Junho de 2005
Perigoso despertar do dragão amarelo
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Internacional

Perigoso despertar do dragão amarelo

Com o despertar do dragão chinês –– fartamente alimentado por capitais ocidentais ––, o comunismo, na aparência extinto com o desmoronamento da União Soviética, pode voltar e tentar subjugar o Mundo Livre

 Renato Murta de Vasconcelos
Correspondente
Espanha

                                                                                                   

O passado século XX traz indiscutivelmente a marca da influência dos EUA. A China comunista ambiciona essa influência para si neste século. Com o apogeu econômico e propagandístico da China, muitos observadores internacionais opinam sobre o que parece ser o despertar do dragão amarelo e o grande perigo a ameaçar o mundo nas próximas décadas.

De fato, do ponto de vista econômico, a China poderia, segundo alguns analistas, tornar-se dentro de três décadas a maior potência da Terra. A taxa de crescimento de sua economia – 9% – representa quase o dobro da dos EUA e é a maior do mundo. No fim do ano passado, possuía uma reserva de 403 bilhões de dólares, só inferior à do Japão. Industrializando-se a passos de gigante, a China absorve 26,9% da produção mundial de aço, 31,3% da de carvão, e é o segundo maior consumidor de petróleo.(1)

Os alicerces para o “boom” econômico foram colocados em 1978, quando os líderes chineses, sem renunciar à ideologia comunista, fizeram concessões à economia de mercado “ad intra” e “ad extra”.

“Ad intra” as reformas econômicas concederam aos citadinos a liberdade de fundar pequenas empresas, e aos camponeses a de plantar e vender seus produtos. “Ad extra” abriram as portas aos investimentos estrangeiros, que ascendem hoje a mais de 50 bilhões de dólares anuais. Empresas multinacionais instalando-se no país, fábricas de automóveis, de aparelhos eletrônicos, de eletro-domésticos, de artigos desportivos, de brinquedos, e quanto mais se possa imaginar, surgiram como cogumelos por toda a parte.

Trabalho quase escravo gerando produtos ordinários

Chineses trabalham numa das inúmeras fábricas montadas com apoio de multinacionais ocidentais e asiáticas como as do Japão
A mão-de-obra de custo ínfimo, fornecida por uma população de 1,3 bilhão de pessoas a trabalharem muitas vezes em condições sub-humanas, encheu prateleiras dos macro, super e mini-mercados do mundo inteiro com produtos baratíssimos — de qualidade muito discutível —, provocando desemprego em muitos países ocidentais.

A par das multinacionais surgiram empresas nacionais bem sucedidas, cujos donos, mestres na arte do “guanxi” –– isto é, captar as boas graças dos líderes comunistas –– tornaram-se em poucos anos verdadeiros cresos. Muitos deles, despóticos e contando com cumplicidade oficial, atuam como verdadeiros chefes de máfias.(2)

E vai se verificando uma curiosa regra de três: assim como empresários americanos e europeus montam fábricas na China, aproveitando-se da mão-de-obra barata, assim também empresários chineses estabelecem fábricas nas cidades limítrofes da Sibéria, onde os salários são ainda bem mais baixos. E aos poucos a China vai sendo chamada de os Estados Unidos da Ásia.

Xangai, por exemplo, tornou-se uma cidade que compete em tamanho e riqueza com Nova York e Tóquio. No boulevard Bund, às margens do rio Huang-pu, em meio a uma floresta de arranha-céus, encontram-se numerosos hotéis de cinco estrelas, um dos quais, o Hyatt, é o mais alto do mundo.

A China virou o país dos superlativos. O país de maior extensão territorial, com a população mais numerosa da Terra, está terminando de construir no rio Yang-tsé a maior represa de todos os tempos e lugares, próximo da grande Tomkin com seus 31 milhões de habitantes.

Compreende-se que em outros campos a China não queira ficar atrás. Em 2001 mandou ao espaço seu primeiro “taikonauta” (de taikon, espaço). No campo da genética, está avançada nas pesquisas com embriões, pouco se importando com a moral. E o laboratório da Micro-Soft Research Asia, com sede em Pequim, representa o que atualmente existe de mais sofisticado na área da informática.

