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Internacional

Documento episcopal choca e desconcerta os católicos franceses

Documento do Episcopado francês semeia confusão e o relativismo nas fileiras católicas e dá margem à exploração da mídia favorável ao uso do preservativo

J. C. Casté
Enviado especial

Paris -- As rajadas inclementes de vento e neve açoitavam a venerável fachada de Saint Sulpice. Protegendo-se da tempestade, Pierre, estudante no Institut Catholique de Paris, subiu apressadamente as escadas e entrou na antiga igreja, testemunha silenciosa de tanta história da Igreja na França.

- "Isto não pode ser, Padre! Os bispos ficaram loucos?! Como é possível a aprovação do preservativo?

- "Mas, você leu o documento?! Os bispos não declaram isso.

- "Contudo, acabo de ler no jornal e...

- "Pois aqui está o problema. Os bispos dizem uma coisa e a imprensa interpreta como quer. Fique tranqüilo. Nossos pastores apenas aplicaram o caso do "mal menor".

- "Digo-lhe francamente, isso não tem a clareza do "sim, sim, não, não" do Evangelho, e logo num tema dessa importância!.

O velho sacerdote, sacudindo a cabeça, tranqüilizou o jovem seminarista a duras penas, dizendo-lhe que era um escândalo da mídia, sem maior importância. Pierre despediu-se, para não chegar atrasado à aula da tarde, mas sua cabeça fervia com o problema: "Isto não está correto! As pessoas somente lerão o que diz a imprensa. Quantos são os que comprarão esse documento? E quantos são os que entenderão essa linguagem repleta de termos obscuros para o comum dos fiéis, na qual aparecem testemunhos e opiniões que vão desde o diretor da mesquita de Paris, até uma enfermeira, passando por un pastor protestante, um teólogo e um homossexual?"

* * *

Estimado leitor, não creia que se trate de um devaneio de quem escreve essa correspondência. É a pura realidade.

O recente documento da Comissão Social do Episcopado Francês, presidida por Dom Rouet, apresentado em entrevista à imprensa a 12 de fevereiro intitulado -- "AIDS: a sociedade em questão" -- produziu um verdadeiro choque e desconcerto nos fiéis católicos. Sem falar na grande algazarra da imprensa parisiense.

Em lugar de esclarecer os conceitos, o documento é confuso, ambíguo, e não apresenta uma visão sobrenatural dessa delicada questão. Além disso, algumas palavras e expressões não mereceriam figurar em um documento episcopal, mas sim em um informe médico.

"A sociedade em questão" é o produto não somente da opinião dos bispos, mas recorre a testemunhos de um homossexual, pais de aidéticos, uma enfermeira, um médico, um capelão protestante de hospital e um centro de amparo de aidéticos. Inclui igualmente as opiniões e experiências de "alguns movimentos de Igreja", entre os quais um centro de acolhida de prostitutas, os escoteiros da França, etc.

Para que nada lhe faltasse, esse documento "democrático" e pouco magisterial traz também as opiniões de Dalil Boubakeur, diretor da mesquita de Paris, do pastor protestante François Rochat, do Dr. Marc Gentilini, Presidente do Comite Católico de Médicos franceses, e de A. Badran, diretor geral adjunto da muito laica UNESCO. A fim de tranqüilizar o leitor católico traz também a opinião de Xavier Lacroix, teólogo, e, por fin, o documento propriamente oficial dos Bispos: "Diante da AIDS, relançar a esperança: Declaração da Comissão Social dos Bispos da França".

De um total de 235 páginas, o estudo dos prelados ocupa apenas 12.

O documento prima por uma linguagem impregnada de sociologia, de psicologia social, de um humanismo interconfessional e laico, pouco acessível ao comum das pessoas, habituadas a conformar-se com o que comentam os jornais, com o que vêem na televisão ou escutam nas rádios.

Lamentavelmente, engana-se quem pretenda encotrar nele um ensinamento baseado no Magistério da Igreja, pois no documento não há uma única referência às sábias palavras dos Papas. Engana-se também quem pretenda encontrar uma referência ao pecado individual, à forma pecaminosa como se transmite na maioria dos casos essa enfermidade. Não há uma única condenação ao pecado infame da homossexualidade, nem ao pecado vil do consumo de drogas. Pelo contrário, pede-se tolerância para com os homossexuais, os drogados e as prostitutas.

É verdade que para o pecador sempre estão abertas as portas da misericórdia e do perdão, mas para o pecado em si, não pode haver tolerância. Tal tem sido o que a Santa Igreja Católica sempre ensinou.

Tampouco encontramos nele uma referência ao importantíssimo papel da vida sobrenatural, da ação da graça na alma e do recurso aos sacramentos, à mediação onipotente de Maria Santíssima para vencer as más inclinações e abandonar o estado de pecado.

