Outubro de 2006
A visão artística e simbólica do mundo em Plinio Corrêa de Oliveira
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Entrevista

A visão artística e simbólica do mundo em Plinio Corrêa de Oliveira

Adolpho Lindenberg destaca na personalidade de Plinio Corrêa de Oliveira, seu primo-irmão, um dos traços mais marcantes e originais daquele homem de ação, pensador e líder católico

Nascido em São Paulo, em 1924, Adolpho Lindenberg, conhecido no Brasil como um dos mais renomados arquitetos de nossa época, licenciou-se em Engenharia Civil e Arquitetura pela Universidade Mackenzie em 1949. Em 1952 fundou sua própria empresa — a Construtora Adolpho Lindenberg (CAL) —, que se tornou em pouco tempo uma das construtoras mais conceituadas do País. A CAL tem seu nome associado à reintrodução do estilo colonial na prática arquitetônica moderna brasileira. O estilo de seus edifícios marcou profundamente a capital paulista.

Além de engenheiro e empresário, Adolpho Lindenberg dedica seus dias ao apostolado contra-revolucionário iniciado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Com ele conviveu e dele guarda imorredouras lembranças, desde a infância na casa de sua avó, Da. Gabriela Ribeiro dos Santos. Depois, na juventude, participou do chamado Grupo do Legionário e do Grupo de Catolicismo, ambos formados e liderados por Plinio Corrêa de Oliveira, bem como da fundação e das atividades da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade.

* * *

Catolicismo — Para conhecer a personalidade do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, seu primo, o Sr. julga suficiente conhecer os fatos que marcaram sua vida e as doutrinas que defendia, ou há algo mais?

Dr. Adolpho Lindenberg — Erram aqueles que pensam conhecer bem a personalidade de Dr. Plinio quando omitem uma das facetas mais originais de seu modo de apreciar e interpretar as realidades da vida –– refiro-me a seu extremo gosto e facilidade em detectar o valor simbólico das coisas, dos costumes, dos fatos históricos e sobretudo dos gestos, olhares e reações psicológicas.

Catolicismo — “Valor simbólico”? O que vem a ser isto?

Dr. Adolpho Lindenberg — Símbolo, em sua acepção mais nobre, é a expressão material de alguma coisa imaterial, imponderável. Deus, com efeito, criou seres materiais que apresentam analogias surpreendentes com valores de ordem superior, espiritual, e cabe a nós ficar atentos para detectar e apreciar essas evocações.

A razão principal de cada coisa não é a funcional, mas a simbólica. Os deveres dos pais, por exemplo. Sua razão mais alta não é a de alimentar e educar os filhos, mas sim a de representar Deus junto a eles. Deus enquanto gerando, nutrindo, formando, etc. Essa função simbólica é, na ordem natural, o que há de mais poderoso para a formação das almas. É contemplando essa simbologia que, de modo especial, nos exercitamos na prática do amor de Deus.

Catolicismo — A apreciação do aspecto simbólico das coisas eleva o homem até Deus?


Dr. Adolpho Lindenberg — Para o homem, nesta terra, não basta ir diretamente a Deus, é preciso compreender a linguagem muda dos símbolos e ouvir seus ecos que sobem até o Criador. Deus, uno e trino, é sempre o termo último das analogias. Tanto é assim que podemos afirmar: todo o universo, de um modo ou de outro, é símbolo de Deus.

Nisto colocamos a nota tônica. E colocamo-la porque a função simbólica é sempre a mais alta na ordem das causas. Lembrar a altíssima função dos seres em ordem ao amor do Deus pessoal, como que torna Deus perceptível aos homens.

Existe uma simbologia natural –– jogos de luzes podem lembrar estados de espírito –– e uma simbologia artificial como, por exemplo, a linguagem, as artes, etc. O belo, em certo sentido, é símbolo do bom, e a verdadeira beleza simboliza o bem. Desta maneira, a verdadeira arte simboliza a moral.

Catolicismo — Isso, que aliás pode-se observar em artigos e livros de Dr. Plinio, ele o manifestava já na infância e juventude?

