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Entrevista

O que pensar sobre ecologia e ambientalismo?

Abalizadas considerações do renomado acadêmico norte-americano, Dr. Calvin Beisner, fundador e porta-voz nacional da Cornwall Alliance for the Stewardship of Creation

O tema em epígrafe é da maior atualidade e já tem sido abordado pela nossa revista. Nesse sentido, convém ressaltar a substanciosa obra Psicose ambientalista – Os bastidores do 1ecoterrorismo para implantar uma religião ecológica, igualitária e anticristã, autêntico best-seller, de autoria do Príncipe Dom Bertrand de Orleans e Bragança, com a colaboração de pesquisadores da Comissão de Estudos Ambientais do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, entidade que editou o livro em 2012. A respeito dele, os leitores podem ver a matéria publicada por Catolicismo em novembro de 2012.

A crescente importância desse assunto foi determinante para a direção de nossa revista solicitar a um renomado especialista da temática, de projeção internacional, o Dr. Calvin Beisner, uma entrevista para esclarecer nossos leitores com sólidos argumentos. Como tal entrevista foi obtida alguns dias antes da publicação da Encíclica Laudato Si, no dia 18 último, sobre ambientalismo, posteriormente solicitamos ao Dr. Beisner uma declaração a respeito dessa Encíclica do Papa Francisco (vide p. 25).

O Sr. James Bascom, membro da Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, entrevistou o Dr. Beisner a nosso pedido. A eles os nossos agradecimentos.

Fundador e porta-voz nacional da Cornwall Alliance for the Stewardship of Creation (Aliança Cornwall para o Manejo da Criação) [ http://www.cornwallalliance.org ], o Dr. Calvin Beisner foi professor de estudos interdisciplinares no Covenant College de 1992 a 2000. É autor de quatro obras sobre população, recursos, economia e meio ambiente, além de oito outras obras; contribuiu para mais de 30 livros e publicou centenas de artigos. Testemunhou como perito em ética e economia da política climática perante comissões do Congresso dos EUA.

Bacharelado em Estudos Interdisciplinares pela Universidade do Sul da Califórnia (1978). Mestrado com especialização em Ética Econômica pelo International College (1983). Ph.D. em História da Escócia (História do Pensamento Político) pela Universidade de St. Andrews, na Escócia (2003).

 

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A Terra e todos os sues muitos diferentes sistemas geológicas e oceanológicas são o produto de um Designer infinitamente sábio, de um Criador onipotente, e de um Mantenedor absolutamente fiel. Lemos no Gênesis(1,3); quando Deus fez tudo, Ele considerou que era "muito bom".

Catolicismo— O que levou ao senhor, por ocasião do Seminário “Proteger o Planeta, Tornar Digna a Humanidade” promovido no Vaticano pela Pontifícia Academia das Ciências, a organizar uma Convenção informal, em Roma, e a enviar uma Carta Aberta ao Papa Francisco sobre as alterações climáticas?

Calvin BeisnerAntes de mais nada, quero deixar claro que não fui eu quem organizou a referida convenção prévia, se bem que tive o privilégio de tomar parte dela, mas quem realmente a organizou foi o Instituto Heartland [http://www.heartland.org]. São nossos bons amigos e tive a satisfação de nela poder participar. Fiquei surpreso com a rapidez com que a montaram em apenas cinco ou seis dias.

Por que foi importante tratarmos dessa questão? É claro que o Papa Francisco tem uma influência moral enorme no mundo como o chefe da Igreja Católica, com cerca de 1.2 bilhões de pessoas, que o consideram seu principal mestre de moral nesta Terra. Seja qual for a posição que em sua Encíclica venha a assumir a propósito de várias questões, é natural que será altamente influente. Como afirmamos em nossa Carta Aberta, estamos certos de que o temor de um perigoso “aquecimento global provocado pelo homem” é determinado por modelos climáticos que já fracassaram no teste-chave da ciência.

 

CatolicismoA mídia noticiou amplamente essa Carta Aberta e a Conferência prévia que realizaram em Roma. O senhor acha que foram bem sucedidos em influenciar o debate sobre o “aquecimento global”?

