Outubro de 2009
Esplendor e elevação nos trajes nobres
Esplendores da Cristandade

Esplendor e elevação nos trajes nobres

Interessante mostra em Versalhes despertou a admiração do público, atraído pela beleza e elevação cultural de séculos passados

Marcelo Dufaur

Paris –– A mão é de um adolescente apenas saído da infância. Delicada e régia, franzina e forte, envolvida em rendas e sedas, pérolas e pedras preciosas, esboçando um gesto discreto mas soberano, a mão de Luís XIV na idade de assumir o trono foi o símbolo escolhido pelos organizadores da exposição “Fastos de corte e cerimônias reais”, que teve lugar no palácio de Versalhes [foto ao lado].

A mostra ressaltou o espírito aristocrático na Europa dos séculos XVII e XVIII, expondo desde vestimentas para grandes ocasiões, como coroação de reis e bodas reais, até peças usadas por monarcas, nobres e ricos-homens, passando por uma variedade sutil de situações intermediárias. Mistura de vida de família e de atividade pública de governo, a vida de corte era refinada e exigente.

Eis logo na entrada as roupas usadas por Jorge III [foto à direita] da Inglaterra no dia de sua coroação em 1761, graciosamente emprestadas a Versalhes pela sua descendente, a rainha Elisabeth II. O traje é todo bordado com fios de ouro, eclipsado pela impressionante cauda em veludo vermelho e arminho. O conjunto é de uma pompa soberana, e só foi usado para a cerimônia religiosa e temporal da unção do rei, realizada na abadia de Westminster soberbamente enfeitada, repleta de nobres, autoridades e representantes dos órgãos sociais intermediários do reino. Nesses trajes, coroado e levando nas mãos o cetro e o globo, o novo rei era como um hífen entre Deus, fonte de todo poder, e o povo inglês. Nenhuma proporção com a esquálida cerimônia de posse de um presidente da República nos dias de hoje...

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No mesmo salão foi exposta a vestimenta da rainha Sofia Madalena da Suécia, no dia da coroação, 29 de maio de 1772. Ornada de ouro e prata, as vestes da nova rainha provinham de uma reforma de modelos antigos, com forte influência espanhola.







As cores branca e prateada representavam a luz divina, a pureza, a inocência e a perfeição. No vestido da rainha sobressai uma cauda de 5 metros, presa ao corpo com botões de prata maciça [foto à direita].







Outro grande acontecimento da vida de corte eram as reuniões periódicas das Ordens de Cavalaria. Ainda hoje ocorre anualmente a da Ordem da Jarreteira, na Grã-Bretanha, em que se usam uniformes como o do rei Jorge III [foto à esquerda], porém com adaptações.







Pomposo é o uniforme da Ordem do Espírito Santo, criada pela Casa real da França [foto à direita].

As vestes das cortes diferenciavam-se por uma sapiencial gradação, desde as que se usavam nas grandes cerimônias até às vestes para os afazeres ou despachos quotidianos. A etiqueta e o protocolo respeitavam essa variedade de circunstâncias.







Exemplos de roupa de corte para a vida diária são as de veludo verde com guarnições douradas, portadas pelo imperador russo Alexandre I, e as do mesmo imperador no tempo em que era príncipe herdeiro, em vermelho coral [foto ao lado]. Seguiam a moda da França nos tempos de Luís XVI. Também servem como exemplo as roupas de caça oferecidas por Luís XV a Cristian VII, rei da Dinamarca, em 1768.







Porém nenhuma Ordem real atingiu a categoria e o prestígio da Ordem do Tosão de Ouro [foto à direita]. Criada em 1430 por Filipe o Bom, duque de Borgonha, tinha como finalidade suprema a defesa da fé cristã.















Não só os grandes nobres participavam desse deslumbramento. Beneficiavam-se também os membros dos diversos graus da nobreza e da burguesia européia, e ainda as incipientes nobrezas americanas, como mostra a robe parée encomendada em Paris por uma dama canadense em 1780 [foto à esquerda].







O esplendor das cortes descia para todas as classes sociais, numa cascata de beleza e dignidade que as elevava. Um exemplo comezinho disso são as librés concedidas a criados e funcionários dos palácios, como a libré da casa real francesa, em uso quatro anos antes que a Revolução Francesa, movida pelo ódio contra toda hierarquia e nobreza, a abolisse em nome da igualdade. Não menos pomposa é a dos servos da casa real da Suécia em 1751 [foto à direita].

No Ancien Régime, período em que se concentra a exposição, as cortes da Europa não apenas se inspiravam na corte francesa, mas mandavam confeccionar em Paris as melhores vestimentas, que depois ficaram guardadas como preciosas relíquias culturais. Da França, porém –– tremendamente castigada pelo ódio destruidor da Revolução Francesa, que incendiou palácios e toda espécie de bens dos reis e da nobreza em geral –– nada ficou para ser exposto, a não ser quadros nos quais aparecem as vestimentas da corte de Versalhes.

Após 1789, a feiúra republicana foi tomando conta da vida pública. A vida de família foi separada da vida oficial, e esta ficou em mãos de grupos partidários.

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Na visita à exposição, com facilidade perde-se a noção do tempo e também da época. Aquelas vestimentas, cuidadosamente iluminadas num décor de sombras, falam de um mundo feérico, de uma imagem temporal do que pode ser a glória celeste que envolve os santos no Céu.

Com efeito, aquele prodigioso conjunto de trajes é um dos tantos frutos da civilização cristã, modelada pela Igreja. Predispõe as almas à prática das virtudes e proporciona-lhes um antegozo, que as convida a desejar a vida eterna no Paraíso Celeste.