Outubro de 1999
SANTA TERESINHA AOS 8 ANOS
Ambientes, Costumes e Civilizações

SANTA TERESINHA AOS 8 ANOS

Infância consciente, meditada, raciocinada

·         Plinio Corrêa de Oliveira

Esta fotografia de Santa Teresinha, aos 8 anos, é realmente magnífica; falta apenas o relevo, para se dizer que ela está viva.

           

A primeira impressão que se tem ao olhar para ela, é a            
A primeira impressão que se tem ao olhar para ela, é a seguinte: 
Que menina!  Ela é ainda menininha, cheia de vida, de frescor, saltitante, e com essa espécie de extroversão própria a uma menina ainda na infância. Aí se vê a beleza de uma alma de criança, na delicadeza, na fragilidade, na louçania da natureza feminina.
          Por detrás dessa impressão vem uma outra: ao mesmo tempo em que o observador se embevece com a inocência, com a vivacidade e a louçania dessa menina, percebe a idéia de pureza. A pureza está presente, antes de tudo, no seguinte: nota-se nela, no sentido verdadeiro da palavra, uma boa espontaneidade.

É uma menina que não esconde nada, que tem o hábito de não esconder nada,  sabendo perfeitamente que não tem o que esconder. Nela não há fraude nem dissimulação. Dela pode-se dizer o que Nosso Senhor disse de Natanael: “Aqui está um verdadeiro israelita, no qual não há fraude” (Jo I,  47). Eis aí uma verdadeira menina, pura, filha de uma família católica, que tem em si toda a pureza, toda a candura de uma vida de família católica, aquela delicadeza virginal que a vida de família católica comunica especialmente a uma menina. E isso sem fraude nenhuma, ela  não tem o hábito de pecar.

Percebe-se que essa espontaneidade que há nela é presidida por uma certa regra, mediante a qual ela nunca faz aquilo que não deve.

A boca é reta, com os lábios finos e muito firmes. É uma firmeza na qual não existe uma gota de amargura. Pelo contrário, há um certo sorriso indefinível. Falam tanto do sorriso da Gioconda, mas isto é que é sorriso! Ela não está nem um pouco sorridente, mas há um sorriso indefinível em seus  lábios. Há qualquer coisa nela que sorri, sem que se possa propriamente dizer que ela esteja sorrindo.

O nariz tem uma forma um pouco proeminente, um pouco de combate, um pouco de luta. 

Considerando agora os olhos, observa-se que é sobretudo neles que reside aquele sorriso. A expressão de fisionomia, a expressão do olhar, apresenta um pouco do que o francês chama de espiègle – um pouco de esperteza e de graça. Concentrando-se a atenção nos olhos, acaba-se percebendo que há nesse olhar um firmamento, um mundo de reflexões que se iníciam.

Para quem  esse olhar está mirando? Ele não olha  nada definidamente. Mira um ponto vago, indefinido, mas com uma espécie de enlevo, de consideração, de contemplação enlevada, afetuosa, respeitosa. Em última análise, é o olhar próprio de um espírito possantemente contemplativo.

 Santo Agostinho disse de si, nas Confissões, na época de sua infância: “Tão pequeno menino eu era, e já tão grande pecador”. Dela poder-se-ia dizer: “Tão pequena menina era, e já  tão grande santa”. Porque  seu olhar tem qualquer coisa que me custa exprimir adequadamente, mas que é aquela impostação da alma em coisas que são inteiramente superiores.

Quando ela começou a escrever, por obediência, seus Manuscritos Autobiográficos, deteve-se sobretudo em sua  infância, e  pouco em sua vida no convento. Só mais tarde, para atender à solicitação de sua Priora, é que se ocupou mais de sua vida de freira. A infância, para ela, foi tudo. Por quê? Porque foi uma infância profundamente consciente, meditada e raciocinada.

Aqui está Santa Teresinha do Menino Jesus, com todo seu  tesouro de meditação, que pode existir numa alma de criança, e que ela conservou até o sumo de sua maturidade. É preciso ver bem: viveu a infância fiel a si mesma, e continuou a ser ela mesma até o apogeu de sua maturidade. É uma coisa magnífica!

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Excertos da Circular aos Propagandistas de “Catolicismo” e aos Sócios e Cooperadores da TFP,  maio de 1968. Sem revisão do autor.