Janeiro de 2012
30 anos de histórico manifesto contra o socialismo autogestionário
Entrevista

30 anos de histórico manifesto contra o socialismo autogestionário

O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça- de-ponte? É o título do documento, de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira, que denunciou o programa autogestionário do Partido Socialista Francês, que pretendia conduzir a sociedade a uma espantosa desagregação e instaurar uma igualdade radical.

Sr. Jean Goyard

“O sonho comunista era o de estabelecer uma sociedade sem Estado nem estruturas, na qual os cidadãos governariam a si próprios em torno de soviets”

No último mês de dezembro completaram-se 30 anos de um lance especialmente memorável, efetuado conjuntamente pelas TFPs de 13 países. Consistiu na publicação de um manifesto-bomba de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, ocupando seis páginas de jornais dos mais importantes do mundo, no qual era denunciado o programa autogestionário do governo socialista do presidente francês François Mitterrand. Tal programa correspondia a uma radical revolução que pretendia subverter completamente o Estado, a sociedade e a família, com repercussão no mundo inteiro, dada a natural irradiação de tudo quanto procede da França no domínio sócio-cultural.

Catolicismo teve a honra de participar dessa epopéia internacional, pois o documento foi publicado na íntegra em edição especial da revista (janeiro e fevereiro/1982). Agora, por ocasião do trigésimo aniversário desse lance, Catolicismo entrevistou o Sr. Jean Goyard, porta-voz e um dos mais antigos membros da Sociedade Francesa de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – TFP.

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Catolicismo — Antes de entrar no cerne doutrinário do tema autogestão e das repercussões do manifesto O socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?, o Sr. poderia dizer uma palavra sobre a campanha de divulgação dessa mensagem?

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (foto acima), segura um exemplar do manifesto publicado em 45 dos maiores e mais influentes jornais de 19 países da Europa, das Américas e da Oceania.

Sr. Jean Goyard — Com muito gosto. Foi no dia 9 de dezembro de 1981 que o manifesto, redigido e assinado pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, presidente da TFP brasileira, e apoiado pelas demais TFPs existentes, apareceu em dois importantes jornais dos Estados Unidos e da Alemanha: respectivamente o “Washington Post” e o “Frankfurter Algemeine Zeitung”. Nas semanas e meses seguintes, a íntegra do documento foi reproduzida em 45 dos maiores e mais influentes jornais de 19 países da Europa, das Américas e da Oceania. Pouco depois, um denso resumo do estudo foi publicado em 13 línguas de 49 países dos cinco continentes. A tiragem total do documento foi de 33,5 milhões de exemplares. Em seu conjunto, trata-se, sem a menor sombra de dúvida, de um dos maiores esforços publicitários não comerciais da história da mídia.

Catolicismo — Essas cifras são de fato impressionantes. Mas qual a necessidade ou oportunidade de tal esforço publicitário?

Francois Mitterrand

“O Projeto Socialista era baseado na autogestão. O Partido Comunista Francês pôs em surdina seu stalinismo e aprovou um Programa baseado na autogestão”

Sr. Jean Goyard — Para entendê-lo é preciso colocar-se no contexto da época, ou seja, no início dos anos 1980, quando o comunismo, agonizante nos países atrás da Cortina de Ferro, acabava de conquistar o poder na França, fruto de uma aliança entre comunistas e socialistas, conduzida por um líder carismático, François Mitterrand. Este tinha conseguido que os eleitores sonhassem com uma nova utopia de esquerda, a "autogestão socialista", a qual supostamente não continha as mazelas do "socialismo centralizado" dos “camaradas” do Leste Europeu. Tal programa poderia re-entusiasmar as esquerdas desanimadas no mundo inteiro. O prestígio internacional da França e seu rayonnement cultural seriam fatores propícios para esse revigoramento.

Catolicismo — Para as esquerdas era, então, uma hora delicada e decisiva...