...ou preciosos rubis, podemos afirmar: todo o universo, de um modo ou de outro, é símbolo de Deus

Dr. Adolpho Lindenberg — Dr. Plinio, desde criança, comentava prazerosamente o olhar de sua mãe, os gestos e a postura de seus tios, a finura ou a carência dela neste ou naquele visitante, etc. Ele tinha também um gosto todo especial pelas pedras –– suas cores, seu luzir, suas transparências, seu mistério, sua capacidade de simbolizar valores espirituais. Com efeito, quando a contemplação chega aos píncaros de seres meramente naturais, o espírito caminha para um sentimento religioso. Por exemplo, quando o Cardeal Merry del Val visitou a Suíça e contemplou aqueles cumes nevados das montanhas, tirou o chapéu e cantou o Magnificat.

O vermelho dos rubis, quintessência da grandeza, da força espiritual, da glória em seu estado puro; o verde da esmeralda, sua transparência lembrando a pureza da alma, seu lusco-fusco encobrindo mistérios e profundidades a serem desvendados; os diamantes, símbolos da supremacia, da realeza; seu brilho é a matriz de todas as luzes.

Se assim ele discorria sobre o simbolismo de seres materiais inanimados, o que dizer de suas dissertações sobre seres vivos? Por exemplo, gatos, cachorros e, sobretudo, cavalos? Ao se referir às pessoas, sua atenção, como seria de se esperar, concentrava-se no olhar. O porte, a classe, a segurança — numa palavra, a presença — também pesavam; mas a impronta, como dizem os espanhóis, é manifestada pelo olhar. O olhar tanto pode ser o símbolo da alma, da vida, da virtude da pessoa, como também do vício ou da apatia.

Lembro-me muito bem –– no reino das lembranças, os anos não contam –– de uma visita que Dr. Plinio e nosso pequeno grupo foi fazer ao José Gustavo de Souza Queiroz, amigo e correligionário nosso, que se restabelecia de doença grave num hospital. Na saída, uma freira veio nos convidar para visitar um velho padre, com fama de santidade, que estava para morrer naquele dia. Nos meus verdes anos, 16 ou 18, senti meus membros vacilarem diante da morte. Fiquei bem atrás, mas minha curiosidade levou-me a observar de relance o rosto do moribundo. Confesso que a espiritualidade, a força, e eu diria até mesmo a felicidade de seu olhar marcaram-me para o resto de minha vida.

Dr. Plinio, que possuía como uma espécie de carisma o discernimento dos estados de alma, sempre considerou o olhar das pessoas como o símbolo adequado para se conhecer seu caráter. Não raras vezes, ao cumprimentar pessoas de nosso grupo, ele como que penetrava seu estado de espírito, suas crises ou seu progresso espiritual. E ao conhecer estranhos, com facilidade apontava as características de sua personalidade, suas arrière-pensées (segundas intenções), suas tendências revolucionárias ou contra-revolucionárias. E tanto era assim que nós do grupo, após encontros com possíveis integrantes do movimento, com visitantes que vieram conhecê-lo, ou com simples personagens de nosso dia-a-dia, procurávamos depois Dr. Plinio para ouvir seus comentários. E não raras vezes ficávamos surpresos com a saliência dada por ele a detalhes que nos tinham passado despercebidos ou com as interpretações que ele dava de certos movimentos de alma do indivíduo observado, e que nunca nos teriam chamado a atenção. Quanta objetividade, quanta benquerença, quanta simplicidade — e, algumas vezes, quanta severidade — podíamos perceber naquelas ocasiões.

Catolicismo — A severidade não era a nota predominante?

Dr. Adolpho Lindenberg — Em numerosas ocasiões, me diverti ao observar como os comentários de Dr. Plinio, para grande desconcerto dos ouvintes, revelavam pontos de vista inteiramente originais e inesperados.

