Janeiro de 2013
Entrevista com o ex-"cezar antidrogas" de Colômbia
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Entrevista

 

Entrevista com o ex-“czar antidrogas” da Colômbia

O Cel. Plazas Vega é um dos valorosos militares que intervieram no Palácio de Justiça da Colômbia, invadido por guerrilheiros do M-19 em 6 de novembro de 1985. Ato heroico que a esquerda até hoje não perdoa e articula vinganças.

O assalto ao Palácio de Justiça da Colômbia, em 6 de novembro de 1985, foi talvez o ato terrorista mais grave da história daquela nação. Tendo o então presidente Belisario Betancur ordenado ao general de brigada Jesús Armando Arias Cabrales — mais tarde comandante do Exército — a atuar prontamente, este dirigiu a operação militar servindo-se, entre outros, do então tenente-coronel Luis Alfonso Plazas Vega, comandante da Escola de Cavalaria Blindada do Exército, sediada em Bogotá. A operação derrotou os subversivos do M-19, restaurou a ordem e salvou o país. Como “prêmio”, tanto Arias Cabrales como Plazas Vega foram condenados respectivamente a 35 e 30 anos de prisão, enquanto o autor intelectual do assalto e outros terroristas sobreviventes não só ficaram isentos de penas judiciais, mas ocupam hoje importantes cargos públicos. Alguns detalhes da sanha persecutória que se seguiu a essa epopeia salvadora são relatados por um de seus protagonistas a Helio Dias Viana, nosso enviado à Colômbia, que se entreteve com ele nas dependências militares onde se acha recluído, e cuja entrevista — especial para Catolicismo — foi autorizada pelo órgão competente.

 

 

Cel. Plazas

 

 “Os autores do mais horripilante crime contra a majestade da justiça na Colômbia não pagaram um só dia de cadeia pelo holocausto cometido”

 

CatolicismoPassaram-se quase 30 anos do assalto do M-19 ao Palácio de Justiça. Enquanto os guerrilheiros sobreviventes não têm dívidas com a justiça, o Sr. está na prisão. A mesma sorte tiveram outros militares. Como se sente diante desta situação?

Coronel PlazasOs únicos privados de liberdade são o general Jesús Armando Arias, comandante da brigada, e eu, então comandante da Escola de Cavalaria, que conseguimos resgatar pelo menos 260 pessoas sequestradas na ocasião pelo M-19, impedindo que este tomasse o poder. O governo de Cesar Gaviria — o mesmo a permitir que o narcotraficante Pablo Escobar construísse sua própria prisão — perdoou o M-19 de seus terríveis crimes, concedendo-lhe todo tipo de benefícios. O M-19 chegou a enviar cinco de seus mais perigosos membros como diplomatas a diferentes países da Europa. Vários deles chegaram ao Parlamento e ocuparam posições no governo. Navarro Wolff, por exemplo, autor intelectual do assalto ao Palácio de Justiça, foi ministro de Gaviria, governador e senador.

 

CatolicismoÉ importante que tudo isto fique registrado para a História, pois, do contrário, as gerações futuras terão dificuldade em acreditar numa traição tão grande.

Coronel PlazasHá mais. Não nos esqueçamos de que o assalto ao Palácio de Justiça foi ideia do próprio Pablo Escobar. E agora é o M-19 que acusa os militares dos crimes que ele cometeu, sendo este especificamente o caso dos desaparecidos da cafeteria do Palácio de Justiça, mortos na realidade pelo M-19. Pelo menos dois dos quatro advogados representantes das vítimas foram membros de tal movimento guerrilheiro. Um deles foi defensor do tenebroso Gustavo Petro, que como atual prefeito de Bogotá está acabando com a cidade. O diretor do coletivo de advogados que agrupa esses acusadores, Sr. Alirio Uribe, foi preso durante um assalto do M-19. E o que dizer dos que me julgam? Vivian Morales, ex-Fiscal Geral da Colômbia, é esposa de Carlos Alonso Lucio, terrorista indultado do M-19.


 

 

Incendio do Palácio de Justiça durante o assalto dos guerrilheiros do M-19

Catolicismo Se entendi bem, o M-19 acusava os militares, os quais por sua vez eram julgados pela Fiscal Geral, cujo esposo era um terrorista indultado do M-19.

