O Pacto de Metz
Dossier Especial Catolicismo

O Pacto de Metz

Por que o último Concílio Ecumênico não condenou o comunismo? Tal atitude se prende à presença de eclesiásticos da Igreja cismática russa, como observadores, na Aula Conciliar? Conheça o acordo sigiloso que antecedeu esses eventos.

Atila Sinke Guimarães

             Os transeuntes que passavam diante do convento das Pequenas Irmãs dos Pobres, situado em Borny - bairro periférico de Metz, pequena cidade francesa - não poderiam supor que na residência do Padre Lagarde, capelão daquela casa religiosa, sucedia algo de importância transcendental. Sim, numa sala daquela residência religiosa, antes de outubro de 1962 - mês em que se reuniu a Magna Assembléia - efetuou-se um encontro sigiloso, que marcou época, entre duas altas personalidades.

            Representando o Papa João XXIII, ali estava o Cardeal de Cúria Eugène Tisserant; e, em nome da Igreja cismática russa, o metropolita Nikodin.

            Aquela reunião iria trazer conseqüências que acarretariam a mudança de rumos do Concílio, prestes a ser inaugurado. Em decorrência disso, tal encontro determinaria uma alteração de trajetória na própria História da Igreja no século XX.

            O que de tão importante se combinou nessa entrevista? A julgar por documentos recentemente dados à luz, ficou estabelecido que o comunismo não seria condenado pelo Concílio Vaticano II.

            A propósito dessa histórica e inexplicável omissão, assim se exprimiu o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira na III Parte de seu ensaio “Revolução e Contra-Revolução”, publicada em 1977: “O êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso, apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo” (1)

            Já em 1971, o Prof. Plinio comentava:

            “Em 1962 reuniu-se em São Pedro de Roma o Concílio mais numeroso da História. Para ele, João XXIII convidara observadores de todos os cultos, entre os quais os da I.O. [a 'soi-disante' Igreja Ortodoxa] pró-comunista. Segundo constou largamente naquela ocasião, a condição imposta por esta I.O. para que se dignasse aceitar o convite, era que na Sala Conciliar fosse proibido qualquer ataque ao comunismo, e que o Concílio Vaticano II se abstivesse de dizer contra este qualquer palavra. Não conheço provas concretas de que essa imposição tenha sido formulada. Mas o fato é que, no tocante ao comunismo, tudo se passou assim ... “ (2)

            As 'provas concretas' que faltavam a Plinio Corrêa de Oliveira, na ocasião em que escrevia esse artigo, tornaram-se conhecidas a seguir. Hoje sabe-se que, em 1962, o Vaticano e a igreja cismática russa estabeleceram um compromisso - conhecido pelo nome de Pacto de Metz -, segundo o qual a I.O. russa exigia como condição para mandar observadores ao Vaticano II que não houvesse qualquer condenação ao comunismo (3).

Para se entender este 'dossier' especial

1

A doutrina Católica sempre condenou enfaticamente o comunismo. “Catolicismo” poderia, se fosse o caso, publicar um número especial, composto exclusivamente de documentos pontifícios anticomunistas.

2

Seria natural, assim, que o Concilio Ecumênico Vaticano II, reunido em Roma de 1962 a 1965, corroborasse essas condenações contra o maior inimigo da Igreja e da Civilização Cristã neste século.

3

Além disso, 213 Cardeais, Arcebispos e Bispos solicitaram a Paulo VI que o Concílio fizesse tal condenação. Mais tarde, 435 Padres Conciliares repetiram o mesmo pedido. As duas petições foram devidamente entregues, em tempo hábil, segundo o Regimento Interno. Mas, inexplicavelmente, não entraram em debate. A primeira, não foi levada em consideração; quanto à segunda, alegou-se, depois de terminado o Concílio que fora “perdida” por Mons. Achille Glorieux, secretário da comissão competente para dar seqüência ao pedido.

4

O Concílio se encerrou sem ter emitido nenhuma censura expressa ao comunismo. Por que não o fez? O assunto ficou envolto nas brumas do enigma. Recentemente apareceram revelações importantes sobre o caso, as quais são o objeto deste dossier especial.

 NOTA: CATOLICISMO (fevereiro/64) foi o primeiro órgão em todo o mundo a divulgar a íntegra da petição dos 213 Padres Conciliares. Nela, aliás, se pode encontrar a tese do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, familiar aos leitores da revista, de que os erros da Revolução Francesa tornaram os espíritos, especialmente no Ocidente, propensos a aceitar as doutrinas marxistas (Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, “Revolução e Contra-Revolução”, cap.  III, item 5).