Calvin BeisnerBem, é muito difícil avaliar isso em círculos políticos e sociais, particularmente nos eclesiásticos e teológicos. Eu julgo bastante provável que nossa Carta Aberta tenha exercido uma influência significativa. Poucas semanas depois de a difundirmos, em 28 de abril último, noticiou-se que o Vaticano havia adiado a publicação da Encíclica, aparentemente porque não esperava que a mesma viesse contar com a aprovação da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, dirigida pelo cardeal Gerhard Müller. Sei que diversas pessoas levaram nossa Carta Aberta diretamente às mãos do Cardeal. Assim, sou levado a crer que ele tenda a coincidir com tal mensagem. Assim, penso que é muito provável que ela teve sua influência, mas humanamente falando é muito difícil prová-lo.

 

CatolicismoFoi o senhor que escreveu a Carta Aberta ao Papa Francisco?

Calvin BeisnerA primeira redação foi minha. Recebi também opiniões de um certo número de especialistas — teólogos, filósofos, cientistas — assim como de economistas. Na realidade, foi produto de uma equipe.

Os ambientalistas querem pobreza, por que é como eles veem humanos vivendo em harmonia coma natureza

CatolicismoO senhor julga que os norte-americanos são mais propensos que outros povos a uma visão objetiva sobre a questão do aquecimento global? No Brasil, na Cúpula Rio+20, as organizações norte-americanas foram constantemente atacadas porque frustravam a mensagem climática alarmista e a do controle populacional. O senhor diria que eles são receptivos à mensagem da Cornwall Alliance e de organizações similares?

Calvin BeisnerComparadas com sondagens realizadas em várias partes do mundo, constata-se que a população americana é mais cética do que a europeia quanto ao “perigo do aquecimento global provocado pelo homem”. Contudo, eu tenho dúvidas de que tenhamos informações de boa qualidade a esse propósito dos povos da África, Ásia e América Latina. Mas constata-se que os americanos tendem a ser um pouco mais céticos, e possivelmente há uma série de razões para isso.

Por um lado, historicamente a Europa vem sendo muito mais habituada a um sistema burocrático do que os Estados Unidos. Infelizmente, penso que também nós estamos sendo levados por esse caminho já que, aqui também, a mensagem alarmista serve de escusa à expansão de uma burocracia estatal.

Mas isso é apenas um aspecto do problema. Os Estados Unidos se mantiveram muito mais ativos na fé cristã ao longo do século passado do que a Europa. O fato de que historicamente nos Estados Unidos dedica-se mais tempo a leitura das Sagradas Escrituras, provavelmente contribuiu a que seu povo seja mais cético sobre um aquecimento global causado pelo homem.

Penso que isso se dá porque o alarmismo sobre o aquecimento global carece de evidência científica sólida e empírica. Também, esse alarmismo é inerente e intuitivamente incompatível com aquilo que as Escrituras nos ensinam sobre Deus e a sua Criação, e tudo isso é causa desse ceticismo. A noção de que uma mudança minúscula na composição química da atmosfera — de 28 milésimos de 1% a 56 milésimos de 1% de dióxido de carbono, durante um período de várias centenas de anos — venha a ser a causa de resultados cataclísmicos em termos de aquecimento global (com o derretimento as calotas polares, conjugado com um aumento do nível dos mares e um grande incremento das tormentas meteorológicas e coisas do gênero), é muito inconsistente com aquilo que nos ensinam as Sagradas Escrituras. Isto é, que a Terra e todos os seus muito diferentes sistemas geológicos e oceanológicos são o produto de um Planejador infinitamente sábio, de um Criador onipotente e de um Sustentador absolutamente fiel.

Lemos no Gênesis (1,31): quando Deus criou tudo, Ele considerou o conjunto “muito bom”. Se eu fosse um arquiteto e projetasse edifícios nos quais, se alguém se apoiasse em uma de suas paredes, e a estrutura daquele edifício ampliasse a pressão do peso do corpo, levando todo o edifício a desmoronar, alguém me consideraria um brilhante arquiteto? Penso que não. Ora, é injuriar a Deus considerá-Lo tão péssimo arquiteto.