No auge da Guerra Fria, um príncipe alemão veio nos visitar vestido com as características calças curtas e o chapéu tirolês. A maioria dentre nós estava convicta de que esse modo um tanto rústico de se apresentar iria despertar não poucas críticas por parte de Dr. Plinio. Qual não foi nossa surpresa ao ouvir dele um comentário francamente elogioso da naturalidade, segurança e sobranceria com que se apresentou o príncipe, vestindo um traje típico de sua região. Em seqüência, passou para temática muito cara a ele –– a nobreza considerada como o "núcleo duro", a essência das essências do caráter de um povo; e, na ocasião, nos fez uma belíssima conferência. Essas e outras exposições sobre temáticas do gênero prepararam, ao longo de sua vida, a elaboração de sua monumental obra Nobreza e elites tradicionais análogas.

Afirmações colhidas ao longo de conversas, a leitura de biografias, a observação de fotografias antigas, davam oportunidade para Dr. Plinio delas extrair comentários sem fim, análises portentosas, configurações inesperadas, correlações surpreendentes.

Catolicismo — O Sr. poderia dar algum exemplo?

O menino observa a rainha...

Dr. Adolpho Lindenberg — Lembro-me de que certa vez Dr. Plinio comentou uma fotografia publicada numa revista, onde se via a rainha da Inglaterra numa carruagem. Dr. Plinio chamou-nos a atenção para um menino de uns 7 anos de idade que assistia à passagem da soberana com um olhar irradiante de admiração, verdadeira personificação do entusiasmo. Não de um entusiasmo trivial, mas daqueles que surgem do âmago do ser, e tão profundo que, se preciso fosse, o levaria a dar sua vida pela soberana.



...numa atitude admirativa

A propósito da cena, Dr. Plinio fez vários comentários. Exemplifico com dois: se esse menino se mantivesse fiel a essas disposições, provavelmente se converteria ao catolicismo. E nessa fotografia, se comparássemos a figura da rainha com a de seu pequeno súdito, para ver qual delas simbolizava melhor a monarquia, a grandeza do império britânico e a intrepidez do caráter dos ingleses, ele escolheria o menino.










Catolicismo — Esse discernimento que Dr. Plinio tinha das pessoas manifestava-se também nas artes?

Dr. Plinio com Dr. Adolpho na década de 50

Dr. Adolpho Lindenberg — Fazia parte de seu carisma conhecer estados de espírito e ter sensibilidade para detectar o espírito revolucionário, igualitário e chulo nas mais diversas manifestações artísticas. Assim, por exemplo, enquanto para nós era difícil explicitar a razão pela qual percebíamos que a arquitetura de certas igrejas modernas era revolucionária, Dr. Plinio discorria com facilidade, mostrando como a ausência de ornatos, a brutalidade de certas formas, a redução intencional das manifestações simbólicas em função da "utilidade" e da "simplicidade", e outros elementos que constituem os ícones de tudo o que é moderno, ao invés de exaltar os valores espirituais, na verdade os rebaixam. As igrejas modernas, como ficou provado no magnífico artigo sobre o tema, que Catolicismo publicou no mês de agosto, mais parecem garagens do que locais de oração.

Catolicismo — Nossa revista publicou inúmeras colaborações de Dr. Plinio, nas quais se nota sua elevada visão simbólica das coisas e a percepção dos aspectos revolucionários e contra-revolucionários nas manifestações artísticas.

Fac-símile de pãgina da seção Ambientes, Costumes, Civilizações

Dr. Adolpho Lindenberg — Dr. Plinio sempre julgou a visão simbólica das coisas tão vital para a boa formação espiritual de seus seguidores, que ele mesmo escrevia durante anos, nas edições de Catolicismo, aquela seção denominada Ambientes, Costumes, Civilizações.

A reunião de todos estes artigos num livro, com boas fotografias, viria a constituir um instrumento eficientíssimo para a formação de uma Weltanschauung (visão do universo) tradicional, ortodoxa, aristocratizante, com grande apreço pelo que é autenticamente popular. Além disso, seria uma leitura sumamente agradável sobre uma temática original e muito reveladora da personalidade de nosso sempre saudoso Dr. Plinio. Aqueles que o conheceram, ao ler ou reler estes flashes que tão bem retratam o declínio da Civilização Cristã, certamente terão diante de si a figura íntegra desse grande pensador. E terão ainda saudades em dobro dos dias em que ele conversava ou escrevia com tanto enlevo sobre “as ruínas da Cristandade”, às quais ele dedicou toda sua vida.


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