Janeiro de 2017
2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios (continuação)
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2016: o mundo e a Igreja em meio a incêndios - continuação

 

 

       Luis Dufaur

Brasil: “Quero o meu País de volta”

A maior manifestação da História do Brasil aconteceu 13 de março, quando milhões de brasileiros saíram às ruas de pelo menos 239 cidades das cinco regiões para pedir a saída da petista Dilma Rousseff da Presidência da República. Os protestos também tiveram como alvo o ex-presidente Lula e a atividade comunistizante do PT.

O evento revelou um País profundamente dividido entre uma maioria conservadora, pacífica e ordeira, e uma minoria esquerdista aloucada e corrupta ([i]). As contramanifestações do PT constituíram um fiasco: compareceram poucos militantes. A tentativa de mobilizar o País com discursos incendiários insuflados pelo Planalto ou por sedes do PT não surtiram efeito ([ii]).

Em 17 de abril, pelo menos 730 mil brasileiros ocuparam as ruas de todas as capitais de estados, sem depredações nem confrontos ([iii]). Às 23h do dia seguinte, na Câmara dos Deputados, despontou o voto “sim”, em número de 342 parlamentares, necessário para aprovar o impeachment da presidente Dilma. Na Avenida Paulista, 250 mil pessoas bradavam: “O PT acabooooou!”,O Brasil venceu”eTchau, querida” ([iv]).

Nem sequer a referência simpática do Papa Francisco à presidente Dilma, feita em audiência geral no Vaticano, pôde impedir seu afastamento do cargo, na votação da admissibilidade do processo de impeachment no Senado ([v]).

Tal votação foi palco de insultos e gritos como “assaltante”, “cheirador”, “canalha”, dirigidos a políticos ou partidos rebaixados à “lata de lixo” ([vi]). O presidente do Senado, Renan Calheiros, comparou a sessão a um “hospício” ([vii]). Seu desfecho foi a cassação, em 31 de agosto, do mandato da presidente Dilma por 61 votos a 20.

Ela revidou comdiscurso em que incitava a uma “luta enérgica” contra os “golpistas”, o que soou como ridícula. O presidente em exercício Michel Temer foi empossado, encerrando hegemonia petista de 13 anos ([viii]). O procedimento constitucional foi comemorado pelo Brasil inteiro, mas tido como “momento triste” pelo Papa Francisco, que descartou uma visita prevista ao País em 2017. Em 2 de agosto, a agência Ansa noticiou que o Pontífice havia escrito uma carta de apoio à ex-presidente, sob a condição de não ser divulgada ([ix]).

O processo do impeachment transcorreu em meio a uma catarata de denúncias de corrupção na administração petista, envolvendo grandes grupos empresariais. O inquérito Lava-jato, o Petrolão, as Pedaladas fiscais, BNDES constituem alguns dos casos mais falados, cuja descrição excederia os limites desta revista.

Destacou-se a denúncia contra o ex-presidente Lula, qualificado nas palavras do Procurador da República como “comandante máximo” do esquema identificado pela Lava-Jato, “grande general” da corrupção e “maestro da organização criminosa” ([x]). A degradação do ambiente político e a pouca confiança popular em relação ao novo governo foi qualificada por “O Globo” ([xi]) como “judicialização da vida”, agravada pela “politização da Justiça”, segundo o jornal
“O Estado de S. Paulo” ([xii]).

Nas eleições municipais de outubro, o Brasil profundo voltou a mostrar sua aversão ao caos que se espalhara a partir dos altos poderes do Estado. O esquerdismo, mesmo camuflado, sofreu derrota arrasadora até em suas cidadelas eleitorais, em histórica guinada à direita ([xiii]). Enquanto o projeto totalitário do PT afundava e a “bancada do boi, da bíblia e da bala” subia ([xiv]), germinava a apetência por algum candidato outsider do estilo Donald Trump ([xv]) que soldasse a fratura entre os cidadãos e a Praça dos Três Poderes. O resto do continente não ficou muito atrás.

 

Degringolada populista continental

Na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos assinou em setembro um acordo “de paz” com a narcoguerrilha marxista FARC. Tramado durante alguns anos em Havana sob o olhar cúmplice do ditador comunista Raúl Castro, a cerimônia oficial de assinatura desse acordo espúrio foi realizada na histórica cidade colombiana de Cartagena na presença de vários chefes de Estado, do secretário-geral da ONU, dos Secretários de Estado do Vaticano e dos EUA. Uma pressão midiática e política internacional sem precedentes tentou fazer os colombianos “engolirem alguns sapos” ([xvi]) aprovando o acordo em referendo nacional.

O Papa Francisco prometeu que visitaria a Colômbia em 2017, caso o tratado fosse aprovado ([xvii]). Sua promessa, gravada em vídeo, virou cavalinho de batalha da campanha “pela paz”. Nas urnas, porém, o povo colombiano reagiu como o britânico com o Brexit e o americano com a eleição presidencial. Em outubro, demonstrando sensatez e catolicidade, rejeitou o iníquo acordo com a narcoguerrilha marxista por 50,21% contra 49,78%. No Departamento de Tolima, berço das FARC, o “Não” venceu com folga ([xviii]).

