Reportagem da Comissão de Estudos Agrários da TFP: assentamentos levam à miséria e à desolação
Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão
TFP´s em ação

Reportagem da Comissão de Estudos Agrários da TFP revela: assentamentos levam à miséria e à desolação

Paulo Henrique Chaves

- Sr. Ministro, os assentamentos no Brasil vêm fracassando.

- Alguns... - respondeu o Ministro Andrade Vieira.

- Peço vênia para dizer que são todos, Sr. Ministro.

* * *

Neste rápido diálogo, ocorrido em 17 de maio de 1995, numa sala do Congresso Nacional, o Ministro da Agricultura me surpreendia com sua opinião: alguns assentamentos vêm fracassando...

Ele recebia naquele momento 40 representantes da classe rural, que lhe entregavam 30.310 petições solicitando a suspensão das desapropriações de terras enquanto não se procedesse a um levantamento do resultado dos assentamentos já feitos.

Na ocasião, comentei com o Dr. Plínio Vidigal Xavier da Silveira, chefe de nossa delegação: "Vejo que o Ministro não conhece a realidade dos assentamentos". Eu já havia visitado vários deles, só encontrando miséria e desolação, que se podem resumir em duas palavras: favelas rurais.

Dias depois, encontrei o Diretor de Assentamentos do INCRA -- hoje seu presidente interino --, Dr. Raul do Valle, pessoa que, pelo seu cargo, seria a mais credenciada para informar sobre a verdadeira situação dos assentamentos de Reforma Agrária.

Ele foi além do Ministro, ao tecer loas à Reforma Agrária: "O sistema coletivo de produção é o ideal para os assentamentos" -- afirmou, exaltando também os kibutzin (fazendas coletivas em Israel, altamente socializadas).

Falou-nos com exuberância dos quase mil assentamentos, cujos assentados recebiam, em média, três e meio, quatro ou cinco salários mínimos. Com 16.000 dólares, segundo ele, assenta-se uma família na terra, esta, por sua vez, gera três a quatro empregos na cidade. Já são 20 milhões de hectares desapropriados...

O otimismo bem como as informações do Ministro e de seu dedicado diretor do Incra não coincidiam com o que havíamos visto nos assentamentos.

Nossa convicção de que a Reforma Agrária socialista não é uma solução, mas representará a miséria para o Brasil, prejudicando sobretudo o pequeno produtor de baixa renda, levou-nos a aceitar um desafio: percorrer o Brasil de Norte a Sul, conversando com assentados, e assim dispor de um testemunho que mostrasse a realidade de modo irrefutável, não apenas às nossas autoridades, mas ao público em geral.

Já em anos anteriores, por sugestão do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, visitamos muitos assentamentos, a fim de constatar seus resultados. Nossas observações, com a respectiva documentação fotográfica, foram publicadas em larga medida por Catolicismo.

Traçamos nosso roteiro de visitas. No encontro com o Diretor de Assentamentos do INCRA, anotamos os que o órgão considera bem sucedidos. Assinalamos no mapa a posição de cada um, pois estes deveriam obrigatoriamente ser visitados. E acrescentamos ainda outros, perfazendo ao todo 44 assentamentos.

* * *

Radiografia da viagem pelos assentamentos

Assentamentos visitados: 44

Localização: em todas as cinco grandes regiões do Brasil

Quilômetros percorridos: 21.850

Duração: 49 dias

Entrevistas efetuadas: 369, gravadas em 67 horas de fitas magnéticas

Documentário fotográfico: mais de 1.200 fotos

* * *

O contínuo bombardeio a que somos submetidos pela campanha a favor da Reforma Agrária prepara o espírito de muitas pessoas para aceitar que ela resolveria todos os problemas da agricultura. As imagens que entraram pelos nossos olhos e os depoimentos que nossos ouvidos e gravadores colheram indicam exatamente o contrário. Eles compõem um quadro completamente diverso daquele que nos fora apresentado pelo Sr. Ministro da Agricultura e pelo diretor do INCRA, e contradizem frontalmente o que a propaganda agro-reformista costuma divulgar.

Os brasileiros precisam conhecer o caminho inóspito e perigoso em que estaria entrando o País, se aplicada intensamente a Reforma Agrária. Nada melhor, para isso, do que saber o que está acontecendo nas terras onde já se aplicou a Reforma Agrária desde 1964. E para saber qual seria o resultado em nível nacional, basta projetar o que se vê nesses casos concretos.

A publicação do documentário intitulado Reforma Agrária semeia assentamentos - Assentados colhem miséria e desolação, que a Comissão de Estudos Agrários da TFP acaba de publicar, com lançamento nacional previsto para este mês, tem em vista esse objetivo.