O Dr. Roy Spencer, um dos membros mais antigos da Cornwall Alliance, diretor de pesquisa científica no Centro de Ciência do Sistema Terrestre da Universidade do Alabama e líder da equipe do Programa Satélite Aqua de Sensoriamento Remoto da NASA (que é a fonte de dados de todas as horas de cada dia do ano, sobre a temperatura atmosférica global em todas as latitudes, longitudes e elevações, fonte de dados de temperatura mais abrangente que existe), pensou: “Bem, os modelos climáticos todos supõem que as nuvens são afetadas pelo aquecimento de superfície, de forma a aumentar esse aquecimento. Eu me pergunto quão verdadeira é essa suposição.”

Então ele projetou alguns testes e trabalhos de observação, utilizando a rede dos satélites de que dispunha e descobriu que o oposto é a realidade. Que as nuvens respondem ao aquecimento da superfície, minimizando-o, reduzindo-o. E elas respondem ao esfriamento da superfície, também minimizando-o. Em outras palavras, na realidade as nuvens funcionam como termostato para a Terra. Entretanto, todos os modelos catastrofistas pressupõem que as nuvens representavam uma reação positiva. Seu trabalho de observação indicou que há, pelo contrário, reação negativa.

Assim, uma vez mais a fé cristã pode nos abrir olhos para a evidência da observação científica, à qual, de outro modo, poderíamos não prestar atenção.

 

CatolicismoPoder-se-ia dizer que foi planejado?

Calvin BeisnerPode-se dizer isso. Obviamente, o projeto da Criação inteligente é odiado pelos cientistas laicistas, mas eu não acho que se possa fugir dele. Se não temos nenhum problema em dizer que o conjunto da Enciclopédia Britânica é o resultado de um projeto inteligente, então eu não sei por que poderíamos ter problema em dizer que os próprios seres humanos — bem como o sistema climático — são o resultado de um projeto inteligente. Uma célula envolve o intercâmbio de uma massa de informações milhões de vezes maior do que a Enciclopédia. Essas informações não surgiram por acaso. Outro exemplo, a ordem interna dos cristais pode se produzir aparentemente por acaso, mas não as informações da estrutura celular.

 

CatolicismoDizem que o aquecimento global provocado pelo homem prejudica o Brasil, a América Latina e o mundo em desenvolvimento.

Calvin BeisnerNenhuma sociedade jamais se elevou da pobreza sem o acesso a energia abundante, barata e confiável.

Se há ainda povos que estão vivendo na pobreza, presos a ela, em boa medida é porque não têm acesso à energia abundante, acessível e confiável, essencial para a sua ascensão e saída dessa pobreza. Há quem diga que a única maneira de reduzir a suposta influencia humana sobre a temperatura media global — pela da emissão de dióxido de carbono — é reduzindo o uso de combustíveis fosseis.

Esse é o primeiro modo de como essa visão exerce consequências negativas para os povos da América Latina e de outras partes mais pobres do mundo. É para forçar as pessoas a se afastarem dos combustíveis fosseis rumo ao combustível solar e outros chamados “renováveis” (que são muito mais caros), propõem aumentar o controle do Estado sobre a vida das pessoas.

Na realidade a condição fundamental de superação da pobreza tem sido a liberdade econômica. Ou seja, respeito ao direito de propriedade privada (que é um verdadeiro direito apenas se você controlar a sua propriedade), o empreendedorismo, o livre comércio dentro dos limites da lei moral (livre comércio não significa que você pode estabelecer uma Companhia de Assassinatos, ou associação de prostituição, ou coisas assim…), um governo dentro de legítimos limites e a vigência da lei, e não um gigantismo governamental e o domínio dos burocratas.

 

CatolicismoÉ interessante o senhor dizer isso, porque no Brasil especificamente, os ambientalistas apresentam a vida dos índios como sendo o ideal a ser imitado pelo homem ocidental.

