Fórum Social padece de dúvida existencial
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Fórum Social padece de dúvida existencial

Dividido entre os que desejavam dar-lhe um rumo definidamente anticapitalista e anticristão e os que propugnavam a manutenção de uma diversidade anárquica, o Fórum Social Mundial chegou melancolicamente a seu fim

Gregorio Vivanco Lopes


“Os ativistas do encontro anticapitalista na Amazônia vão de um sindicato de prostitutas da Índia a belgas que querem a abolição do Banco Mundial”, relata a Bloomberg, um dos principais provedores mundiais de informação para o mercado financeiro.(1)

Tal apresentação, embora verdadeira, não abrange entretanto todo o leque de associações e manifestações — ecológicas umas, abertamente comunistas ou anarquistas outras, algumas tendendo ao indigenismo e ao demonismo — que tiveram seu palco em Belém do Pará, durante a 9ª edição do chamado Fórum Social Mundial, que lá se desenrolou de 27 de janeiro a 1º de fevereiro.

Convém ter presente que as duas primeiras edições do Fórum Social, realizadas em Porto Alegre em 2001 e 2002, apresentavam-se como a grande esperança das esquerdas depois da queda da Cortina de Ferro.

A realização do Fórum Social Mundial prepara e delineia os contornos de um novo bloco anarco-comunista mundial, ora em gestação, [...] esse imenso esforço de âmbito universal para a criação de uma nova Internacional comunista, desde já denominada nos meios da esquerda radical de Internacional Rebelde. É o próprio comunismo que ressurge, porém metamorfoseado, conforme previra o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. E desta vez levando claramente como companheira de viagem a esquerda católica. O combate à globalização é a ocasião — quase diríamos o pretexto — para que essas forças remanescentes se recuperem do trauma sofrido com a queda do império soviético e se reagrupem”.(2)

Um fórum “chapa branca”

Sobre o de Belém do Pará, comenta a socióloga Maria Lucia Victor Barbosa: “O governo investiu milhões na festividade, inclusive em preservativos. Tudo pago com o dinheiro do contribuinte, ou seja, estamos financiando a esbórnia que atrai pessoas de todo o Brasil e do exterior. [...] Não faltarão ao carnavalesco evento muita cachaça e folia. [...] Naturalmente, os participantes se posicionarão contra o capitalismo que os sustenta, contra a liberdade que permite a festividade, contra a riqueza que almejam para si. Em suas utopias delirantes, as esquerdas clamarão pela volta do socialismo”.(3)

Tem razão a socióloga, pois os altos investimentos governamentais mostram à saciedade que os “libertários” e “anarquistas” do Fórum são pressurosos em abrigar-se sob as asas protetoras de governos petistas — como o federal e o estadual — cujas arrecadações provêm sobretudo das classes A e B.

No que diz respeito ao valor exato canalizado para o Fórum, há uma certa variação no noticiário, conforme a fonte. É natural, pois em geral o que passa por debaixo do pano é mais do que o declarado.

Artigo de jornal carioca fala num subsídio de R$ 120 milhões do governo federal.(4) Um diário paulista diz que o governo federal repassou R$ 86 milhões, e o estadual — da petista Ana Júlia Carepa — investiu R$ 143 milhões.(5)

“Quatro empresas estatais contribuíram com R$ 850 mil para a organização do Fórum Social Mundial: Petrobrás (R$ 200 mil), Banco do Brasil (R$ 150 mil), Caixa Econômica (R$ 400 mil) e Eletronorte (R$ 100 mil). [...] Para Cândido Grzybowski, do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), fundador do evento, ‘não haveria fórum no Brasil’ se não houvesse apoio de estatais”.(6)

Por essas e por outras, houve quem classificasse o Fórum como “chapa branca”.

Participantes: número incerto

O número de participantes é outro ponto controvertido.

Segundo o site oficial do Fórum, houve 133 mil participantes inscritos, de 142 países.(7) No encerramento, órgãos de imprensa falavam em 115 mil presentes naqueles dias. Segundo a coordenadora do Fórum, Aldalice Oterloo, “tivemos 92 mil, sendo que 1,8 mil eram só voluntários”.(8) Estiveram presentes, segundo dizem, 2 mil índios dos países da região amazônica.(9)

Ainda que os dados estejam inflados, não há dúvida de que foi uma grande concentração da esquerda mundial, representada em suas várias tendências. Já na marcha de abertura, elas disputavam entre si as posições de maior destaque.