 Um pacto “quase secreto”

Concílio Vaticano II

            Com efeito, ao considerar a liberdade de que gozou o Vaticano II para tratar dos diversos temas, o Prof. Romano Amerio observava em 1985, revelando dados inéditos: “Mas o ponto saliente e quase secreto que é necessário tocar ao tratar da liberdade do Concilio é a coerção dessa liberdade com a qual João XXIII, poucos meses antes [do início do Concílio], havia consentido, realizando com a Igreja ortodoxa um acordo em razão do qual o Patriarcado de Moscou teria acolhido o convite papal de enviar observadores ao Concílio, e o Papa por seu lado assegurava que o Concílio se absteria de condenar o comunismo. A tratativa teve lugar em agosto de 1962 em Metz e todos os particulares de tempo e lugar resultam de uma entrevista de imprensa feita por Mons. Schimitt, Bispo daquela diocese (jornal “Le Lorrain”, 9-2-63). A negociação se conclui com um acordo assinado pelo metropolita Nikodin, em nome da igreja ortodoxa, e pelo Cardeal Tisserant, decano do Sacro Colégio, em nome da Santa Sé. A notícia do acordo foi dada pela “France nouvelle”, boletim central do Partido Comunista francês, no número 16-22 de janeiro de 1963 nestes termos: 'Porque o sistema socialista mundial manifesta, de uma maneira incontestável sua superioridade e que conta com a aprovação de centenas e centenas de milhões de homens, a Igreja não pode mais se satisfazer com um anticomunismo grosseiro. Ela assumiu mesmo o compromisso, por ocasião de seu diálogo com a igreja ortodoxa russa, de que não haveria mais no Concílio ataque direto contra o regime comunista!. Pelo lado católico o quotidiano “La Croix” de 15 de fevereiro de 1963 informou sobre o acordo, concluindo: “Em conseqüência desse encontro Mons. Nikodin aceitou que alguém vá a Moscou levar um convite, com a condição que sejam dadas garantias no que concerne à atitude apolítica do Concílio. “A condição posta por Moscou, isto é que o Concílio calasse sobre o comunismo, não é portanto secreta, mas as publicações isoladas não tiveram efeito sobre a opinião geral, não tendo sido retomadas pela imprensa nem propagadas, seja por uma apatia e anestesia dos meios eclesiásticos, seja por uma ação silenciadora desejada e imposta pelo Pontífice. Entretanto poderoso, se bem que silencioso, foi o efeito sobre o desenvolvimento do Concílio, no qual o pedido de renovar a condenação do comunismo foi rejeitada para observar a pactuada omissão” (4).

 Negociado entre o Kremlim e o Vaticano

            Estas importantes informações são corroboradas pelo artigo 'O mistério do pacto Roma-Moscou' publicado na revista “30 Dias” de outubro de 1989. Ali vêm transcritas as declarações do Bispo de Metz, D. Paul Joseph Schmitt. Dizia ele ao jornal “Republicain Lorrain” de 9 de fevereiro de 1963:

“Foi na nossa região que se realizou o encontro 'secreto' do Cardeal Tisserant com o arcebispo Nikodin. O local exato foi a residência do Padre Lagarde, capelão das Pequenas Irmãs dos Pobres, em Borny (na periferia de Metz, n.d.r.). Foi então que se falou pela primeira vez na vinda de prelados da Igreja russa. Depois desse encontro, a modalidade da presença da igreja russa foi estabelecida por Mons. Willebrands, auxiliar do cardeal Bea. O arcebispo Nikodin concordou com o envio de um convite oficial a Moscou, com a garantia do caráter apolítico do Concílio” (5).

            A mesma fonte transcreve também uma carta de Mons. Georges Roche sobre o Pacto de Metz: “... esse acordo foi negociado entre o Kremlin e o Vaticano no mais alto nível. ...Mas eu posso assegurar ...que a decisão de convidar observadores ortodoxos russos ao Concílio Vaticano II foi tomada pessoalmente por S.S. João XXIII com o encorajamento do cardeal Montini, que foi conselheiro do Patriarca de Veneza no tempo em que era arcebispo de Milão. ...O cardeal Tisserant recebeu ordens formais para negociar o acordo e cuidar para que fosse observado durante o concílio” (6).

            Em livro recentemente publicado, o teólogo alemão Pe. Bernard Hãring - que durante o Concílio foi secretário-coordenador da Comissão de redação da Gaudium et Spes - informa a razão mais profunda do 'engavetamento' da petição anticomunista: “Quando cerca de duzentos bispos pediram uma condenação solene do comunismo, monsenhor Glorieux... e eu, fomos acusados como bodes expiatórios. Não tenho motivos para negar que fiz todo o possível para evitar essa condenação, que soava claramente como uma condenação política. Eu sabia que João XXIII havia prometido às autoridades de Moscou que o Concílio não condenaria o comunismo para possibilitar a participação de observadores da Igreja ortodoxa russa” (7). 

