O encanto da Bahia
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Brasil Real

O encanto da Bahia

Geraldo Martins

Foi só quando desejou se alimentar das bolotas dos porcos que o filho pródigo teve saudades da casa paterna (cfr. Lc 15, 16-19).

É neste triste fim de civilização que incontáveis almas se voltam para os valores da Tradição cristã, em busca de solução para seus problemas.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira afirmou que em poucos lugares a tradição pode ser tão sentida quanto na "Bahia vivaz e indolente, gulosa e musical" (1).

Com efeito, não há brasileiro que, ao ouvir falar da Bahia, não tenha a sensação de ouvir algo como um instrumento musical, tocando no fundo da alma uma suave e acolhedora melodia. É a Bahia do passado, a encantar seus irmãos mais novos com aquele atrativo próprio à casa do filho primogênito.

Essa impressão firmou-se em meu espírito quando, numa das viagens, cheguei a Salvador ao entardecer e me coloquei imediatamente junto ao Farol da Barra. As águas da Baía de Todos os Santos eram de uma tonalidade que variava -- ora esmeralda, ora prateada, ora de um azul-celeste pontilhado de rubis -- conforme variavam os coloridos do crepúsculo. E enquanto o astro-rei concluía seu cerimonial de despedida, sumindo na fímbria do horizonte, como que envolto pela imensa safira líquida, meus olhos depararam com outro panorama de rara beleza: as silhuetas de torres das seculares igrejas, as ameias dos fortes e os antigos palácios e mansões senhoriais, que em bons tempos de outrora arrancaram de um francês esta exclamação: "Parecem uns principados!" (2)

±s 18 horas, os velhos carrilhões da Basílica da Senhora da Conceição da Praia anunciaram o Angelus. Uma atmosfera de bênção descida do Céu fazia-me lembrar a célebre lenda da Cathedral Engloutie (catedral submersa), contada entre os marinheiros da Bretanha, na França. Por causa dos pecados dos homens, Deus permitiu que a catedral de certa cidade fosse submersa pelas águas. Mas, de quando em vez, ao sopro de uma graça, os homens se arrependiam de suas iniqüidades, e seus corações se elevavam aos Céus, com indizíveis saudades da antiga igreja e das harmonias sacrais de seus sinos. As águas então se abriam, as torres da catedral emergiam e os carrilhões começavam a tocar.

Neste espírito de fé, comecei a percorrer as ladeiras pitorescas da velha Bahia, sentindo o delicioso odor de quitutes e iguarias exóticas. O colorido do casario, o sorriso vivaz estampado nos rostos de várias tonalidades, tudo, enfim, produzia uma deliciosa sensação. Era como se tivesse entrado num monumental caleidoscópio, onde uma imaginação e uma linguagem cheia de verve pareciam mostrar todos os seus encantos, como um pavão quando abre a cauda.

As famosas baianas com seus trajes de rendas, turbantes orientais com madrepérolas e grandes saias-balão, ofereciam apetitosas iguarias.

Mas para temperar tanta intemperança, Salvador possui cerca de 360 igrejas, quase uma para cada dia do ano, com seus austeros e ao mesmo tempo aprazíveis interiores, a nos lembrar que felicidade mesmo é só no Céu!

Dissertar, ainda que sumariamente, sobre as igrejas da Bahia -- banhadas de ouro, como a de São Francisco; com forte tom aristocrático, como a Catedral-Basílica; ou cheias de uma atmosfera mística de penitência, como a do Senhor do Bonfim -- extrapolaria os limites de um simples artigo.

Quem quiser saber por que o Brasil nasceu na Bahia, venha rezar em suas igrejas, escalar essas mesmas ladeiras, contemplar seus monumentos e casarios. Pois, como a culinária baiana em geral, é preciso prová-los para os conhecer. Não é nada fácil descrevê-los.

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Notas:

(l) Plinio Corrêa de Oliveira, Tradição, in "Folha de S. Paulo", l2/3/69.

(2) Gal. Labatut, apud Plinio Corrêa de Oliveira, Nobreza e elites tradicionais análogas nas Alocuções de Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana, Ed. Civilização, Porto, l993, p. l78.

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