Fevereiro de 2010
Austeridade, luta e grandeza, o apanágio de Ronneburg
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Austeridade, luta e grandeza, o apanágio de Ronneburg

 

  • Gregorio Vivanco Lopes

 

Terminado um simpósio realizado no castelo de Löwenstein, na simpática localidade de Kleinheubach, na Baviera, dirigia-me com alguns amigos para Viena, quando um deles manifestou o desejo de fazermos um desvio a fim de conhecer o castelo Ronneburg (foto 1), não longe da fronteira com a Áustria.

Foi aí que pude dar-me conta do que é um autêntico castelo medieval. Diferentemente dos castelos renascentistas — Fontainebleau, Chenonceau, mesmo Versailles e tantos outros — que à primeira vista nos encantam pela beleza, arte e bom gosto, o impacto produzido na sensibilidade por Ronneburg é de austeridade, luta, grandeza trágica e sublimidade.

Já a acolhida foi impactante. Por detrás das altivas muralhas, um homem que varria o extenso pátio foi logo dizendo, em tom um tanto ríspido, que não era dia de visita — o castelo recebe turistas em dias aprazados, quando então se fazem apresentações no estilo medieval. Porém, quando lhe dissemos que éramos brasileiros, e que não teríamos outra oportunidade de conhecer o castelo, ele se distendeu e acabou por nos mostrar todas as dependências com muita cordialidade. O fato de não haver turistas foi uma circunstância altamente favorável para podermos sentir mais autenticamente a alma do castelo. Sim, Ronneburg tem alma, porque a alma da Idade Média ainda se faz presente ali.

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Em Ronneburg percebem-se as características potentes do apogeu medieval (séc. XIII) como que latejando de vitalidade.Os aspectos estuantes de energia, fortaleza e vida que se vislumbram nesse castelo, a seu modo um símbolo da Cristandade de outrora, produzem um frêmito de alegria e entusiasmo.

Ronneburg é uma portentosa amostra da luta contra os fatores adversos, que a civilização cristã teve que vencer e superar para realizar-se. O castelo ainda evoca os combates contra as incursões inimigas, pobreza dos meios, dificuldade das construções e da sobrevivência numa natureza árdua; também a sublimidade das almas penetradas por uma fé que move as montanhas, com a inocência de uma criança e a determinação de um guerreiro. As muralhas do castelo com suas seteiras (foto 2) dão testemunho da vigilância e da prontidão de espírito que era preciso ter para viver naquela época, a um tempo terrível e sublime.

A construção do castelo deu-se antes do ano 1231, numa colina escarpada, durante o reinado de Gerlach II, da dinastia dos Staufen. É dessa época a “grande adega de vinhos”. A base da portentosa torre de pedra (foto 3), com o calabouço, data da metade do século XIII.

Os habitantes das regiões circunvizinhas — Budingen, Selbold e Eckartshausen — tinham a seu cargo, cada uma, manter partes do castelo, mas possuíam também o direito de nele se refugiar, em caso de perigo.  

Ao longo dos séculos Ronneburg passou por todo tipo de vicissitudes e transformações: foi sede de governo comunal, sofreu incêndios, teve partes demolidas e outras construídas, serviu como praça forte, como refúgio dos camponeses das redondezas durante ataques inimigos, e até como prisão de bandidos, guardando entretanto as marcas indeléveis de sua origem.

Um dos problemas que os construtores tiveram de enfrentar era o de abastecer de água o castelo. Para isso foi perfurado um poço, que até hoje lá se encontra, com cerca de 100 metros de profundidade, três vezes maior que a altura da torre. O nível da água encontra-se a 12 metros no fundo do poço. Fizemos a experiência: da borda do poço, jogamos uma pedrinha e demorou um bom tempo para ouvirmos seu choque com a água. Lá está todo o aparelhamento de cordas, sarilho e balde adequados para retirar a água (foto 4).

As dependências reservadas à família do castelão são naturalmente mais cuidadas, e já indicam sintomas da civilização requintada que então nascia. Mas a cozinha originária, com sua rusticidade e seu enorme pitoresco, ainda permanece (foto 5).

As janelas gradeadas (foto 6) põem em evidência a preocupação com a defesa do castelo, tão necessária naqueles tempos de perigos e de lutas, de fé e de heroísmo.

A beleza que sobressai em Ronneburg não é a da arte, mas sim a das almas fortes e piedosas que produziram o apogeu da Idade Média, época que mereceu do Papa Leão XIII o magnífico elogio: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados, [...] a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas a categorias e todas as relações da sociedade”.

 

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