Poderio militar do dragão e desejo de abocanhar Taiwan

O dragão continental não ousou até agora abocanhar, pela força, a ilha Formosa. Na foto desfile do exército comunista em Xangai
A China destina anualmente uma verba de cerca de 40 bilhões de dólares para gastos militares. Dispõe de um exército de 4 milhões de soldados que devem ser reduzidos a dois milhões, na medida em que os armamentos forem modernizados. O arsenal do exército vermelho provém da antiga União Soviética e encontra-se obsoleto graças ao embargo à venda de armas lançado pela ONU.

Ora, com seu “boom” econômico a China tornou-se mercado interessantíssimo para países exportadores de armas. E na surdina vem sendo feita uma campanha para levantar o embargo da ONU. Ainda há pouco, Gerhard Schröder, chanceler da Alemanha, defendeu de modo claro que o embargo deveria ser suspenso. De modo algum, argumenta ele candidamente, seu país deseja fazer comércio de armas com a China. Longe dele tal pensamento! O problema é que tal embargo não mais se coadunaria com a atual quadra mundial…

Taiwan possui forças militares muito bem treinadas e equipadas com armamentos modernos. O que é um argumento dissuasório de peso...
Isso justamente no momento em que o dragão amarelo solta rugidos rumo a Taiwan (ou Formosa, como os portugueses a chamavam), ameaçando anexá-la à força, caso não se reúna de boa vontade ao continente dentro dos próximos 15 anos. E a propósito da invasão nipônica na segunda guerra mundial, bate a cauda em direção ao Japão, com ameaças implícitas...

Em 1945, quando os comunistas de Mao-Tsé-Tung ganharam a guerra civil, os nacionalistas liderados por Chiang-Kai-Chek refugiaram-se na ilha de Taiwan e aí constituíram um governo independente que, desde o início, declarou-se legítimo governo de todos os chineses. Assim o entendeu a comunidade internacional, e Taiwan foi membro da ONU até 1970, ano em que este organismo admitiu a República Popular da China e excluiu Taiwan.

País independente e fortemente anticomunista, com 20 milhões de habitantes, Taiwan é um dos tigres asiáticos e possui a terceira maior reserva monetária do mundo. Mas também um exército muito bem treinado e equipado com armamentos modernos. É o que em boa parte explica por que o dragão continental não ousou até agora abocanhar a ilha Formosa.

Perseguição aos católicos fiéis a Roma

Num país oficialmente ateu, paradoxalmente observam-se manifestações que tendem a "divinizar" os líderes da revolução marxista
Os líderes chineses declaram-se adeptos do maoísmo-leninismo. O ateísmo é ensinado oficialmente nas escolas do país. Não há padrões morais normativos. E por isso mesmo, o respeito aos chamados direitos humanos é mínimo ou inexistente.

O primeiro e o mais importante dos direitos naturais (humanos) é o de conhecer e praticar a Religião verdadeira. Nada favorece esse direito na China, apesar da entrada em vigor, a 1° de março deste ano, de diretivas destinadas a melhor proteger os “direitos legítimos” dos que têm fé.

A situação dos 15 milhões de católicos chineses — o que corresponde à população do Chile — é aflitiva. Há cerca de duas décadas o governo comunista instituiu, com a infeliz cumplicidade de católicos acovardados e oportunistas, a assim chamada igreja católica patriótica, a qual recebe suas ordens não do Vaticano, mas dos sátrapas de Pequim.

Igreja católica na cidade de Jinan: suas portas foram fechadas e lacradas pelo governo comunista chinês
Os católicos fiéis a Roma — cerca de 10 milhões — vivem perseguidos, em regime catacumbal. Diversos bispos, numerosos sacerdotes e leigos já foram presos e torturados por não se dobrarem ante as autoridades atéias e marxistas.

“Sanguis christianorum semen” (o sangue dos cristãos atua como semente), proclamava Tertuliano no século II, apostrofando os perseguidores dos cristãos. É o que se verifica na China, quando se considera o aumento contínuo do número de católicos. Apesar da pertinaz perseguição do regime comuno-ateu de Pequim, são batizadas anualmente 160.000 crianças chinesas.

