Junho de 2004
Testemunho insuspeito
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Discernindo, comentando, agindo

Testemunho insuspeito

Cartas do escritor Alceu de Amoroso Lima, recentemente publicadas, põem em realce o papel central de Plinio Corrêa de Oliveira nas preocupações dos progressistas católicos

  Cid Alencastro

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira
O chamado progressismo católico vai produzindo toda forma de desmandos no Brasil (para falarmos só do Brasil): incentivando invasões de propriedades, favorecendo o socialismo, ajudando, em suma, a derrubar o que resta de Civilização Cristã.

E, no campo especificamente religioso, abandonando as práticas tradicionais da Igreja, desamparando os católicos desejosos de Religião e não de luta de classes. Batismo, Confissão, Crisma, Comunhão, Casamento Religioso, Extrema Unção vão se tornando de acesso mais difícil e vão rareando na vida quotidiana dos brasileiros. Com isso, muitos se bandeiam para seitas protestantes ou outras, à procura de um apoio religioso, embora falso.

Mas tudo isso não se fez da noite para o dia. Houve uma preparação profunda, uma longa marcha que foi se afastando cada vez mais das portas benditas da Santa Igreja. Marcha essa que comportou etapas e teve seus precursores. Já em 1943 o pré-progressismo foi denunciado no livro de Plinio Corrêa de Oliveira, Em Defesa da Ação Católica, que constituiu uma advertência e impressionante previsão do que iria se passar nos ambientes católicos.

Tristão e o progressismo

Alceu de Amoroso Lima
Um dos precursores do progressismo, que mais influenciou o Brasil católico na triste linha do chamado liturgicismo e mesmo do socialismo, foi sem dúvida o escritor Alceu de Amoroso Lima, mais conhecido pelo pseudônimo Tristão de Athayde.

Na década de 1930, ele teve a oportunidade de encontrar-se, nos meios católicos, com o então jovem Plinio Corrêa de Oliveira, mais moço do que ele. Era a época do grande surto das Congregações Marianas. Apesar da diferença de idades, os ideais católicos e capacidade de liderança os uniram. Alceu atuava no Rio de Janeiro. Plinio, em São Paulo.

Alguns anos depois, porém, Alceu, influenciado sobretudo pelas idéias do filósofo francês Jacques Maritain, empreendeu a guinada à esquerda que o tornaria cada vez mais afastado dos ideais católicos tradicionais. A ruptura com Plinio Corrêa de Oliveira tornou-se incontornável.

No ano passado foram publicadas as cartas de Alceu de Amoroso Lima a sua filha, Madre Maria Teresa, OSB (Instituto Moreira Salles, 2003, 676 pp). Nelas, ressalta um fato pouco conhecido. Mesmo depois da ruptura, e da ferrenha oposição ideológica que a gerou, Alceu manteve ativa em sua mente a figura de Plinio Corrêa de Oliveira, como pólo de pensamento do qual discordava, mas em relação ao qual media os acontecimentos e sua própria conduta.

Alguns trechos de Alceu

1 – Prevendo os males que a Reforma Agrária traria ao País, com toda sua seqüela de favelas rurais, invasões de terras, etc., Plinio Corrêa de Oliveira escreveu, em 1960, o famoso best-seller Reforma Agrária – Questão de Consciência, em colaboração com dois Bispos (D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud) e um economista (Luiz Mendonça de Freitas). Incomodado com essa publicação, Alceu de Amoroso Lima, seguindo o mote que seria depois utilizado pelas esquerdas, atribui o livro a uma “movimentação de latifundiários”. Diz ele: “Apoiando o tal livro do Plínio, Sigaud, Mayer e companhia, contra a reforma agrária, fingindo defendê-la, leio declarações do dom Vicente Scherer, arcebispo de Porto Alegre, e de um bispo de Pouso Alegre. Tudo movimentação dos latifundiários. [...] Estou ardendo para escrever contra tudo isso e provocar mais algumas cartas contra este ‘comunista disfarçado’” (Rio de Janeiro, 9-1-1964). Como se vê, o próprio Alceu reconhece que era tido, ao menos em alguns círculos católicos, como um “comunista disfarçado”.

2 – Após a instauração do regime militar, em 1964, o presidente Castelo Branco patrocinou a aprovação, pelo Congresso Nacional, de uma lei de Reforma Agrária radical, ao estilo de Jango, chamada Estatuto da Terra. Plinio Corrêa de Oliveira então protestou corajosamente, numa época em que discordar do regime militar era perigoso. Alceu sai-se em defesa de Castelo Branco e contra Plinio, dizendo que discorda desse “catolicismo de marchas, de terços ou de Plínios, de protestos, com nome de Tradição, Família e Propriedade (nome da tal associação monárquico-reacionária, sustentada pelos latifundiários paulistas) contra as reformas propostas pelo Castello Branco. Este está realmente fazendo o que prometeu, isto é, não fazer direitismo e com isso já está desgostando profundamente tanto os passadistas ortodoxos, como certos mineiros defensores da propriedade e certos udenistas, que começam a protestar e a dizer que o Castello está fazendo o programa do Jango. O que é verdade e é realmente a única coisa boa que ele pode fazer” (Rio de Janeiro, 25-6-1964).

Pe. Teilhard de Chardin, jesuita adepto ferrenho da teoria da evolução de Darwin
3
– Teilhard de Chardin foi um padre jesuíta, adepto ferrenho da teoria da evolução, de Darwin, que se envolveu numa pesada fraude para fazer passar o esqueleto de um macaco pelo de um homem primitivo, o “homem de Piltdown”. Foi advertido pelo Papa Pio XII. Plinio Corrêa de Oliveira, zeloso católico, era antiteilhardista. Por isso, é criticado por Alceu: “os antiteilhardistas são, por isso mesmo, os da Igreja fechada, cuja expressão máxima é o Plínio” (São Lourenço, 13-5-1965).

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, segundo Alceu, baseou seu pensameno no Bem-aventurado Pio IX (acima)
4
– Para Alceu, que se havia engajado decididamente na chamada “igreja nova”, Plinio Corrêa de Oliveira seria um “reacionário”. Entretanto ele reconhece que Plinio se baseava num Papa santo (São Pio X) e em outro bem-aventurado (Pio IX): “Reacionários mil vezes piores do que ele [o escritor Jackson de Figueiredo] — os Plínios e companhia — continuaram a escrever como católicos e apoiando-se em Pio X ou em Pio IX” (Nova York, 19-10-1958).

5 – No pontificado de João XXIII, ao ser convocado o Concílio Vaticano II, Alceu se mostra temeroso do que lhe poderá advir. E seus temores o fazem imaginar a figura ímpar de Plinio Corrêa de Oliveira, como a de um ser “sadístico”. Escreve: “Essa atmosfera [pré-conciliar] de insegurança e de ameaça é a pior possível e a vejo muito ligada a esse prazer sadístico do anátema que está na alma de um bispo de Campos, de um Plínio Corrêa de Oliveira”. Linhas abaixo, como se tivesse recebido um aguilhão na consciência, ressalva: “Deus me perdoe se estou fazendo mau juízo” (Nova York, 26-1-1959).

6 – A incerteza em relação aos rumos que tomara, ao afastar-se de Plinio Corrêa de Oliveira, parece ter sido um dos tormentos de Alceu. Ao falar de sua morte, ele exclama: “Lá em cima, quem sabe verei as coisas de outro modo e saberei então se realmente era eu que estava errado e o cardeal Ottaviani e o Plínio Corrêa de Oliveira é que representavam o autêntico espírito do Cristo no século XX” (Nova York, 21-1-1959).

 

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