Desde Stalin

            A idoneidade das informações destes autores não permite dúvidas sobre a efetivação do Pacto de Metz. O que nos possibilita dar crédito a outras, apresentadas no romance The Jesuits, do conhecido escritor norte-americano Malachi Martin - um ex-jesuíta bastante bem informado -, que apresenta detalhes verossímeis sobre os antecedentes, a realização e as conseqüências do Pacto de Metz.

            Malachi Martin figura o Cardeal Secretário de Estado, sob o pseudônimo de 'Stato', 'relatando' os entendimentos da Santa Sé com o Kremlin desde 1942 a nossos dias:

            “Stato recordou a seus Veneráveis colegas que ele havia estado com o atual Pontífice [João Paulo II] nos dois encontros de Sua Santidade com o emissário soviético, Anatoly Adamshin, o mais recente dos quais no início de 1981. Sua Santidade deu aos soviéticos a garantia de que nenhuma palavra ou gesto seu, dos Bispos poloneses ou dos líderes de Solidaredade violaria o Pacto Moscou- Vaticano de 1962.

            “Stato não precisou explicar a seus ouvintes que, no fim da primavera de 1962, um certo Cardeal Eugenio Tisserant fora enviado pelo Papa João XXIII para se encontrar com o Prelado russo, o Metropolita Nikodin, representando o Politburo soviético do primeiro-ministro Nikita Kruschev. O Papa João [XXIII] desejava ardentemente saber se o governo soviético iria permitir que dois membros da Igreja Ortodoxa Russa assistissem ao Concílio Vaticano II... O encontro de Tisserant com Nikodin realizou-se na residência oficial do então Bispo de Metz, Paul Joseph Schmitt. Aí, Nikodin transmitiu a resposta soviética. Seu governo concordaria, desde que o Papa garantisse duas coisas: que seu próximo Concílio não fizesse qualquer condenação do comunismo soviético ou do marxismo; que o Vaticano estabelecesse doravante como norma abster-se de semelhantes condenações oficiais.

            “Nikodin recebeu suas garantias. As coisas foram acertadas posteriormente pelo Cardeal jesuíta Agostino Bea até a conclusão final do acordo em Moscou. Esse acordo foi observado por Roma tanto no Concílio Vaticano II quanto na política da Santa Sé aproximadamente nas últimas duas décadas” (8).

            Adiante, o ex-jesuíta 'relata' que este pacto Vaticano-Moscou de 1962 não foi senão “mera renovação de acordo anterior entre a Santa Sé e Moscou”, por ocasião das conversações realizadas em 1942, no pontificado de Pio XII. “Foi nesse ano que Mons. Giovanni Battista Montini .... conversou diretamente com um representante de Joseph Stalin. Essas conversações tinham por objetivo sopitar as constantes fulminações de Pio XII contra o ditador soviético e o marxismo. O próprio 'Stato' estivera presente nas conversações entre Montini e o chefe do Partido Comunista Italiano, Palmiro Togliatti, em 1944.

            “...Stato se prontificou a fornecer documentos do 'Allied Office of Strategic Services' relativos à matéria, a começar pelo Relatório OSS JR-1022 de 28 de agosto de 1944” (9).

            Tais são os documentos e informações extra-oficiais sobre o Pacto de Metz, que explicam em profundidade a incrível omissão do Concílio Ecumênico Vaticano II. 

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Notas

(1) “Diário das leis”, 1982, S. Paulo, 2a ed., p 67

(2) A I.O. no “water shoot”, in FOLHA DE S. PAULO, 3/10/71.

(3) Cfr. Ulisse Floridi, Moscou et le Vatican, France-Ernpire, Paris, 1979, pp. 147s; Romano Amerio, lota Unum, R. Ricciardi, Milano-Napoli, 1985, pp. 65s; Ricardo de la Cierva, Oscura rebelión em la Iglesia, Plaza & Janes, Barcelona, 1987, pp. 580s.

(4) Romano Amerio, op. cit. pp. 65s.

(5) “30 Dias”, outubro de 1988, pp. 55s.

(6) Idem, p. 57.

(7) Apud “30 Dias”, outubro de 1989, p. 55.

(8) Malachi Martin, The Jesuits - The Society of Jesus and the Betrayal of the Roman Catholic Church, The linden Press, New York, 1987, pp. 85.

(9) Idem, ibidem, p. 92.