Novembro de 2015
Batalha de Viena — O cerco da cidade imperial
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Episódios Históricos

BATALHA DE VIENA - O CERCO DA CIDADE IMPERIAL

 

No ano de 1683, a capital austríaca foi cercada por um imenso exército muçulmano vindo de todo o Oriente. De sua defesa dependeu o futuro da Cristandade. O Papa Inocêncio XI convocou uma Santa Liga dos povos cristãos para salvar a Áustria e a Europa cristã.

      Ivan Rafael de Oliveira

 

Ao ver chegarem uma clava e uma bandeira de comando, presentes do imperador turco, o conde húngaro Américo Thököly creu realizarem-se seus ambiciosos desejos de senhorio sobre toda a Hungria, quebrando os laços com a Áustria. Educado no ódio contra a Áustria, sobretudo um ódio religioso contra a Igreja Católica, o conde Thököly pôs-se secretamente ao serviço do império otomano, levando depois a Hungria a se rebelar e tomar parte na luta contra a Áustria.

Em anteriores artigos foram relatados fatos históricos sobre as tentativas de expansão muçulmana sobre a Cristandade na Europa. Não é de estranhar que hoje o “Estado Islâmico” tente repetir os “feitos” de seus antepassados. Esta seção não tenciona relatar todas as batalhas e proezas ocorridas em tantos séculos de combates. Mas procura apresentar aos leitores de Catolicismo um apanhado das principais vitórias católicas. E naturalmente não se poderia omitir a Batalha de Viena, cuja narração hoje iniciamos.

A Áustria católica era então a grande muralha de proteção da Europa contra a invasão muçulmana proveniente do império turco. Foi um momento transcendental da História; importante como o ano 732, quando os árabes foram barrados diante de Tours, por Carlos Martel na batalha de Poitiers.(1)

Prelúdio da batalha

Devido a vínculos de casamento, e mais especialmente à necessidade de proteção da Hungria contra os muçulmanos, desde 1526, após a Batalha de Mohács, os imperadores austríacos assumiram o reino húngaro. Pouco mais de 150 anos depois, sobretudo devido ao alastramento do protestantismo, os próprios húngaros, sob o comando de Thököly, entregaram voluntariamente seu país em troca do esmagamento da católica Áustria.

                              

 

Anteriormente à declaração de guerra pelos turcos, o imperador austríaco, Leopoldo I de Habsburgo, havia trabalhado pela manutenção da paz com os otomanos. Contudo, quanto mais ele insistia em propostas de paz, tanto mais os muçulmanos viam nesse esforço uma fraqueza do Ocidente, acreditando que o imperador estava indefeso e que a vitória do islã era indubitável.

Em 1682, após conseguir o apoio de Thököly e, veladamente, o da França, o sultão Maomé IV decidiu conquistar Viena, capital do império austríaco. O comando foi entregue ao grão-vizir Kara Mustafá, que convocou as legiões da Ásia e da África. Se ele vencesse a batalha – o que parecia muito fácil – seria um golpe de morte na Cristandade. Seu maior objetivo na ocasião era a conquista de Viena.

Em um avanço que lembra a expedição do rei persa Xerxes contra a Grécia na Antiguidade, os combatentes de Kara Mustafá desembarcaram na Europa provenientes de todos os portos, do Danúbio ao Eufrates, do mar Adriático às cataratas do Nilo. Cálculos menores estimam um exército de 200 mil homens e 300 canhões. Selim I, khan dos tártaros da Crimeia, o príncipe Miguel Apaffy, da Transilvânia, George Ducas, da Moldávia e Serban Cantacuzino, príncipe da Valáquia, engrossaram o exército de Mustafá, enviando contingentes de suas terras. Thököly com seus húngaros, ocultando de início sua aliança com os otomanos, serviram de guias da expedição.

O sultão e seu numeroso exército caminharam com inaudito fausto de Adrianópoli, na Turquia, até Belgrado, na Sérvia. Lá ele entregou a Kara Mustafá a bandeira verde do Islã. A cada dia de marcha agregavam-se reforços, juntando-se os paxás com suas tropas à expedição. Revestida de muito esplendor – cores brilhantes, armas refulgentes e músicas militares — a torrente crescia, num clima de alegre festa de conquista.

Luis XIV, rei da França, contava seguramente com a queda de Viena. Sua equivocada oposição aos Habsburgo levou-o à danosa opção de apoiar e incentivar a revolta húngara, bem como a invasão otomana. Ele planejava, após a vitória turca, entrar no combate com seus exércitos e tornar-se o salvador da Europa, caso o elegessem imperador. Mas não se atrevia a apoiar publicamente os turcos, por consideração à opinião pública europeia, especialmente à de a seu povo e ao Papa Inocêncio XI.

