Janeiro de 2017
2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios
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2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios

 

 

       Luis Dufaur

 

A chacina terrorista islâmica golpeia Paris no início de 2016, pressagiando o agigantamento de um monstro aterrador. Mais de 130 pessoas foram fuziladas durante um concerto rock, em restaurantes ou junto ao estádio Parc des Princes, onde a multidão escapou por pouco de um massacre.

O frenesi assassino dos infiéis se instala assim no Velho Mundo, somando-se às crises que a devoram. A “guerra santa já começou na Europa”([i]), escreveu Bruno Schirra. O Estado Islâmico recruta seus piores suicidas nos subúrbios “multiculturais” das capitais europeias, degradados pela imoralidade, pela droga e pelo crime, e os treina no Oriente Médio, de onde voltam com passaporte europeu para cometer cruéis morticínios.

Para o diário “ABC”([ii]), de Madri, o erro foi cometido. A Europa fechou os olhos para o jihadismo e os fluxos migratórios, como se com tal atitude pudesse evitar os perigos ou deixasse de agravá-los. Imenso engodo. “Em novembro chorava Paris, mas todas as demais [capitais] também. Agora as lágrimas são por Bruxelas [onde os sodados do Corão praticaram chacinas no aeroporto e no metrô]. Estamosemguerra, enão queremosvê-la”, concluiu.

Batalhou-se em todos os cantos da Terra. Um atacou a Europa imprevidente, outro respondeu no Oriente Médio, e a melée se tornou universal. O mentor das chacinas de Paris morreu em Saint-Denis enquanto arquitetava novos crimes. Muçulmano belga filho de imigrantes, divulgava vídeos nas redes sociais sorrindo entre cadáveres decapitados ou prisioneiros torturados no Oriente Médio. Com seu passaporte europeu gabava-se de passar por todos os controles em suas viagens para matar([iii]).

Em novembro, os atentados terroristas islâmicos atingiam 43 mil mortes e 40 mil feridos em todo o mundo, sobretudo em países muçulmanos, ou seja, 14 vezes mais do registrado em 2004, quando começou o lúgubre cômputo([iv]). E o número não foi o pior.

 

 

Europa atacada

As guerras religiosas, étnicas, políticas, sociais e morais sem fronteiras abriram 2016 com a acometida sexual de milhares de muçulmanos contra mulheres alemãs que iam assistir o espetáculo de fogos de artifício junto à magnífica catedral de Colônia na passagem do ano. Além dos estupros coletivos, centenas de lojas foram saqueadas. A Prefeitura e o governo federal abafaram as informações para não ferir a política imigratória oficial. A indignação tomou conta das redes sociais e a grande mídia só falou do tema após uma cúmplice demora.

A polícia confessa encontrar-se diante de uma onda de crimes “de dimensão desconhecida”, cometidos por imigrantes recém-chegados de “países árabes ou do norte da África”. “Mil homens reunidos devem ter combinado de alguma maneira”, balbuciou o ministro da Justiça, Heiko Maas, empenhado em abafar os fatos ([v]).

Na verdade, a polícia só revelou a dimensão dos crimes sete meses depois: 2.000 homens agrediram 1.200 mulheres em mais de mil ocorrências em muitas cidades. O número não inclui os crimes não registrados. O chefe da polícia de Colônia, Wolfgang Albers, foi suspenso. Em revide, ocorreram milhares de pequenos ataques de alemães contra imigrantes, procurando fazer justiça com as próprias mãos ([vi]).

Na França, o presidente socialista François Hollande, rotulado de “presidente normal”, transformou-se em “senhor da guerra”. Mandou bombardear o Estado Islâmico na Síria e no Iraque ([vii]) e instalou o “estado de emergência”, vigente até hoje ([viii]). A paz nunca mais voltou. No dia da festa nacional francesa, o tunisino muçulmano Bouhlel arremeteu um caminhão contra a multidão que assistia aos fogos de artifício em Nice, trucidando 84 pessoas. O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, disse que o autor era “sem dúvida um terrorista ligado ao islamismo radical”. Ele fora condenado à prisão, mas estava com pena suspensa ([ix]).

Dez mil militares reforçaram o policiamento das ruas francesas, os reservistas foram convocados e os turistas rarearam. “Toda a França está sob a ameaça do terrorismo islamita”, afirmou Hollande, que mandou intensificar os ataques ao Estado Islâmico na Ásia ([x]). As batalhas em Aleppo (Síria) ou Mossul (Iraque) e os atentados islâmicos no Ocidente instituíram uma miniguerra mundial travada em diversas regiões” ([xi]).

Em 2010, a revista “Inspire” já ensinava os jihadistas ocidentais como transformar um carro numa “máquina mortífera definitiva [...] não para cortar grama, mas eliminar os inimigos de Alá” ([xii]). Arengas islâmicas online incitavam a pegar qualquer objeto cortante, como uma faca de cozinha, e sair às ruas para matar o primeiro infiel. “Os mortos e feridos de Nice são uma mensagem explícita e clara enviada pelo terrorismo:nada que tenha um aroma do modo de vida ocidental está a salvo dos fanáticos. Estes [...] semeiam o pânico eavisam que nenhumlugaréseguroeque ninguémestáasalvo”([xiii]).