Coronel PlazasExatamente. Mas veja mais isto. O magistrado Alberto Poveda Perdomo, que me condenou em segunda instância, aspirou em duas ocasiões a cargos de eleição popular numa coalizão onde figura o M-19, grupo terrorista ao qual se perdoaram os crimes e se concedeu status político. Os autores do mais horripilante crime contra a majestade da justiça na Colômbia não pagaram um só dia de cadeia pelo holocausto cometido. Chegaram ao poder por canais da política e da corrupção. Resumindo: após assassinarem, os criminosos do M-19 acusam e julgam.

Catolicismo Mas muito do que o Sr. diz pode-se ver em outros países latino-americanos...

Coronel PlazasÉ o que está acontecendo na América Latina. Creio que os soviets querem instalar neste continente sua desaparecida União Soviética. Este é, no meu modo de ver, o propósito do Foro de São Paulo.

 

 

 

Plaza fala à imprensa

 

“Creio que os sovietsquerem instalar neste continente sua desaparecida União Soviética. Este é, no meu modo de ver, o propósito do Foro de São Paulo”

CatolicismoSó Deus conhece o futuro. Mas se o Sr. estivesse em condições de predizer o porvir, o que teria acontecido se o Exército não tivesse atuado no Palácio de Justiça a fim de se resgatar os reféns?

Coronel Plazas De fato, o futuro a Deus pertence, mas a pergunta deveria ser “se o Governo não atuasse como fez”, e não o Exército, pois foi o presidente Belisario Betancur quem ordenou a atuação deste. E se não o fizesse teria sido destituído do poder e julgado no Palácio de Justiça ao lado de três de seus ministros: o de Governo, da Justiça e da Defesa. Comprovam-no não só os planos de ocupação do Palácio pelo M-19, mas o manifesto que com nomes próprios apareceu nesse mesmo dia nas ruas de Bogotá. Era um golpe de Estado. E a Colômbia teria se convertido num país satélite de Cuba, que hoje dirige a seu talante a Venezuela e Nicarágua. Não o conseguiram, graças à decisão de Betancur e ao valor de seus soldados. Isso o comunismo internacional não perdoa.

  

Catolicismo Desde então o Sr. esteve no olho da tormenta. Independente do que determinem os juízes, como crê que a opinião do País o considera: culpado ou inocente?

Coronel Plazas Jamais na história jurídica do País houve uma posição mais radical em prol de uma pessoa julgada e condenada. Mais de 500 colunas de opinião, artigos em jornais e revistas, emissões radiofônicas e televisivas a meu favor indicam a indignação de um povo que me apoiou naqueles momentos e que está seguro de minha inocência. Uma matéria de página inteira, intitulada “Por que o Coronel Plazas ainda não está livre”, foi publicada em “El Tiempo”, o jornal de maior difusão da Colômbia. Era assinada por uma centena de notáveis do País — representantes dos industriais, pecuaristas, agricultores, cafeicultores, palmicultores, anunciantes, militares reformados, magistrados resgatados pela tropa no Palácio de Justiça, além de 12 ex-ministros — uma plêiade, enfim. Os juízes não se deram por achados, apesar de a este atropelo estar vinculado não só o terrorismo, mas também o narcotráfico.

 

 

Foi o presidente Belisario Betancur quem ordenou a atuação do Exército na retomada do Palácio de Justiça "E se o governo não atuasse, a Colômbia teria se convertido num país satélite de Cuba, que hoje dirige a seu talante a Venezuela e Nicarágua"

Catolicismo O Sr. então crê que nesta perseguição figura também o narcotráfico?

Coronel PlazasEu fui o “czar antidrogas” da Colômbia, tendo retirado das máfias bens no valor de cerca de um bilhão de dólares.  Isso também eles não perdoam.

Catolicismo— Quem foram os que mais o ajudaram neste processo de acusações, juízos, perseguições e debates?

Coronel PlazasAntes de tudo, minha esposa Thania e meus filhos. Mas também um importante grupo de jornalistas corajosos, como o ex-ministro Fernando Londoño Hoyos — que terroristas tentaram assassinar em maio deste ano —, Plinio Apuleyo Mendoza, Eduardo Mackenzie, além de muitíssimos outros que manifestaram seu repúdio a este crime de que sou vítima. Esclareço que são os colunistas, e não os meios de comunicação. E os militares da ativa e da reserva. Tenho o apoio de todas as forças armadas, inclusive da Polícia. Mas eles não interferem no expediente, são respeitosos do processo. Os que não o respeitam são os fiscais e os juízes a quem denunciei penalmente pelos reiterados atos de corrupção e barbárie cometidos contra mim.

