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Efemérides

França católica, Filha primogênita da Igreja: fruto de batismo e sagração providenciais

Há 1500 anos, uma pomba branca trazia no bico, milagrosamente, o santo óleo para a sagração de Clóvis, primeiro rei católico dos Francos, e nascia a França, filha primogênita da Igreja

Antonio Oliveira Queiroz

Acesa discussão ferve na França, nos últimos meses, ao ensejo dos 1.500 anos do batismo de Clóvis.

Escritores encharcados da mitologia laicista e negativista da Revolução Francesa ousam sustentar que Clóvis é uma pequena realidade, e um grande mito forjado pela Igreja.

Em contrapartida, historiadores há que vêem em Clóvis, antes de tudo, uma grande realidade, cuja fina ponta, bem viva ainda no fundo da mentalidade francesa, remete para um porvir alcandorado, para uma civilização ideal. É este o "mito" que agride e dói, no qual providencialmente se osculam Monarquia e Igreja, Trono e Altar, numa arquialiança, tal como no-la descrevem São Gregório de Tours e Hincmar, Arcebispo de Reims.

A disputa é fascinante. Nossa posição em favor da concepção católica é consubstanciada na luminosa obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas, nas alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza romana.

Embora não pretendendo entrar na discussão, Catolicismo não pode furtar-se a participar da comemoração de evento tão marcante, recordando alguns fatos a ele relativos.

Clóvis, fundador de um Estado Católico

Batismo de Clóvis

Sob os golpes dos bárbaros, o outrora majestoso Império Romano do Ocidente cai em 476, fragmenta-se, e os pequenos Estados resultantes se põem a guerrear entre si. Em meio à ausência de autoridade e à comoção geral, em que cada qual disputa para os seus um lugar ao sol, os únicos que possuíam ascendência moral assumem-na: os Bispos. Dentre estes, inúmeros santos. A Igreja, entretanto Ela mesma às voltas com o arianismo -- heresia que desviara da Religião católica quase todos aqueles povos bárbaros -- voltava suas esperanças para a tribo pagã dos Francos, única infensa à gangrena ariana.

Nesse contexto, Clóvis, neto do lendário Meroveu, vive em casa de seu pai Childerico. Tem 11 anos em 476, e já compreende muita coisa sobre os acontecimentos que subvertem a Gália. Dos 15 anos, quando se vê à testa do reino, até os 30, esse bárbaro providencial já possui um plano de governo e de Estado refletido, meditado, maturado.

Dois Bispos de grande talento e santidade orientaram os passos do jovem rei nesta política de construção do primeiro reino cristão da História. Um, no campo espiritual, o Arcebispo de Reims, São Remígio, cuja personalidade e santidade o rei franco admira e respeita. A ele coube o apostolado com Clóvis. É de São Remígio que ele recebe esse salutar conselho: "Seria bom tomardes esposa, para assim firmar vossa dinastia de maneira mais sólida". O outro, no campo político e diplomático, o Bispo de Vienne, Santo Avito. Seguindo a mesma linha, atrai a atenção do bárbaro para os charmes da bela e inteligente Clotilde, produzindo um dos acontecimentos de maior relevância na história da Cristandade nascente: o casamento do rei dos Francos com a princesa católica. Esta vai ser o mais eficaz instrumento da conversão de seu esposo, livrando-o assim, e ao seu povo, do perigo de se fazerem arianos.

Casamento, aliás, do qual Nossa Senhora não esteve alheia. Pois Clóvis, quando ainda jovem, costumava ir a um santuário dedicado à Virgem, onde também os monges lhe falaram da bela e virtuosa princesa católica.

"Venci cem batalhas. Fui vencido por Clotilde!"

 
Santa Clotilde

Em 493, após os desponsórios celebrados pelo santo bispo Remígio, Clotilde pôde exclamar: "Onipotente Deus, graças te dou; finalmente chegou o tempo de vingar a morte de meus pais e irmãos". Ou seja, de bem acertar as contas com o arianismo.

De fato, pela obrigação que contraíra de vingar os parentes de sua esposa, Clóvis começou sem tardança a luta contra os arianos, pensando também, e naturalmente, em dilatar com isto seus domínios. Mal sabia ele que estava fazendo muito mais, isto é, criando, gerando a nação filha primogênita da Igreja, sem a mácula da heresia de Ario.

Como esposa fiel, a Rainha doravante seguirá o chefe franco em suas empresas guerreiras, numa vida nômade, de acampamento em acampamento, durante uma dezena de anos.

E será esta fidelidade, somada ao seu zelo apostólico, que vai dispor o coração de Clóvis para o milagre da conversão. Clóvis disse mais de uma vez aos seus: "Venci cem batalhas. Porém, fui vencido por Clotilde!".

Aliás, é a informação que transmite São Gregório de Tours: "A Rainha não cessava de doutrinar Clóvis, para que conhecesse o verdadeiro Deus e abandonasse os ídolos, mas foi absolutamente impossível convencê-lo, até o dia em que se desencadeou a guerra contra os alamanos". Apesar de todo o charme que Clotilde punha nos seus discursos teológicos, sabia ela que seu marido era inteligente e obstinado demais, e que precisava de uma demonstração mais poderosa do que a dela. Para levar Clóvis a uma adesão profunda e decisiva ao cristianismo, era preciso um milagre na própria vida dele, uma intervenção de Deus que, em vez de mostrar-lhe maravilhas, o pegasse num momento patético e decisivo.

