsito parar, manobrava, e não caía uma só nota da mão dele. Depois, com essa mão carregada de notas, guiava o veículo a toda velocidade. E ainda fazia isso fumando um pouquinho e olhando o que se passava na rua com interesse. Isto o senhor chamaria indolência? Mas é uma super-vivacidade!

“Ele não soube dizer: isto é o jeitinho. É o jeitinho no modo de fazer e de operar de um chauffeur. Mas que também se faz sentir em mil outras atividades ou situações em que o brasileiro se encontra.

Daí o espírito da definição que “Le Monde”, no dia 2 de junho deste ano, publicou a respeito do jeitinho:

“Uma hábil solução, freqüentemente de última hora... É bem o jeitinho, não é?

"... que não acalma necessariamente os nervos, mas que retrospectivamente toma sem razão de ser a angústia dos neófitos”.

“Para mim, a parte mais espirituosa da definição é o fim. Depois que o jeitinho resolve de modo brilhante um problema que angustiava, a pessoa percebe que ficou nervosa à-toa...

Apenas, seria interessante retificar um elemento da definição do “Le Monde”. É que o jeitinho não é uma solução, mas um processo para conseguir uma solução. Ou mais precisamente, é um determinado estilo de processo para conseguir uma solução.

A natural vivacidade desse chauffeur tinha uma não menos natural necessidade de expansão. Na monotonia do guiar o dia todo, essa vivacidade pedia a ele certo gesticular, certo jogo que o distraísse; daí, talvez, viera todo o resto.

A essa altura da reunião, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira voltava aos grandes panoramas. Ao mesmo tempo em que o espaço reservado a esta coluna chegava ao fim.

Limito-me a dizer que o assunto está na ordem do dia e que retornarei a ele.

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