Outubro de 2007
90 anos após Fátima e a Revolução bolchevista, uma síntese da atuação de Plinio Corrêa de Oliveira
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90 anos após Fátima e a Revolução bolchevista, uma síntese da atuação de Plinio Corrêa de Oliveira

Nove décadas após a Revolução de 1917 na Rússia, a utopia socialista, bafejada pela esquerda católica, aparenta dispor, como nunca, das rédeas governamentais em nosso País. Contudo, o Brasil profundo e autêntico rejeita tal utopia, em consonância com a luta e obra heróicas empreendidas por Plinio Corrêa de Oliveira.

Luís Dufaur

1917-2007: de Lenin a Putin, os erros do comunismo espalharam-se, explícita ou camufladamente, em escala universal; do milagre do sol à generalizada anarquia hodierna, tornaram-se tragicamente urgentes as advertências de Nossa Senhora em Fátima; desde os primeiros sonhos de infância até sua atual projeção post-mortem, avultou-se a cruzada anticomunista de Plinio Corrêa de Oliveira.

Essas três transformações se entrelaçaram nos últimos 90 anos. E hoje elas convergem num clímax, cujo desenlace tudo indica que não pode tardar.

Retrocedamos no tempo, para melhor compreender o assunto.


Em 1917: espírito monárquico x espírito republicano

Os estilos de vida oriundos da monarquia e os novos estilos republicanos opunham-se, no conjunto das práticas sociais

Em fins de 1917, Dr. Plinio completava nove anos. Então, os estilos de vida oriundos da monarquia e os novos estilos republicanos opunham-se no conjunto das práticas sociais: por exemplo, no beija-mão das senhoras, no modo de sentar-se, de conversar, de trajar-se, etc.

Quando chegava uma carta da Princesa Isabel para Dona Gabriela Ribeiro dos Santos, avó de Dr. Plinio, o copeiro ainda a apresentava, no fim do almoço, numa salva de prata. Dona Gabriela então a lia em voz alta. Eram cartas de relacionamento social. Todos prestavam suas homenagens ao espírito monárquico, ainda latente na República velha. Entretanto, pouco depois, contraditoriamente muitos assumiam posições igualitárias, consoantes com o espírito republicano dominante.

Naquele mesmo tempo, tragédias imensas devastavam a Europa. A primeira guerra mundial estava em curso quando Nossa Senhora iniciou o ciclo de suas aparições em Fátima, e o trono dos czares já havia sido derrubado. Em seguida a Revolução comunista massacrou em 1917 a família imperial e, qual látego divino, iniciou uma série de levantes e guerras revolucionárias, que ao longo das décadas vitimaram mais de cem milhões de pessoas.

Intuição do desastre que se avizinhava

O mundo aparecia, na mente infantil de Plinio, como um imenso transatlântico no qual os passageiros — ricos e pobres, civis e eclesiásticos, bispos muitas vezes — viajavam alegres, uns na primeira classe, outros na econômica. Mas Plinio percebia que essa nave afastava-se do cais da Civilização Cristã. E refletia: “Que coisa impressionante! Está se preparando a demolição da Igreja. Uma revolução, uma perseguição geral está sendo articulada para uma certa época, e virá; virá também uma catástrofe para a Igreja e para o mundo”. Ele ainda não tinha conhecimento da Mensagem de Fátima, mas já pensava em consonância com ela.

Aos domingos à tarde, costumava-se na época ir ao cinema, sendo raros então filmes imorais. Na obscuridade da sala, Plinio olhava, analisava e concluía: “Isto [o mundo moderno retratado por Hollywood] é enorme, isto é poderoso. Ai do dia em que cair! Porque cairá! Cairá porque está levantado contra Deus! Haverá um dia em que vamos assistir a um dos terríveis embates de nossa época: o próprio comunismo vai se levantar contra os Estados Unidos e procurar esmagá-los, como os Estados Unidos esmagam hoje as monarquias européias. E se minha vida tiver uma duração normal, lutarei nesse embate. Lutarei pelo quê? Pelo comunismo? Jamais! Combaterei por Aquele que não tem aliado no mundo contemporâneo, Aquele que é esquecido, degredado, odiado, a caminho de ser crucificado: Nosso Senhor Jesus Cristo, e de algum modo a Santa Igreja Católica Apostólica Romana”.