CatolicismoUm amigo comentou que chegaram inclusive a praticar violência física contra a sua pessoa. Como foi isso?

Coronel PlazasTirar-me à força do Hospital Militar — contra as determinações de uma junta médico-científica que o impedia — para levar-me à prisão com os pés e as mãos amarrados, jogado ao chão de uma ambulância com as botas dos depredadores do INPEC (Instituto Nacional Penitenciário da Colômbia) postas sobre meu pescoço para que eu não lhes visse o rosto, e manter-me acordado na prisão durante nove dias, procurando liquidar-me animicamente, só o faz uma juíza comprometida com os mais baixos interesses. Tudo isso eu denunciei em vão. Os processos contra os juízes corruptos não prosperam. Completam-se hoje mais de 18 meses desde que a Fiscalía recebeu ordem da Procuradoria Geral para investigar a fiscal Ángela Maria Buitrago, autora da montagem de uma testemunha falsa, e não o faz. É a escalada da impunidade dos juízes corruptos.

Catolicismo— O Sr. sente-se apoiado em sua terrível situação pelas Forças Armadas e pelos companheiros de armas?

Coronel PlazasAlgo disso, já respondi antes. O Sr. poderia perguntar-me pelo apoio do presidente Belisario Betancur, por cujo governo estivemos dispostos a perder a vida — de fato, 11 militares e policiais morreram naquela ocasião. A resposta é: “claro que não”. Quem nesse momento teve o valor de fazer respeitar a instituição presidencial, hoje, no ocaso da vida, anda muito temeroso e acovardado. A prova é que neste debate não teve o valor civil de manifestar-se a favor dos que se arriscaram por ele.

Catolicismo— O Sr. julga que, com a volta do foro militar, poderiam ser evitadas muitas situações de injustiça contra membros das forças da ordem?

Coronel PlazasA opinião internacional está enganada. A realidade é outra. O foro militar existe na Constituição Política da Colômbia. Está consagrado no artigo 221 da Carta Política. O que sucede é que não está sendo aplicado. Os juízes colombianos estão burlando a Constituição e a lei. E o que o Congresso está fazendo é propor uma mudança nesse artigo na Constituição para acabar com o foro militar. E diz aos colombianos que vai restabelecê-lo. Isto não está certo. Querem acabar com o Exército colombiano. Na sentença em que me condenam, os magistrados do Tribunal Superior de Bogotá qualificam o Exército de organização criminosa. E neste a preocupação é muito grande. Um Exército respeitoso da Constituição e da democracia necessita de um sistema político que o apoie e proteja contra um grupo de facínoras que quer estabelecer um regime comunista na Colômbia.

Catolicismo Por que o Sr. disse que muitos jornalistas o apoiam, mas não os meios de comunicação?

Coronel PlazasA postura de alguns desses meios viola meus direitos humanos. Em 2006 e 2007 certa mídia armou um terrível escândalo, apresentando como verdadeiras todas as calúnias dos integrantes do coletivo de advogados José Alvear Restrepo, cuja missão é acusar os militares de modo recorrente e defender os terroristas, ganhando ações milionárias na Corte Interamericana de Direitos Humanos mediante a violação dos direitos humanos dos servidores públicos. Era um procedimento preparatório de minha condenação. Isto é um negócio.

Catolicismo Tendo o assalto ao Palácio de Justiça acontecido em 1985, quando começaram as acusações contra o Sr. pelo desaparecimento de pessoas?

Coronel PlazasA partir de 2005. Assim que saí do Departamento de Estupefacientes fui acusado de 11 supostos desaparecimentos. Vinte anos antes tinha ocorrido o assalto criminoso do M-19 e não havia uma só acusação penal contra mim. Mas tão logo deixei a luta contra as drogas foi aberto o processo pelos desaparecidos de 1985. Desconheceram a investigação que entre 1985 e 1986 havia sido adiantada pelo Tribunal Especial de Instrução, o qual havia concluído que os desaparecidos da cafeteria tinham sido levados ao quarto andar do edifício pelos raptores do M-19, em cujas mãos morreram.

 

 

"O Cel. Plazas(dir.) com Fernando Londoño, Ministro da Justiça no Governo de Álvaro Uribe, presidente anterior ao atual Juan Manuel Santos

CatolicismoMatar e depois colocar a culpa nos militares não é uma antiga tática dos comunistas?