Sr. Jean Goyard — Exatamente. O regime soviético encontrava-se corroído por uma crise interna que remontava às suas próprias origens. A URSS havia sido construída sobre um sistema antinatural e só podia sobreviver através da violência e da repressão. Em 1997, pesquisadores universitários publicaram uma obra intitulada O Livro Negro do Comunismo, na qual mostram que o número de mortos nas mãos ensanguentadas dos diferentes regimes comunistas ascendia a 100 milhões. Essa cifra é inferior à realidade: a comissão que estudou a repressão do regime soviético avaliou que só na URSS, entre 1917 e 1953, o número de vítimas foi de 43 milhões, ou seja, o dobro da cifra mencionada no Livro Negro para esse período. Recurso tão vasto à violência atesta que o regime era politicamente muito fraco. E, segundo tal comissão, para sobreviver na Rússia e alhures, a revolução comunista deveria exportar seu modelo a outros países mais ricos, que pudessem depois subvencionar o ineficiente regime socialista. Donde o interesse dos comunistas russos pela revolução cubana e sua exportação para o resto da América Latina, notadamente para o Brasil, país tão rico de recursos naturais.

Catolicismo — Mas esse regime totalitário e centralizador de fato correspondia ao ideal de Marx e Lenine, ou foi um desvio causado por circunstâncias internas e externas da revolução bolchevista?

Sr. Jean Goyard — O sonho comunista de Marx era o de estabelecer uma sociedade sem Estado nem estruturas, na qual os cidadãos governariam a si próprios em torno de pequenos soviets — conselhos compostos de operários, camponeses e soldados. De acordo com a utopia marxista, esse regime de autogoverno dos soviets seria anárquico, ou seja, literalmente sem governo e sem chefes, e só ele estabeleceria a igualdade e a fraternidade universais. Tratava-se, portanto, de uma utopia autogestionária segundo a qual cada soviet, cada pequena unidade de produção e de vida social geriria ela própria seus afazeres. As primeiras experiências de comunas autogeridas resultaram em total fracasso, obrigando a sua extinção e a instalação rápida do Estado centralizado e totalitário soviético.

Catolicismo — A utopia autogestionária foi então abandonada?

Sr. Jean Goyard — Nem um pouco. Para Stalin e seus asseclas, a ditadura do proletariado era apenas uma etapa transitória para a construção do regime comunista. A última Constituição da União Soviética, redigida por Brezhnev em 1977, ainda proclamava esse ideal autogestionário em seu Preâmbulo, que dizia: "O objetivo supremo do Estado soviético é edificar a sociedade comunista sem classes, na qual desenvolver-se-á a autogestão social comunista".

Catolicismo — Mas os partidos comunistas de fora da Rússia não propugnavam a autogestão, e sim a ditadura do proletariado...

Sr. Jean Goyard — Depois da Segunda Guerra Mundial, graças à traição das potências aliadas em Yalta, o comunismo deu um passo gigantesco na Europa do Leste, abocanhando países muito mais ricos do que a Rússia, como a Alemanha do Leste, a Tchecoslováquia, a Polônia, etc. E o regime que implantou nesses países foi uma cópia do modelo centralizado soviético. A única exceção foi a Iugoslávia do marechal Tito, que nos anos 1960 tentou descentralizar a produção e implantar uma certa autogestão nas fábricas.

Mons. Casaroli, responsável pela diplomacia vaticana, apoiou a chamada Ostpolitik, ou seja, a política de abertura ao Leste (comunista)

“O Projeto socialista preconizava uma intromissão da coletividade na vida privada de cada um, pretendendo intervir até na decoração interna dos lares!”