Calvin BeisnerSe você gosta da ideia de que 50% de suas crianças morrerão antes dos cinco anos e de que sua perspectiva de vida será de cerca de 27-28 anos, então você nasceu há de três séculos. Porque há três séculos atrás era assim o comum da vida, ou a morte, em toda a raça humana.

Foi apenas nos últimos três séculos que parte da humanidade vem deixando isso para trás. A pobreza traz sofrimento. A pobreza traz a morte. Se você quiser reduzir o sofrimento humano, se desejar reduzir a morte e prolongar a vida, se você acredita que os seres humanos são algo que deve ser exaltado como nos ensina o Salmo 8; que somos criados à imagem de Deus, que somos “coroados de glória e honra”, então você não desejará tal pobreza.

Mas os ambientalistas alarmistas querem a pobreza, porque é como eles veem os seres humanos “vivendo em harmonia com a natureza”. Na raiz disso está a falsa ideia de que os seres humanos não são diferentes dos animais irracionais. Eles não compreendem em absoluto a excepcionalidade humana. E por isso, eles desejam estender os direitos humanos aos animais, às plantas e aos ecossistemas inteiros.

 

CatolicismoPor quê?

Calvin BeisnerUma ética humana para animais irracionais transforma-se muito facilmente em ética bestial para seres humanos. Se não houver uma diferença moral entre um ser humano e uma cobaia, então você começará a tratar os seres humanos como trata às cobaias, e não começará a tratar as cobaias como trata aos seres humanos.

 


DECLARAÇÃO DO ENTREVISTADO A RESPEITO DA ENCÍCLICA LAUDATO SI DO PAPA FRANCISCO

Logo após a publicação da recente encíclica do Papa Francisco, o Dr. Calvin Beisner, a pedido da direção da revista Catolicismo por meio do Sr. James Bascom, fez a declaração que segue.

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Devo dizer que a versão oficial da Encíclica saiu apenas há algumas horas e que não tive ainda oportunidade de lê­-la inteira. Mas, antes de tudo, meu pensamento é de que a própria mudança climática, embora tratada de modo muito proeminente pela maioria dos meios de comunicação que se ocuparam da Encíclica, na verdade, aproveita apenas um ou dois por cento do texto, as seções 23 a 26, que especificamente tratam do clima.

É interessante notar que, a cada secção numerada, encontramos uma média de 1,4 notas, mas não traz nenhuma nota nas secções que versam sobre o clima. E nem apresenta as fontes para as afirmações, alertando sobre um aquecimento causado por emissões humanas de CO².

Julgo quase inevitável a Encíclica fornecer combustível para o movimento alarmista quanto ao aquecimento global, apesar de não haver sustentação em dados empíricos. Portanto, creio que esse movimento faria um uso “criativo” da Encíclica.

Grande parte do movimento ambientalista é fortemente esquerdista em suas perspectivas políticas e econômicas e há muitos resquícios da velha “teologia da libertação” na Encíclica.

Minha objeção fundamental a todas as recomendações para se tentar reduzir o chamado aquecimento global pela redução do uso de combustíveis fósseis (e, portanto, das emissões de CO²), é de que isso prejudicará os pobres em todo o mundo muito mais do que qualquer mudança climática. Do ponto de vista econômico, aumentará o preço da energia, o que fará subir o preço de tudo, prejudicando especialmente os pobres e retardando o seu desenvolvimento econômico. Muitas pessoas serão lançadas fora do mercado do trabalho, os salários dos que trabalham diminuirão e os preços dos bens que eles precisam comprar irão aumentar. Isso significa que você estará empurrando para baixo da linha de pobreza muitos dos que estão um pouco acima dela, e lançando as que estão bem acima para baixo, em direção a ela. Não existe virtude moral nisso.

As alegações de que o perigoso aquecimento global seja provocado pelo homem são falsas. A evidência empírica mostra que os modelos [nos quais tal asserção se baseia] estão errados.

As recomendações da Encíclica poderão ter um efeito precisamente oposto para os quais o Pontífice indica. 


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