O novo reino, fundado sobre milagres

De fato, estava escrito nos Anais da Eternidade que Cristo Jesus dobraria o franco em Tolbiac. Segundo narra São Gregório de Tours, foi nessa batalha que, quando o exército franco já "começava a ser talhado em pedaços", Clóvis elevou os olhos ao Céu e clamou: "Jesus Cristo, que Clotilde proclama filho do Deus vivo, tu que te dignas conceder vitória aos que confiam em ti, se tu me concederes a vitória e eu experimentar o teu poder miraculoso, então crerei em ti e me farei batizar em teu nome, pois invoquei meus deuses e vi que são impotentes para ajudar-me".

Mal pronunciara esta prece, ditada em desespero de causa, começa a derrocada do inimigo. E no final, vendo morto seu rei, os adversários se rendem a Clóvis, dizendo: "Nós te pertencemos de agora em diante". Clóvis contou à rainha o acontecido. E, conseqüente consigo, mandou pedir o batismo. Clotilde havia realmente vencido o vencedor de cem batalhas! Fez ela então vir São Remígio, para transmitir ao espírito do rei a palavra de salvação.

Um dia, enquanto o santo, na capela do palácio, rodeado de notabilidades, ministrava ao rei verdades católicas que lhe incutiam no coração salutares movimentos, uma luz mais esplendorosa que a do sol encheu de repente a capela, e ouviram-se estas palavras: "A paz esteja convosco. Sou Eu, não temais nada. Permanecei em meu amor". Era "o Deus de Clotilde" que se dignava confirmar visivelmente a pregação do Prelado santo. Ademais, ao desaparecer essa luz, um perfume de incrível suavidade inundou o palácio. Mas só o Bispo pôde ver Jesus Cristo, o autor da luz. Os demais, obumbrados pelo esplendor que penetrou o Santo, viram todo o palácio iluminado pela luz que irradiava dele.

Tais milagres impressionaram sobremaneira os bárbaros. Conta-se que noutra ocasião, quando o santo Bispo instruía o rei, este apaixonou-se tanto com a narração dos tormentos sofridos por Nosso Divino Salvador, que, levantando-se, todo inflamado, batia com a lança no chão, bradando: "Ah! Se eu estivesse lá com meus francos!"

Batismo e sagração

Catedral de Reims

Finalmente, a cerimônia do batismo foi fixada para o Natal de 496. Mas na véspera do grande ato o rei ainda hesitava, temendo que seus guerreiros não o acompanhassem nesse passo tão decisivo. São Remígio passou a noite em prece aos pés da Santíssima Virgem, e Santa Clotilde aos pés de São Pedro, determinados a arrancar do Céu, por suas orações, a salvação do rei e de seu povo.

E foram atendidos! Na data marcada, a rainha fez ornar a igreja de Reims. O Bispo Remígio estava postado junto à pia batismal. O rei, ao entrar, sente tal imponderável sobrenatural no ambiente, que não se furta em perguntar: "É este o reino dos Céus, ó santo Padre?". E São Remígio responde: "Não, é o caminho que conduz ao Céu!".

Clóvis era da tribo dos Sicambros. Por isto, São Remígio, ao derramar-lhe na fronte a água batismal, profere estas célebres palavras: "Curva tua cabeça, sicambro; queima o que adoraste, e adora o que queimaste!"

A exemplo do rei, três mil dos seus guerreiros quiseram ser batizados com ele. "Deixamos os deuses mortais e queremos adorar o Deus imortal do Bispo Remígio", proclamam.

Por ocasião da sagração, aconteceu um milagre digno dos tempos apostólicos. Devido a um incidente, o óleo ia faltar. São Remígio pôs-se em oração, e de repente uma pomba branca apareceu, trazendo no bico uma ampola cheia de um óleo sagrado, que ao ser despejado na fonte batismal espargiu o mais suave perfume que até então se conhecia. A ampola foi conservada, e o óleo usado para a sagração de todos os reis da França.

Uma vez batizado, e depois sagrado com esta celestial unção, nada mais faltava para investir Clóvis de autoridade e legitimidade de Rei Católico de direito divino. Por essa forma, surgiu a primeira Nação católica da História, a Nação dos Francos, honrada por isto com o título de filha primogênita da Igreja.

Este privilégio único, a Revolução Francesa de 1789 quis rejeitar, e a santa ampola foi quebrada em 1793. Tal gesto não é, porém, um reconhecimento a mais? Sem embargo, algumas gotas do santo óleo foram recolhidas, guardadas, e Carlos X, mais de 1300 anos depois de Clóvis, foi o último rei da França a ser sagrado com ele.

Um fim que é uma coroa da obra

Em 508 a família real fixa-se em Paris. Em fins de 511, Clóvis exala seu último suspiro nos braços de Clotilde, assistido por seus amigos São Severino e o velho bispo São Remígio.

Desde então, Clotilde retirou-se definitivamente da vida ativa, e em 5 de junho de 545, aos 70 anos, entregou sua bela alma a Deus.

Contam-se mais de 40 santos descendentes do casal real. Magnífica auréola, que coroa gloriosamente essa obra de conversão!

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Fontes de referência:

1- Ferdinand Lot, El Fin del Mundo Antiguo y Comienzos de la Edad Media, Unión Tip. Hisp. Americana, México, 1983.

2- Régine Pernoud, A Mulher no Tempo das Catedrais, Gradiva Publicações, Lisboa, 1984.

3- J. B. Weiss, História Universal, Tomo IV, Tipografia La Educación, Barcelona, 1927.

4- Mário Curtis Giordani, Ação Social da Igreja no Mundo Antigo, Vozes, 1959, p. 143.

5- Mons. Henri Delassus, L'Esprit Familial dans la Maison, dans la Cité et dans l'État, Desclée, Lille, 1910, pp. 196 a 199.

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