Coronel PlazasSem dúvida. Os novos “investigadores” armaram um impressionante escândalo através da mídia, acusando-me de ter feito essas vítimas, com o que escusavam seus cúmplices do assalto e se vingavam de quem lhes tirou os bens indevidos do narcotráfico. Em 2007 me detiveram, em 2008 a Fiscalía acusou-me pelo desaparecimento de 11 pessoas, e em 2010 uma juíza condenou-me pelo mesmo motivo.

Catolicismo É um verdadeiro escândalo.

Coronel PlazasO escândalo foi permanente de 2005 a janeiro de 2012, quando o Tribunal de segunda instância, tirando-me embora a responsabilidade por nove desses crimes, condenou-me injustamente por dois deles. A notícia era obviamente espetacular. Eu não era responsável por nove pessoas sobre as quais vinha sendo caluniado havia 7 anos nas manchetes de todos os jornais, nos telejornais e nos programas radiofônicos. Era uma notícia para ser amplamente divulgada, a fim de ao menos minguar um pouco o enorme dano feito durante tantos anos. Pois a mídia guardou silêncio. E há poucos dias “El Espectador” publicou uma nota sobre os 11 desaparecidos pelo coronel Plazas em 1985, a contrapelo da sentença que me havia isentado de 9.

Catolicismo A isso se chamafalta de equidade:acusam-no publicamente de algo, e quando um tribunal o isenta de culpa os acusadores se calam...

Coronel PlazasFaço notar que o magistrado relator de segunda instância, Dr. Hermens Darío Lara — que com um magistrado auxiliar e vários assessores estudou durante um ano e quatro meses todo o expediente — pediu a minha absolvição. Outros dois magistrados que não conheceram os 65.000 fólios discordaram e me condenaram. O relator apresentou salvamento de voto, e em seu arrazoado manifestou que minha condenação era uma conjura e uma aberração judicial. Este salvamento foi publicado em forma de livro intitulado “Plazas Vega es inocente”, obra cujo lançamento agitou o mercado das livrarias e deixou centenas de pessoas fora do recinto do evento, pois ultrapassou todas as expectativas de seus organizadores.

CatolicismoMas não é isso a politização do poder judicial? Se um juiz após estudar o enorme processo declara a sua inocência, como podem condená-lo dois outros juízes que sequer o estudaram?

Coronel PlazasHá mais. Como minha sentença condenatória a 30 anos de prisão pelos dois supostos desaparecidos restantes reconheceu a inexistência de provas, aplicaram a teoria [do domínio do fato] do tratadista alemão Claus Roxin, dizendo que sendo eu o comandante da operação e não aparecendo as duas pessoas — a guerrilheira Irma Franco e o administrador da cafeteria Carlos Augusto Rodríguez Vera —, eu deveria responder como “autor mediato” pelo desaparecimento de ambos. É a versão moderna do “autor intelectual”. Sucede que eu não era o comandante da operação, mas apenas um tenente-coronel e o menos antigo dos que ali atuaram militarmente. Decidiram então que era eu quem mandava por ser genro do Ministro da Defesa, como se as instituições militares fossem manejadas por parentescos. Disseram ainda que o Exército da Colômbia era uma organização criminosa e que a referida doutrina destinava-se a castigar os cabecilhas das organizações fora da lei.

Catolicismo A teoria de Claus Roxin pode ser validamente aplicada, mas exige um alto grau de evidência, e não mera suposição ou preconceito ideológico. Ela foi utilizada há pouco pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil contra alguns réus do “Mensalão” — como ficou conhecido o escandaloso esquema de corrupção montado por assessores do ex-presidente Lula da Silva. Tratava-se ademais, segundo o STF, de “membros de uma organização criminosa”.

Coronel PlazasMas no meu caso, não. A Universidade Sergio Arboleda convidou o Prof. Claus Roxin, que veio à Colômbia com sua equipe internacional de especialistas em Direito penal. Após um estudo simples do processo do Palácio de Justiça, ele e seus assessores manifestaram que sua teoria não era aplicável a esse caso. Ou seja, deixou sem argumentos os juízes, tanto de primeira como de segunda instância. Nessas condições, esta última me retira a responsabilidade por nove dos onze supostos desaparecidos, e com base na teoria do “autor mediato”, do Prof. Claus Roxin, confirma a sanção pelos dois restantes. Mas então chega o professor em pessoa e diz que sua teoria não é aplicável a este caso. Então... Que faço eu privado da liberdade? Não há nenhuma razão. Em conclusão, sou vítima de um SEQUESTRO por parte de funcionários do setor judicial colombiano.

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