A consternação tomou conta dos ambientes eclesiásticos, políticos e midiáticos “politicamente corretos”, engajados com a esquerda. O Pontífice pareceu desistir da viagem. Além de radicais concessões aos marxistas, o texto recusado promovia a Ideologia de Gênero e o aborto. O fato reforçou o voto católico pelo Não, apesar do ativismo de muitos eclesiásticos pelo Sim ([xix]).

Em novembro, o Congresso — “ignorando” o resultado do plebiscito — ratificou uma reforma do acordo, combinada entre o presidente Juan Manuel Santos e Timochenko, chefe das FARC, que edulcoraria o texto inicial. Evitaram assim nova consulta popular, com um procedimento desleal, que vem suscitando vivos protestos. Em dezembro, o Papa Francisco tentou forçar a aceitação da “paz” em reunião com Santos e o opositor Uribe no Vaticano, mas a iniciativa fracassou.

Na Venezuela, o ditador socialista Nicolás Maduro iniciou 2016 perdendo o controle do Legislativo em eleições livres ([xx]). A nova Câmara tentou obter por vias constitucionais o impeachment do governo bolivariano, que as bloqueou com o apoio militante de um Judiciário ideologizado.

A degringolada econômica venezuelana evoca a miséria e a fome da Rússia leninista. Alimentos e remédios mais básicos sumiram das lojas; metade da população perdeu peso; sem alimentação adequada, as crianças desmaiam nas escolas; os hospitais não podem atender às urgências; o exército confisca empresas; a polícia bloqueia as fronteiras; as linhas aéreas deixam de voar para o país; jornais e papel moeda deixam de ser impressos e a produção de petróleo, recurso quase único do país, despencou.

Maduro abriu uma fimbria de liberdade e mais de 100 mil venezuelanos se dirigiram à Colômbia para fazer compras básicas: arroz, feijão, lentilha, açúcar, papel higiênico, por exemplo. “Estamos comendo só uma vez por dia”, contou uma funcionária pública ([xxi]). A fuga massiva de famintos também se deu por mar. Mais de 150 mil pessoas abandonaram o país durante 2016. Perto de 30 mil teriam passado para ilhas e regiões fronteiriças, sobretudo em terras brasileiras, no estado de Roraima ([xxii]).  

As cenas evocavam as enxurradas de migrantes na Europa, com grande quantidade de venezuelanos desesperados buscando qualquer coisa para a mesa da família, remédios ou dinheiro ([xxiii]). Maduro voltou-se então para a Santa Sé, em busca de uma mediação que o salvasse. E apareceu na mídia mundial diante do Papa, que lhe traçava comprazido uma cruz na testa. Mas até o fim do ano, tal mediação só havia conseguido impedir as manifestações monstros, como a “tomada de Caracas”, pedindo o fim do déspota socialista ([xxiv]). A quem ela de fato aproveitou? O beneficiado foi o regime esquerdista ([xxv]).

Durante todo o ano a imprensa comemorou sucessivos gestos de distensão com Cuba, após o reatamento de relações com os EUA: navios com turistas, reinício de voos de passageiros etc. Houve até uma visita histórica do presidente Obama à ilha ([xxvi]) e um propagandeado encontro em Cuba do Papa Francisco com o patriarca Kirill, de Moscou, instrumento dócil de Putin.

Na visita de Obama ficou evidente que a repressão anticatólica prossegue tão férrea quanto antes ([xxvii]). A morte de Fidel Castro em novembro significou a perda do último líder “carismático” comunista latino-americano. Lula, que aspirava herdar sua liderança, lamentou: “Sinto sua morte como a perda de um irmão mais velho” ([xxviii]), enquanto o presidente do Partido Justicialista argentino lembrou a frase de Perón: “Fidel es tan comunista como yo” ([xxix]). O Papa Francisco manifestou “pesar” pela “triste notícia” ([xxx]).

No Chile, a presidente Michelle Bachelet encarnou uma das últimas “relíquias” dos decadentes regimes populistas sul-americanos. O ano de 2016 surpreendeu-a com escândalos de corrupção e sua popularidade despencou de 35% em março para 15% em agosto, a maior desde 1990 ([xxxi]). Nas eleições municipais de outubro,a direita conquistou oito dosdez maiores municípios do país, pressagiando o fim político da presidente nas eleições de 2017 ([xxxii]).

No Peru, a disputa presidencial decidiu-se no 2º turno entre dois pretendentes conservadores: Keiko Fujimori, que batalhava por temas morais e familiares, e Pedro Pablo Kuczynski, que acentuava as liberdades econômicas. Ele acabou vencendo por estreita margem de votos, embora a maioria do Congresso tenha sido constituído por partidários da Keiko ([xxxiii]).

Embora laicista, o novo presidente sentiu necessidade de atender às apetências religiosas e familiares do país, tendo-o consagrado juntamente com sua família e ele próprio ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, em ato público e agindo com autoridade de chefe do Estado ([xxxiv]).

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