A passeata inaugural tinha pouco mais de 30 mil pessoas,(10) mas segundo os organizadores, participaram quase 70 mil pessoas. Ela teve um “jeito carnavalesco, em que houve até tempo de comer no McDonald’s. [...] Em outras edições brasileiras do fórum, em Porto Alegre (RS), lojas da cadeia norte-americana de lanchonetes foram objeto de hostilidades verbais. Dessa vez, a loja se manteve aberta e lucrou com a entrada dos manifestantes. [...] Havia desde um grupo fantasiado como palhaços até baterias tocando samba”.(11)

Nova civilização anárquica

 

O que visava o Fórum? Ninguém sabe dizer ao certo. Após as duas primeiras edições em Porto Alegre, e as denúncias que se lhe seguiram — como as que fez na ocasião a TFP — ele veio definhando. Esperavam os organizadores que em Belém ele se reabilitasse.

Segundo Chico de Oliveira, considerado um dos principais intelectuais da esquerda no Brasil, o Fórum conseguiria reerguer-se se tivesse suficiente habilidade para abordar a crise econômica: “Faz algum tempo que ele [o Fórum] declinou um pouco, perdeu centralidade na agenda. Tentaram passar para a África, mas não deu certo. Não teve a mesma repercussão. Agora, de fato, a crise econômica abre uma crítica que o fórum já vinha fazendo. E a fratura é exposta. Depende da habilidade da crítica”.(12)

Se essa era a meta, ao que tudo indica o Fórum não a alcançou. Perdeu-se em atividades das mais diferentes e opostas, segundo a linha chamada da “diversidade”, sem arraigo na opinião pública, como se fosse um circo de mau gosto no qual até a feitiçaria teve seu papel.

Para Oded Grajew — um dos figurões onipresente nos fóruns sociais — trata-se de buscar um novo modelo de civilização: “A escolha da região pan-amazônica se deve a seu papel estratégico para toda a humanidade, por deter imensas riquezas culturais e ambientais em risco de aniquilação, mas que podem alimentar um novo modelo de civilização”.(13)

Temática pluriforme

 

Meio ambiente, aquecimento global, crise econômica, males das grandes corporações transnacionais, capitalismo predatório, miséria e exclusão nos países pobres, devastação da Amazônia, aborto, inclusão social, solidariedade ao povo palestino, índios da Amazônia –– foram temas abordados de cambulhada nos vários painéis e tendas montados em Belém.

O propagandeado líder do MST, João Pedro Stédile, disse que deveria sair do Fórum Social um calendário de manifestações “mundiais” contra a crise e o desemprego. No Brasil, segundo ele, o MST deve liderar a agenda de ações, que começa em março.

Homossexuais, lésbicas e transformistas também discutiram propostas para combater o que chamam de “preconceito” e violência. Estava anunciada uma caminhada nudista pela cidade, mas não consta que tenha sido realizada. Ao que parece, mesmo protegidos pela polícia, os nudistas temiam a reação dos habitantes moralizados de Belém.

A esquerda católica, sempre ativa na promoção da luta de classes, desta vez estava também toda ecológica. Para o bispo D. Erwin Krautler, da Diocese do Xingu, no Pará, “a Amazônia está indo para o brejo. [...] Não dou mais do que 30 anos para que a maior parte da floresta esteja devastada”.(14)

O ministro Tarso Genro foi aplaudido pelos participantes da marcha em favor da legalização da maconha.

O papel representado pelos índios

Houve também manifestações de índios — devidamente industriados pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), ligado à CNBB — no sentido de que seja arquivado o decreto que restringe a entrada de ONGs e missionários em terras indígenas. Para Saulo Feitosa, secretário-adjunto do Conselho Indigenista Missionário, “nem na época da ditadura houve esse tipo de controle. Tutela é coisa do passado”.(15)

Em reunião com as lideranças indígenas, o ministro Tarso Genro disse que espera a demarcação em forma contínua da reserva indígena Raposa/ Serra do Sol para, a seguir, aumentar a “ofensiva” nesse setor: Nós então poderemos partir para políticas ainda mais ofensivas, mais completas, na defesa das comunidades indígenas”.(16)

À tarde os índios participaram de um estranho ritual religioso, ao lado de representantes do continente africano. Foi uma transferência simbólica do comando do Fórum — que havia sido realizado pela última vez no Quênia — para os brasileiros.

No dia da Pan-Amazônia, foi possível ver índios utilizando celulares para enviar fotos, vídeos e notas do Fórum para suas aldeias e para o mundo.

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