Nem mesmo a cerimônia da Semana Santa na qual o Papa Francisco lavou os pés de refugiados de diversas religiões teve qualquer efeito de paz ([xiv]). Pelo contrário, a ofensiva islâmica se exasperou. Em julho, o Pe. Jacques Hamel, coadjutor da paróquia de Saint-Etienne-du-Rouvray, na Normandia, que lisonjeara os maometanos locais com dádivas ecumênicas, foi degolado diante dos fiéis enquanto celebrava a Missa ([xv]).

Nesses mesmos dias, nove pessoas morreram e 21 ficaram feridas em decorrência do atentado perpetrado por um atirador iraniano num shopping em Munique, Alemanha ([xvi]). E 15 outras foram feridas por um sírio solicitante de asilo que detonou explosivos num festival de música ao ar livre em Ansbach. O Estado Islâmico comemorou o feito de um dos seus “soldados” ([xvii]).

Tampouco os EUA ficaram imunes aos “contra-ataques” do Estado Islâmico. Omar Mateen, filho de afegãos, de cidadania americana, matou 50 pessoas e feriu 53 numa casa noturna em Orlando, na Flórida, frequentado por público LGBT e por ele próprio ([xviii]), no maior tiroteio da história dos EUA.

Pelo fim do ano, sob a ofensiva de 30 países reunidos por Washington, o Estado Islâmico se contraía no Oriente Médio. Controlava menos de 10% do Iraque e ia perdendo suas cidades-chaves; entretanto se temia a dispersão dos terroristas pelo mundo e um incremento dos atentados locais ([xix]). E o terror islâmico revidou em dezembro na capital alemã jogando um caminhão contra um Mercado natalino que derrubou a árvore de Natal, matou 12 pessoas, deixando 48 feridos.

Afundamento sem fronteiras

As chegadas de migrantes islâmicos na Europa não cessaram: mais de um milhão entraram pelo mar em 2015, “cifra sem precedentes” segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados ([xx]). Em fins de 2016, a Alemanha calculava ter acolhido no ano seis milhões de imigrantes. A União Europeia (UE) registrou uma alta de 544% no ingresso de estrangeiros em 2016.

A agência de fronteiras Frontex estimou em1,8 milhão os novos ilegais apenas em 2015, declarando-se incapaz delidar com a situação. As autoridades nacionais nãosabiamdeondevierampelo menos500mildos recém-chegados ([xxi]). A circulação e a instalação dessas massas geraram pesadelos na população.

O mais simbólico ocorreu na França, junto ao túnel que cruza o Canal da Mancha, onde repentinamente cresceu a “Selva de Calais” — acampamento de onde saíam bandos de migrantes para pular sobre os caminhões que seguiam pelo túnel rumo à Grã-Bretanha. Londres, afinal, ameaçou erigir um muro para contê-los e a França desfez a “Selva”, cujos acampados foram então se instalar nas ruas de Paris ejunto ao Sena, alimentados por ONGs sempre dispostas a sustentar fatores de dissolução da sociedade ocidental ([xxii]).

A Suécia passou a exigir identificação de cidadãos nórdicos, fato inédito há mais de meio século. Os revides foram automáticos. A Alemanha apelou para acordos comunitários, mas esses já no final do ano pareciam folhas mortas ([xxiii]).

Na Itália, aldeias se entrincheiraram para bloquear a entrada de migrantes. A Hungria levantou cercas de arame farpado nas fronteiras. A Europa Central revoltou-se contra as “quotas” de imigrantes propostas pela União Europeia e pelo Vaticano. Onde imperava a tranquilidade, estouraram conflitos religiosos.

 

Europa busca amparo no populismo

Após os atentados de Paris, o partido populista Front National,que luta contra a imigração, foi o mais votado do país nas eleições regionais de dezembro de 2015. O Partido Socialista, ao qual pertence o presidente Hollande, ficou em terceiro lugar ([xxiv]). Na Alemanha, o eleitorado também recusou apolítica de acolhida de refugiados e infligiu severas derrotas à chanceler Angela Merkel, apologista da abertura aos fluxos islâmicos. O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) causou um abalo ao ingressar nos Parlamentos de três estados com lemas como “garantam as fronteiras”.

O AfD foi o segundo partido mais votado na Saxônia-Anhalt; cresceu vertiginosamente em Baden Württemberg e na Renânia-Palatinado e marcou presença na metade dos Parlamentos estaduais ([xxv]). Em setembro, a chanceler Angela Merkel foi derrotada na capital, Berlim ([xxvi]). Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, seu feudo eleitoral, ela perdeu para a AfD ([xxvii]).