 

A Santa Liga

O Papa Inocêncio XI, da família lombarda Odescalchi, governou a Igreja de 1676 a 1689. Restabeleceu com grande zelo a disciplina eclesiástica, suprimiu abusos e cuidou dos pobres com magnanimidade. Era reverenciado pelo povo como um santo. Sentindo ele toda a magnitude do perigo turco, fez todo o possível para auxiliar a aflita Áustria. “Conjuro-te pela misericórdia de Deus — escreveu ele a Luis XIV— que acudas em auxílio da oprimida Cristandade, para que não caia no jugo de horrível tirano”.

Mais eficaz foi a intercessão do Papa junto a João Sobieski, rei da Polônia. Eleito em 1674, após praticar grandes atos de heroísmo na luta contra a invasão turca, também ele mantinha suas rixas com a Áustria. E a tentação de tirar proveito da situação se lhe oferecia espontaneamente, pois Maomé IV pretendia conseguir sua amizade e Luis XIV lhe fazia propostas de aliança. Porém, entre todas as incitações e lisonjas, João Sobieski previu que os canhões que destruíssem os muros de Viena chegariam mais tarde a Varsóvia. E, portanto, a Polônia deveria lutar por sua própria salvação diante de Viena. As exortações do Papa em prol da defesa da Cristandade venceram nele as últimas dificuldades e revigoraram seu espírito de cavaleiro cristão.

No dia 16 de agosto de 1683, tendo o Papa como protetor e fiador do tratado, pactuou-se uma aliança defensiva e ofensiva: a Santa Liga. Os cardeais Pio e Barberini, representando o imperador austríaco Leopoldo e o rei da Polônia respectivamente, fizeram o juramento sobre os Evangelhos. Em seguida, o Papa Inocêncio XI os abraçou. Naquele mesmo dia o exército turco se punha em movimento.

 

Avanço dos turcos até Viena

Tendo a traição de Thököly sido mantida em segredo, pensava-se em Viena que o vizir avançaria primeiro contra as fortalezas da Hungria, dando tempo suficiente para os austríacos se armarem e prepararem suas muralhas, que não estavam em bom estado. Sob o comando do duque Carlos V de Lorena e aproximadamente 33 mil homens, o exército austríaco se reuniu numa cidade anterior a Viena, com o intuito de atrasar o avanço turco.

                    

O grão-vizir, deixando de lado as fortalezas intermediárias, dirigiu-se diretamente para Viena com todo o seu exército. E apenas quando os turcos se aproximaram do duque Carlos V de Lorena, Thököly revelou sua aliança com o sultão. Como consequência, os húngaros desertaram em massa do exército austríaco. Não podendo sustentar a batalha, Carlos V retirou-se então com sua cavalaria para a capital.

Chegando às proximidades de Viena, os muçulmanos devastavam tudo com incêndios, assassinatos e violências. Os austríacos viram suas cidades serem vítimas de todos os horrores de uma batalha com bárbaros. Angustiados, viam subir colunas de fumaça de aldeias e castelos incendiados. Os fugitivos relatavam que milhares eram arrastados à escravidão e outros assassinados sem misericórdia.

Na cidade de Petersdorf os cidadãos se refugiaram com suas mulheres, filhos e haveres na igreja e na torre da cidade, e lá se defenderam durante três dias. No quarto dia, os turcos lhes prometeram livre saída, mediante o pagamento de quatro mil ducados. Então, as portas se abriram e uma donzela com uma coroa na cabeça e uma bandeira nas mãos seguiu diante de uma comitiva que levava em três bandejas a soma combinada. Porém, quando os 3.800 cidadãos já estavam fora das muralhas, foram todos mortos a fio de espada, com menosprezo dos turcos pela palavra empenhada.

Em Viena o terror foi indizível e todos que puderam, fugiram. Em dois dias saíram quase 60 mil pessoas. Do campo, ao contrário, muitas pessoas se refugiaram na cidade. Na noite de 7 de julho, depois de excitar os cidadãos a se defenderem valorosamente e prometer que logo que possível forçaria os turcos a levantar o cerco, o imperador, não podendo se expor ao risco de cair prisioneiro em caso de derrota, retirou-se da cidade com a corte à luz de tochas. Já no dia seguinte, 8 de julho, Carlos de Lorena entrou de volta em Viena com 10 mil cavaleiros.

Em 14 de julho, a capital estava cercada por todos os lados. Em torno dela se estendia um bosque de 25 mil tendas de campanha em forma de meia lua. Pelo luxo, distinguia-se especialmente a tenda do grão-vizir, com muitas salas e aposentos, verdes por fora e coruscantes de ouro e prata por dentro.

Como a sorte da Europa dependia da defesa de Viena, a Cristandade seguia com atenta expectativa esses acontecimentos. Infelizmente a cidade estava mal fortificada para suportar um cerco prolongado e o exército polonês ainda levaria um mês para sair de Cracóvia. O próximo artigo analisará a continuação do cerco e a chegada do exército da Santa Liga.

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Notas:

1. Batalha de Poitiers: Vide Catolicismo, agosto/2011

(*) Principal fonte consultada: Historia Universal, Juan Baptiste Weiss, Editora Tipografia La Educación, Tradução da 5° edição alemã, Barcelona, 1930, Vol. XI, p. 869 a 891.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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