Impressões de infância, reflexões de menino. No entanto, quanto elas são decisivas na vida de um homem! Máxime quando ele é fiel até ao heroísmo em suas convicções. Plinio Corrêa de Oliveira nascia para a vida. Nascia um cruzado contra o comunismo, na época em que Nossa Senhora em Fátima alertava o mundo contra essa ameaça.

Plano para salvar o Brasil e defender a Igreja

Desde muito jovem, Plinio Corrêa de Oliveira percebeu a grande ameaça do comunismo contra a ordem cristã, ainda parcialmente atuante no Ocidente

Quando já moço feito, andava ele de bonde na capital paulista e viu um cartaz: Reforma Agrária; em seguida: Partido Comunista Brasileiro. Seu espírito teve um sobressalto: “Aí está! Esse é o perigo!”. Mediante estudos e reflexão, a ligação entre Reforma Agrária e comunismo foi se tornando cada vez mais clara em seu espírito.

Uma aspiração começou a se formar na sua mente. Era preciso lutar para reerguer o Brasil, fazê-lo avançar por um caminho inteiramente oposto àquele que levava ao comunismo. O Brasil deveria pôr em movimento as incomensuráveis riquezas que a Providência depositou em seu solo. As melhores fibras da alma brasileira deveriam harmonizar-se para fazer surgir um Brasil autêntico, de sonho. Mas não de um sonho quimérico, e sim de um sonho nascido de sua vocação providencial.

Naqueles anos, 98% dos brasileiros eram católicos. Ele via que a população nacional, crescendo naturalmente, ocuparia um território colossal. Portanto, o País estava destinado a ser uma das maiores potências da Terra. Além do mais, junto com o Brasil, a América espanhola, do ponto de vista religioso, obedecia ao mesmo Papa, estava unida aos cardeais e bispos. Formavam assim um imenso bloco, destinado a exercer grande missão no século XXI.

O Brasil só será o que a Providência Divina dispôs em seus planos, pensava Plinio, se for católico deveras. Um catolicismo de meias-tintas não resolveria nada. Era preciso que o movimento católico influenciasse a fundo o Brasil, a fim de que, na hora que a Providência determinasse, o País aparecesse como um gigante católico que altera os rumos do mundo, tendo a seu lado toda a América Latina.

Sem que Plinio sequer o suspeitasse, esse plano convergia maravilhosamente com aquilo que Nossa Senhora viera prometer ao mundo na Cova da Iria em 1917.

Anelo compartilhado pela mocidade católica

Era preciso ordem, disciplina, hierarquia, espírito sobrenatural levado até as últimas conseqüências, para transformar essa aspiração numa realidade. Era preciso, em suma, fazer a Contra-Revolução. Ou seja, aplicar todos os esforços para restaurar a Civilização Cristã, austera e hierárquica, especialmente nos pontos em que ela foi mais vulnerada pelo igualitarismo e o neopaganismo revolucionários.

Esse anelo não era exclusivo dele. Germinava também no conjunto do catolicismo brasileiro. A mocidade católica via a Igreja como uma cidadela cercada por inimigos, e aspirava não apenas a defender suas muralhas, mas a enxotar o adversário. Crepitava nela a idéia de derrotar a Revolução, na sua forma então mais atual: o comunismo.

Os jovens que pensavam assim identificaram em Plinio Corrêa de Oliveira a encarnação dessas aspirações e o líder que os conduziria à sua realização.

Obviamente, uma ação de grande amplitude nessa direção dependia da aprovação e do concurso da Hierarquia católica. Esta agia naquele tempo com muito esmero na difusão da doutrina e dos sacramentos — sobretudo das verdades concernentes à moral e à vida eterna —, mas não discernia bem a ação revolucionária em campos não-eclesiásticos, como por exemplo a revolução industrial infiltrada e trabalhada pela luta de classes marxista. Desta maneira, a Hierarquia católica e a Revolução travavam um combate comparável ao de um caolho contra um homem com os dois olhos normais. O movimento leigo liderado por Dr. Plinio veio preencher essa lacuna nos meios católicos.

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