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Em Lourdes, Nossa Senhora coliga seus filhos para a vitória final

Em 1858 começou em Lourdes um regime torrencial de graças e milagres, unindo os católicos fiéis em torno da Santíssima Virgem rumo ao seu triunfo final

Luís Dufaur

No último 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição, mais de 150 mil fiéis afluíram a Lourdes, na abertura do Jubileu do 150º aniversário das aparições. Em filas tranqüilas, sob o frio e a chuva, os peregrinos passavam as mãos pelas paredes de granito da gruta, como que desejando apalpar o imponderável sobrenatural que delas emana. A superfície áspera da pedra tornou-se suave e polida até onde alcançam as mãos, transformando-se no mais expressivo livro de visitas assinado pelos milhões de fiéis que ali desfilam anualmente.

Em Lourdes, a confiança calma e ardorosa, a paz hierárquica e acolhedora, a certeza da fé na intervenção celeste no cotidiano dos homens, são hauridos no ar. Quantos, no intenso frio, aproximavam-se da gruta arrastando suas doenças de corpo e de alma! Quantos voltavam sem receber uma cura milagrosa, mas levando no fundo do coração algo que talvez valesse mais do que qualquer milagre material! Porque Lourdes conquista e cura os corações, deixando neles uma marca e uma saudade indeléveis.

Quem volta de uma peregrinação a Lourdes traz gravada no coração algo como uma reprodução da gruta de Massabielle. Para ela voltar-se-á com saudade e confiança nas horas mais difíceis, com a certeza de ser atendido. E basta recordar-se dessa lembrança para fazer renascer em si o desejo ao mesmo tempo inefável e irrefreável de algum dia retornar à gruta de Nossa Senhora.

O que visa Nossa Senhora, assim agindo no mais fundo das almas?

O início do Jubileu de Lourdes trouxe-nos uma luminosa resposta a esta interrogação.

Sobre Lourdes, as palavras do Legado Pontifício

Representação de uma das primeiras aparições
Abrindo o ano jubilar de Lourdes, o Cardeal Ivan Dias, Prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, Legado Papal, pronunciou uma alocução merecedora de apurada meditação. Começou qualificando as aparições a Santa Bernadette Soubirous de “autênticas irrupções marianas na história do mundo”.(1) Não se trata, portanto, de aparições fechadas em si mesmas. Pelo contrário, elas se encaixam “na luta permanente e feroz entre as forças do bem e as forças do mal, desde o início da história humana, e que continuará até o final”. Nessa imensa luta histórica, as aparições de Lourdes “marcam a entrada decisiva da Virgem no cerne das hostilidades entre Ela e o diabo, como está descrito no Gênesis e no Apocalipse”.

Referia-se o representante do Papa à realidade fundamental que marca a existência da humanidade neste vale de lágrimas. Ou seja, a luta da Santíssima Virgem e os filhos da luz seus seguidores, de um lado, contra o demônio, a serpente infernal, e seus sequazes, os filhos das trevas. O Gênesis registra-a assim: “O Senhor Deus disse à serpente: [...] Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua posteridade e a sua. Ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar” (Gen. 3, 14-15).

Esta inimizade basilar está hoje longe de ter amainado, explicou o Cardeal. Pelo contrário, “é ainda mais encarniçada do que em tempos de Bernadette”. É uma autêntica batalha, que “causa inumeráveis vítimas em nossas famílias e entre nossos jovens”. Em conseqüência dessa guerra movida pelo demônio e seus sequazes, o mundo “está sendo engolido espantosamente na voragem de um laicismo que quer criar um mundo sem Deus”.(2) Reproduzindo as palavras do então Cardeal Wojtyla, acrescentou que na nossa época está em curso “o maior combate que a humanidade jamais tenha visto”, isto é, a “luta final entre a Igreja e a anti-Igreja, entre o Evangelho e o anti-Evangelho”.(3)

As palavras do eminente purpurado nos trazem à mente o ensinamento fundamental do preclaro Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre essa imensa guerra contra a Igreja e a Civilização Cristã, que desde o fim da Idade Média vem sendo conduzida pela Revolução gnóstica e igualitária. Uma guerra que visa impor aos homens um mundo anárquico, visceralmente anticristão, caracterizado pela igualdade absoluta e a liberdade também absoluta em relação a toda lei, natural ou divina. Face a essa revolta, animada pelo espírito de Lúcifer, ergue-se a Contra-Revolução, que ele assim define lapidarmente: “Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da Ordem. E por Ordem entendemos a paz de Cristo no reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, fundamentalmente sacral, anti-igualitária e antiliberal”.(4)

Coligação dos filhos da luz, fiéis a Nossa Senhora

François Soubirous e seus dois filhos, no moinho paterno
As aparições de Lourdes constituem um capítulo decisivo na intervenção materna de Nossa Senhora para quebrar o curso devastador da Revolução. A isso se referiu o Cardeal Ivan Dias, dizendo que “a Virgem está tecendo uma rede de filhos e filhas espirituais, para lançar uma forte ofensiva contra as forças do maligno para encarcerá-lo e assim preparar a vitória final de seu Divino Filho Jesus Cristo”.(5) E acrescentou que os católicos sensíveis ao apelo de Lourdes estão convocados a se congregarem nessa luta contra o mal. Portanto – seja-nos permitido acrescentar –, a se unirem à Contra-Revolução no combate à Revolução gnóstica e igualitária.

Engajar-se, sim. Mas com que armas? Para o Cardeal Dias, em primeiro lugar, “a conversão do coração” — a conversão que Nossa Senhora pediu, em termos cada vez mais prementes, a Santa Catarina Labouré, em La Salette, em Lourdes e em Fátima. Em seguida, a recitação quotidiana do rosário, a devoção ao Santíssimo Sacramento e a aceitação e oferecimento dos próprios sofrimentos pela salvação do mundo.(6)

Eis, pois, as nossas armas: uma conversão sincera e profunda, com a mudança de vida que ela importa; e essas santas devoções voltadas monarquicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, pela intercessão onipotente de Maria Santíssima.

Necessidade de se conhecer melhor Lourdes

Louise Soubirous, mãe de Bernadette
Nisto consiste o significado mais profundo dos acontecimentos de Lourdes. Entretanto, quantos de seus devotos sabem narrar o que aconteceu naquele longínquo ano de 1858? Quantos conhecem bem o que Nossa Senhora fez, falou e pediu a Santa Bernadette – e, através dela, à leitora, ao leitor?

No 150º aniversário dessa magna irrupção de Nossa Senhora na História, nada melhor do que relembrarmos tudo o que se passou em cada uma das 18 aparições que perfazem o ciclo de Lourdes.

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