Sob o ponto de vista da fé e da moral católicas, trata-se de um documento verdadeiramente lamentável, que semeia nas fileiras católicas, a confusão, o caos e o relativismo moral.

Eis, a título de exemplo alguns trechos:

" Comprende-se o preservativo para os casos nos quais uma atividade sexual já integrada à personalidade se tem necessidade de evitar um risco grave."(p. 194)

"Quem encontra um aidético não deve perguntar como adquiriu a enfermidade, porque essa pergunta está geralmente muito carregada de juízos implícitos."(p. 24)

O documento reconhece que "mais de 80% dos casos de transmissão tem origem sexual", mas "a AIDS abre-nos a cada dia um pouco mais os olhos sobre os ambientes da toxicomania e da homossexualidade."(pp. 26 e 27)

"Se certas pessoas vivem por força ou por opção segundo critérios diversos dos nossos, o respeito devido a todo homem, a tolerância requer que não os condenemos em nome de nossa própria moral...(pag 35)

"O direito à moradia transforma-se, diante da enfermidade, em direito fundamental e inalienável de todo cidadão.... A doença, a morte do titular de uma moradia pode lançar à rua a companheira ou o companheiro igualmente enfermos" (p. 36)

"Dos mitos que permanecem com tenacidade em muitas mentalidades, o do "bom sofrimento" e o de um "Deus que castiga" têm sido mantidos pelos cristãos por muito tempo. É preciso dizer uma palavra, extraída das fontes dos Evangelhos, de um Deus que cura, que alivia e que salva, .... de um Deus que não julga, não condena, mas que liberta do mal e do pecado .... A resposta de Jesus é um chamado a não julgar e não buscar as causas do mal de que alguém é vítima. Os cristãos têm sido vistos geralmente, a propósito dessa epidemia, do lado daqueles que julgam... (Pag 51)

"A Igreja recebeu em depósito um Evangelho que é a Boa Nova anunciada a todos os homens começando pelos pobres. Agora, pobres é aquele que está atingido pelo AIDS. É também pobre, igualmente, a sociedade que não tem nada a propor senão premunir-se contra os riscos. Pobreza de saúde, de esperança e do sentido da vida. (p. 204)

"Como falar hoje, a respeito da AIDS, de maneira libertadora que ajude a construir o sentido da existência, que devolva a esperança e as forças aos enfermos, geralmente jovens? (p. 205)

"Façamos um chamado para exorcizar os temores, o sentimento difuso de um castigo. Façamos uma convocação para fazer tudo a fim de vencer o isolamento dos enfermos de AIDS, para manter sua esperança desgastada por hospitalizações repetidas, para sustentar a coragem e a devoção de todos os enfermeiros. (p. 210)

"Façamos um chamado à reflexão sobre o caráter humano da sexualidade e para prosseguir os esforços com vistas a uma educação afetiva e sexual que faça descobrir a beleza e a dignidade de toda relação humana.

"Façamos um chamado para acompanhar fraternalmente aqueles e aquelas cuja vida sexual e afetiva é para eles fonte de conflitos e de sofrimentos." (p. 211)

Enfim, paremos por aqui, a fim de não sobrecarregar as citações. As que foram transcritas são suficientes para dar uma idéia da confusão que este documento cria, para somente dizer confusão.

À falta de clareza da mensagem episcopal francesa soma-se o alarido da mídia a favor das posições mais extremas e permissivas.

Os limites deste artigo impedem fazer uma análise mais extensa, mas vejamos algumas manchetes da imprensa de Paris, a fim de termos uma idéia do bombardeio jornalístico que caiu sobre as almas dos católicos franceses:

"Le Monde": "Os bispos franceses julgam necessário o uso do preservativo contra a AIDS"

"Liberation": "França: o preservativo não está mais no Index"

"Le Canard Enchainée": "Terminou o dogma do preservativo"

"Le Figaro": "AIDS: os bispos levantam um tabu"

Dom Gaillot, bispo da diocese de Evreux, suspenso pelo Vaticano, comentou que com este documento os bispos da França "davam um passo em direção a Cristo".

É de todos conhecido o espírito crítico dos franceses, do qual fazem largo uso. Esse espírito fez-se presente em abundância nas cartas de leitores aos jornais, censurando a posição de seus pastores. A tal ponto foi a expressão de mal-estar dos fiéis, que o próprio Dom Rouet viu-se obrigado a dar algumas explicações, tentando demonstrar que o documento episcopal não estava em contradição com o que sempre havia ensinado a Igreja.

Muitos esperam agora uma palavra de Roma.

"Roma locuta causa finita". Far-se-á ouvir sua voz nesses dias de terrível confusão?

O futuro dirá... 

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