Junho de 2004
A Salve Rainha — IV
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Leitura Espiritual

A Salve Rainha — IV

Em nossa edição de maio, transcrevemos os comentários sobre a invocação “Vida, doçura e esperança nossa, salve”, da oração “Salve Rainha”. Abaixo, os comentários das duas seguintes invocações.

A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva
A Virgem com o Menino - Bernaerdt van Orley (séc. XVI), Museu do Prado (Madri)

Sem os profundos transtornos que no mundo moral e na natureza inteira se produziram em conseqüência do pecado dos nossos primeiros pais, as virtudes que produzem a ventura teriam florescido no coração humano e uma perpétua primavera teria reinado na Terra, convertida em mansão de alegria, de paz e de felicidade.

Mas, consumada aquela funestíssima desobediência, do coração do homem, nascido para amar, desbordar-se-iam com muita freqüência as paixões mais insanas e funestas, antagonismo de raças, povos, nacionalidades, ódios de partidos, lutas e rivalidades de classes, contendas fratricidas entre filhos de um mesmo lar ou de uma mesma pátria. [...]

Quem poderá enumerar as inquietudes, sofrimentos e angústias que assaltam continuamente os caminhos do nosso triste viver?

A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva: Recordemos que a Santíssima Virgem, carne de nossa carne, osso de nossos ossos, filha de Eva como nós, passou pelas tristezas, provas, dores e as maiores amarguras que se podem experimentar neste desterro. [...]

A Vós, que sois, como nós, filha daquela Eva que nos arrastou em sua queda, lavrou nossa desventura, semeou o mundo de abrolhos e espinhos e nos deu por patrimônio a dor e a morte; a Vós, que sois a segunda Eva, suscitada por Deus para trazer-nos ao pé da árvore bendita o divino remédio dos infinitos males que, ao pé de uma árvore de maldição, nos trouxe a primeira; a Vós, que passastes pelas tristezas desse mesmo desterro, experimentando todas as suas privações, penalidades e amarguras; a Vós, que sois Rainha e Mãe de misericórdia; a Vós, que sois nossa vida, nossa doçura e nossa esperança.

A Vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas

Quem poderá explicar as inumeráveis adversidades e sofrimentos que nos arrancam copiosas lágrimas, umas visíveis, que correm de dentro para fora, outras invisíveis, que correm de fora para dentro e são ainda mais amargas?

Quem poderá dizer as infinitas dores que laceram o corpo, as penas que torturam a alma, as inquietudes que agitam o espírito, as inesperadas quebras de fortuna que zombam de todas as previsões e seguros, as perdas dolorosíssimas dos seres mais queridos, as epidemias, guerras e revoluções que se alimentam de milhões de vítimas, as calamidades públicas e individuais que vão tecendo a imensa teia da vida humana? [...]

Grande poder é o das lágrimas, com as quais até as próprias rochas se abrandam [...]

Por isso o autor da Salve Rainha trata de dispor favoravelmente o coração da Rainha e Mãe de Misericórdia, antes de apresentar a grande petição que se propõe fazer-lhe, recordando-lhe a infelicíssima condição de nosso desterro, entristecido seguidamente com nossos gemidos e regado por nossas lágrimas.

Por isso diz: a Vós suspiramos, gemendo e chorando, neste vale de lágrimas.

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(Excertos da obra do Pe. Dr. Manuel Vidal Rodríguez, La Salve Explicada, Tipografia de “El Eco Franciscano”, Santiago de Compostela, 1923).

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