Inexistência dos mais básicos direitos humanos

Bandeira de Hong Kong e figura de Mao. Os bilhões de dólares do Ocidente são vitais para a China tornar-se uma potência econômica
No que diz respeito ao direito à vida, existe uma verdadeira esquizofrenia. De um lado, o governo aplica despoticamente a norma de um só filho por casal. Com isso, milhões de abortos compulsórios — e um aborto não passa do frio assassinato de um nascituro no ventre materno — são praticados anualmente. Dessa norma draconiana de um filho por casal, não escapam nem mesmo mulheres chinesas morando temporariamente no exterior.(3)

De outro lado, o governo aplica a pena de morte a delitos menos graves, como furtos, sonegação de impostos e comércio de drogas, freqüentemente executada em centros esportivos, na presença de centenas de espectadores. Por vezes, junto ao local da execução já se encontra uma ambulância devidamente apetrechada para retirar do sentenciado órgãos para efeito de transplante. De passagem, interessa notar que essas mais de 10 mil execuções capitais por ano não despertam alarido proporcional ao que se faz a propósito dos cerca de 500 criminosos condenados à morte nos EUA no mesmo período.(4)

Uma “terceira via”? Ela conseguirá iludir o mundo?

O atual panorama chinês caracteriza-se por um duplo aspecto. Um flexível, o das reformas econômicas rumo a um “socialismo de mercado”, que criou condições para uma explosão da economia e um enriquecimento, não do povo em geral, mas de uma camada privilegiada do país; as populações agrícolas continuam imersas numa situação de miséria, apesar da existência de ilhas urbanas de prosperidade e do “boom” econômico. Outro aspecto, rígido, o da inflexibilidade político-ideológica, onde não houve qualquer mudança fundamental. Os “laokai” –– os terríveis campos de concentração –– se abarrotam de dissidentes e opositores do regime.

Uma pergunta salta ao espírito: Não será este “boom” desenvolvimentista uma excelente tática para apresentar ao mundo embasbacado um novo modelo de convergência entre capitalismo e socialismo? Estará, por acaso, sendo experimentada uma espécie de “terceira via”, cuja fórmula eficaz até agora não havia aparecido, embora muitas vezes tentada? Por exemplo, a do “socialismo de face humana”?

Em 1936, Hitler manipulou os jogos olímpicos de Berlim para fazer propaganda do regime nazista. Os próximos realizar-se-ão em Pequim, em 2008. Dois anos depois, em 2010, será inaugurada a Exposição Mundial em Xangai. Dois eventos aptos a assestar o foco da atenção do mundo inteiro sobre o antigo Império do Meio, criando “condições objetivas” propícias para a propaganda em nível mundial de uma presumível terceira via, que faz sua propaganda nesta surpreendente simbiose comuno-capitalista.

Alimentado pelo capitalismo ocidental com 50 bilhões de dólares anuais, foco da atenção geral, o dragão amarelo será tentado a abrir orgulhosamente suas asas e a lançar fogo pelas ventas. Antes disso o dragão finge sorrir para o Ocidente. Não se trata de uma preparação de terreno, para depois incendiar o mundo?

__________________

Notas:

1. O “boom” chinês foi largamente tratado na edição especial da revista alemã  "Der Spiegel", nº 5, de 2004.

2. Ver a respeito interessante artigo de James Meek para o diário inglês "The Guardian", reproduzido no "Jornal do Brasil" de 14-11-04.

3. Chi An, uma jovem estudante chinesa, relata em seu livro O coração estraçalhado, publicado em 1993, as tremendas pressões que sofreu do governo comunista chinês para abortar seu segundo filho, nascido nos EUA, quando seu marido fazia um curso de especialização ("Das zerrissene Herz", Goldman Verlag, Berlim, 1994). O caso teve na época grande repercussão internacional.

4. De acordo com cálculos de Thomas Hengsen, especialista da insuspeita "Anistia

Internacional".

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