Nesse trabalho, chegamos a algumas conclusões:

1) A Reforma Agrária não resolve o problema econômico:

a) Se a fazenda expropriada era produtiva, o assentamento a devasta; se os assentados se estabelecem em campo não cultivado, consomem o que podem e nada produzem;

b) Na tentativa de resgatar o plano de Reforma Agrária, seus responsáveis vêm substituindo a agricultura pela pecuária;

c) Os erros técnicos são flagrantes, causando grande desperdício do dinheiro público;

d) Os assentados não conseguem saldar seus compromissos apesar de seus créditos ultrafacilitados.

2) A Reforma Agrária não resolve o problema social:

a) Os assentamentos vêm se transformando em favelas rurais;

b) Os sem-terra continuam sem terras; a escritura da terra é-lhes sempre negada;

c) A implantação de assentamentos causa pesado ônus aos municípios;

d) Os assentados passam a viver sob um regime de ditadura e escravidão;

e) Triste futuro aguarda as famílias assentadas.

Se essa Reforma não resolve o problema social nem o econômico, por que tanta insistência em fazê-la?

Por uma razão ideológica! Qual ideologia? O socialismo. E sobre o socialismo a doutrina da Igreja é clara e explicitamente contrária: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e autêntico socialista.

Mas o presente documentário, extraído do livro a ser publicado, não nos fala através da voz superior da doutrina e dos princípios, nem da linguagem fria dos números. Fala através dos fatos. É uma colaboração que lealmente oferecemos às autoridades do País e à opinião pública. àquelas, para uma atuação social e econômica em favor dos autênticos trabalhadores rurais. A esta, para melhor julgar o que vem sendo feito de experiência agro-reformista em nossa Pátria.

E os fatos clamam: a Reforma Agrária, como vem sendo feita no Brasil, acabará levando a miséria ao campo e à cidade, conforme denuncia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira há 37 anos, desde 1959.

* * *

Renda mensal: Freira contesta estudo da FAO

Irmã Tereza Schiavenato pertence a uma comunidade religiosa dentro do assentamento São Pedro, em Eldorado do Sul - RS. Com ela mantivemos o seguinte diálogo:

Reportagem -- O estudo da FAO que temos em mãos, a respeito deste assentamento, afirma que cada assentado tira R$1.200,00 por mês. O documento é datado de dezembro de 92, e na época a Sra. já deveria estar aqui.

Irmã Tereza -- Isto deve ter sido erro de imprensa, ou alguém que aumentou, porque eu me lembro bem de que eles só fizeram entrevista com um cara da cooperativa aqui embaixo, e ele não falou isso.

Reportagem -- A Sra. viu a publicação, os dados?

Irmã Tereza -- (Constestando os dados) Não, não, não é verdade!...

Pecuária substitui agricultura: tentativa de resgatar a situação

Depoimentos

Foice em vez de maquinário

? Homero Gonçalo Batista, da Fazenda Annoni, RS, cortando pasto para as duas reses que constituem todo seu rebanho. Sua pequena foice é a única que vimos em toda a nossa viagem por 44 assentamentos. Os assentados preferem aguardar o maquinário prometido pelo INCRA, e não se preocupam em adquirir sequer uma foice. As que existem ficam reservadas para as manifestações orquestradas pelo MST...

Duas vacas magras

? Luiz José de Sena, 55 anos, Pajeú, BA -- Ave Maria! Eu estou vivendo com os trocos de 50, 100 reais que meus filhos me mandam de São Paulo. Da roça aqui, estou lascado, não tiro nada! Planto palma (cactus) para o gado, pois tenho duas cabeças financiadas pelo INCRA.

Urubu Preto

? Carlos da Silva, 23 anos, Fazendas Reunidas, Promissão, SP --

O urubu está preto para todos. Há gente que não tem dinheiro para comer... Tenho um vizinho ali que é fraco, coitado. Deve no banco, não faz [o suficiente] para comer. O Ademir da Silva [outro assentado] disse que o dinheiro que sobrou [lucro?] este ano não dá para comprar sequer uma galinha. Aqui, trabalhamos cinco pessoas, e o trabalho este ano não rendeu nem um salário.

Falsificações

? Shirley de Lourdes Ferreira, Fazendas Reunidas, Promissão, SP -- Todos que saímos da Cooperativa Pe. Josimo Tavares ficamos sem nada. E ela tem patrimônio: trator, vaca, tanta coisa lá dentro. Falsificaram nosso contrato, debitaram-nos uma coisa que não devíamos. Fomos tocados como cachorros.

Nem mamona

? Gercina Nascimento da Silva, Funcionária do Posto de Saúde, assentada na Gleba XV, Pontal do Paranapanema, SP -- Nem mamona está dando mais...

Assentado não pode querer progredir

? Carlos Roberto Ferreira de Freitas, 30 anos, presidente da associação dos assentados, Assentamento Alegre, Araguaína, TO --

O assentamento do Caju está mais fraco do que o nosso. E o do Muricizal está numa situação muito problemática. Se a pessoa tem capacidade para progredir, não é para ser assentado de Reforma Agrária.

Comente
Leia os comentários
Envie para amigos
Versao para impressão