Em novembro, Merkel anunciou que se recandidataria à chefia suprema do país. Mas os reveses que seu partido sofreu nas eleições regionais, causados pelo favorecimento da imigração islâmica, prenunciaram o que ocorreria com a chanceler caso ela voltasse a se candidatar. Mais. Sua derrota seria a da própria União Europeia, onde os países do leste (Polônia, Hungria e outros) deslizam para regimes populistas, nacionalistas ou autoritários e acenam para Moscou. Merkel torna-se o capitão do malfadado Titanic europeu; tudo sugere que ela não permanecerá em sua liderança e ninguém tem competência para assumir o leme do transatlântico ([xxviii]).

Na Itália, a coalizão de centro-esquerda do primeiro-ministro Matteo Renzi sofreu similar baque nas eleições municipais diante de candidatos populistas e anarquistas, sobretudo em Roma ([xxix]).

Em dezembro, 60% do eleitorado repeliu em referendo uma reforma constitucional. A recusa sinalizou um protesto, na linha do Brexit, contra a UE e uma defesa das características culturais regionais do país; abalou a utopia europeísta. Na Áustria, também em dezembro, o populista Partido da Liberdade anti-imigração e anti-UE, perdeu por pouco nas eleições presidenciais frente a chapa ecologista e de esquerdas anti-sistema. Os partidos “politicamente corretos” pro-UE ficaram de fora. Enquanto a Espanha debateu durante todo ano a formação de novo governo, da Inglaterra despencou um raio em céu sereno: o Brexit.

“Brexit”: toque de finados para a ordem pós-Yalta

A repulsa britânica à imigração islâmica e ao dirigismo burocrático da União Europeia propiciou que 51,9% do eleitorado aprovasse em plebiscito a saída do Reino Unido da UE. A Grã-Bretanha era um pilar dessa União e um dos alicerces da ordem, da segurança e da economia mundial. O Brexit marcou a ascensão do populismo identitário, reivindicador dos valores nacionais, e representou o toque de finados da pax espúria estabelecida com a Rússia através do Tratado de Yalta no fim da II Guerra Mundial([xxx]). O establishment político britânico demitiu-se em massa.

Na França, o Front National pediu o Frexit; na Holanda, o Partido da Liberdade, contrário ao Islã e à imigração, exigiu um Nexit; e na Suécia, enquanto os Democratas Suecos lutavam pelo Swexit, o Partido da Esquerda exigia renegociar a adesão do país ao bloco. Na Alemanha, Beatrix von Storch, da AfD, pediu a renúncia de todo o comando da UE ([xxxi]).

Maiorias nacionais horrorizadas pelo fanatismo religioso do Islã, britânicos alardeados, europeístas desconcertados, políticos exaltados da extrema-direita e da esquerda radical formaram um cocktail explosivo que passou a pedir plebiscitos análogos em pelo menos 19 capitais: as entranhas da Europa foram sendo devoradas pelaincerteza ([xxxii]).

A grande mídia viu na vontade popular britânica um “fracasso democrático”, uma “verdadeira insanidade”, uma “roleta-russa”, porque “ninguém tem noção das consequências” ([xxxiii]), um “abalo sísmico de proporções históricas que terá impacto corrosivo na ordem mundial estabelecida depois da Segunda Guerra”. “Retóricas de ódio e xenofobia [percorrem] os países que acolhem esses refugiados. [...] A dissolução da Europa como bloco reforça nações como Rússia e China, cujos sistemas políticos não são confiáveis. O mundo está sendo redesenhado por processos incontroláveis, que põem em questão a democracia e o capitalismo liberal” ([xxxiv]), escreveu “O Globo”.

Para o colunista Gilles Lapouge, na Europa “amorte tem à disposição todo um exército de exilados prontos a atacar [...]aEuropasedesintegra. OsonhodeumaEuropaunida, comunitária, semfronteiras, sucumbesobasmultidõesalucinadas”([xxxv]). Nigel Farage, um dos líderes do Brexit, foi recebido como herói na convenção do Partido Republicano dos EUA, nação mais contagiada pela nova tendência, que perpassou países e cruzou os oceanos.

Novo império turco contra a Europa?

A populosa Turquia, situada geograficamente no calcanhar da Europa, assistiu em julho a um “golpe militar” montado pelo seu presidente fundamentalista Recep Tayyip Erdogan. Foi o pretexto que ele encontrou para exterminar os últimos restos de oposição liberal ou democrática ao seu governo. A Turquia tem um pé na Europa e aspira ingressar na União Europeia, mas recai no fanatismo islâmico e sonha reconstituir o Império Otomano que outrora assaltou a Cristandade.

Sob o pretexto de repressão, Erdogan prendeu milhares de opositores, entre os quais 29 generais, mais de três mil soldados e 2,8 mil juízes e magistrados, provocando atrito com os EUA e a Europa ([xxxvi]). O novo ditador islâmico procurou logo apoio da Rússia, e engajou seus tanques nas guerras da Síria e do Iraque, que envolviam regiões separatistas turcas. Já no final do ano, Erdogan ameaçava enviar para a Europa milhões de refugiados, islâmicos na sua maioria, concentrados em território turco devido aos indiscriminados bombardeios russos na Síria, que os forçaram ao exílio.

 

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