Mas os grandes partidos comunistas ocidentais, como o francês e o italiano, defendiam com unhas e dentes a ditadura do proletariado. Foi somente depois da Revolução da Sorbonne, de um lado, e do esmagamento da “Primavera de Praga”, de outro, ambas ocorridas durante o ano de 1968, que a repressão política e planificação centralizada e ditatorial do modelo soviético passaram a ser mal vistas até pela esquerda. Foi aí que os PCs da França e da Itália iniciaram uma estratégia de "compromisso histórico" com os partidos democrata-cristãos. Tais partidos abriram-se então, novamente, para a perspectiva de um socialismo democrático de tipo autogestionário.

A utopia autogestionária cobrou força nos ambientes esquerdistas — pelo menos na França — nas correntes de esquerda cristã, sobretudo no sindicato Confederação Francesa Democrática de Trabalhadores (versão laicizada e reformada da velha Confederação Francesa de Trabalhadores Cristãos) e numa corrente chamada "deuxième gauche" (segunda esquerda), liderada por Michel Roccard no seio do Partido Socialista Unificado (PSU), que depois confluiu para o Partido Socialista Francês, liderado por François Mitterrand.

Cumpre notar que a esquerda católica, uma das correntes mais dinâmicas dentro do PSU, era representada pelos herdeiros da Jovem República, a expressão política do movimento Le Sillon, fundado por Marc Sagnier (1873-1950) e condenado por São Pio X juntamente com o Modernismo. As heresias e suas versões políticas têm a pele dura!

Catolicismo — Mas isso não é remontar longe demais no tempo?

Sr. Jean Goyard — Nada de grande nasce de repente, diziam os latinos. Mas essa confluência entre católicos e neo-marxistas — o tal "compromisso histórico", que vinha sendo preparado de longa data — foi muito favorecida pela chamada Ostpolitik, ou seja, a política de abertura ao Leste (comunista) iniciada pelo chanceler alemão Willy Brandt e continuada, no plano religioso, pelo então Mons. Casaroli, mais tarde Cardeal e responsável pela diplomacia vaticana. Isso tudo convergia para uma hipotética "terceira via" entre comunismo e capitalismo, discernida pela esquerda católica precisamente na autogestão.

Catolicismo — Houve então uma espécie de renascimento do conceito de autogestão e uma certa efervescência intelectual em torno dele na década de 1970?

Sr. Jean Goyard — Justamente. Desde 1966 já existia na França uma revista científica e militante com o nome Autogestão, que desapareceu 20 anos mais tarde. Em 1976, um intelectual de esquerda, Pierre Ronsanvallon, chegou a escrever um livro exaltando o que ele chamava A era da autogestão. Por isso, ele deu tal título ao livro. Na mesma ocasião, Edmond Maire, secretário-geral do sindicato CFDT, assumindo ares de profeta, escreveu a obra Amanhã a autogestão. Nesse mesmo ano, no seio de prestigiosa plataforma parisiense de investigação na área das ciências humanas e sociais denominada Maison des Sciences de l'Homme (Casa das Ciências Humanas), criou-se o Centro Internacional de Coordenação de Pesquisas sobre a Autogestão.

Catolicismo — E como foi que o conceito de autogestão virou programa político?

Sr. Jean Goyard — O PSU foi um dos fundadores do Partido Socialista Francês e, com ele, infiltrou-se no PS aquilo que se tornou o centro do programa daquele partido, ou seja, a autogestão. Nasceram assim, em 1975, as Quinze teses sobre a autogestão, seguidas depois pelo Projeto Socialista para a França dos anos 80, aprovado num congresso do PS em janeiro de 1980 para servir de plataforma programática da candidatura de François Mitterrand à presidência da República. O Projeto Socialista era todo ele baseado na autogestão. E o Partido Comunista Francês pôs em surdina seu stalinismo centralizador aprovando um Programa Comum de governo baseado igualmente na autogestão. É claro que, com vistas a não assustar o eleitorado e conseguir a eleição de Mitterrand, esse programa autogestionário velava o radicalismo de seus objetivos na gradualidade de sua estratégia para atingi-los.

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