Outubro de 2001
Plinio Corrêa de Oliveira: um resumo biográfico
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Da. Lucilia e Dr. João Paulo, pais de Dr. Plinio

Plinio Corrêa de Oliveira: um resumo biográfico

Eloi de Magalhães Taveiro

Em face de um mundo revolucionário, igualitário e ateu, um varão católico, todo apostólico, plenamente romano

Por ocasião do sexto aniversário do falecimento do querido e saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995), inspirador e principal colaborador desta revista, nascido em 13 de dezembro de 1908, oferecemos a nossos leitores uma matéria inédita.

Na década de 70, um amigo do Exterior solicitou à TFP brasileira uma biografia de Dr. Plinio. A redação coube a Eloi de Magalhães Taveiro, que apresentou um texto sintético, mas bastante denso, fidedigno e objetivo. Por razões circunstanciais não foi ele publicado, tanto no Exterior quanto no Brasil, constituindo, pois, matéria inteiramente inédita.

Embora a biografia — da qual reproduzimos aqui substanciosos excertos — se encerre na primeira metade da década de 70, constitui ela valioso documentário, pois expõe com felicidade e graça o ambiente em que se formou, desde tenra infância, Plinio Corrêa de Oliveira. E revela também, com muita autenticidade, lances marcantes da luta empreendida pelo insigne líder católico em defesa da Igreja e da Civilização Cristã.

Por parte de pai — o advogado João Paulo Corrêa de Oliveira — o Prof. Plinio pertencia a uma família da aristocracia pernambucana, de senhores de engenho. E a família de sua mãe, Dona Lucília Ribeiro dos Santos, era integrante da aristocracia paulista. Assim, sua ascendência consistia na feliz conjugação de duas aristocracias que desempenharam papel relevante na história do Brasil: a aristocracia do açúcar e a do café. Essa ilustre ascendência, como é natural, constituiu ponderável fator na formação da personalidade e no modo de ser do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. Para se compreender esse modo de ser, é oportuno lembrar como o Prof. Plinio definiu o estilo de viver, de agir e de lutar da TFP: “No idealismo, ardor; no trato, cortesia; na ação, devotamento sem limites ao ideal; na presença do adversário, circunspecção; na luta, altaneria e coragem. E pela coragem, vitória!”

Ora, tal estilo, tão sapiencialmente enunciado — que se transformou em norma básica da TFP — foi antes de tudo plenamente vivido por seu assinalado fundador. É o que ressalta do texto de Magalhães Taveiro. Estamos certos de que o conhecimento deste resumo biográfico será de grande proveito para nossos leitores. E que os aspectos da vida do Cruzado do Século XX, nele descritos, constituirão objeto de edificação para todos.

A divisão em três partes, o subtítulo geral e os intertítulos são desta Redação.

Plinio possuía uma atração bem definida e fora do comum pelo maravilhoso e o sublime, transmitida pela tradição

Parte I

O processo mental e social de formação de um líder contra-revolucionário

A família [Ribeiro dos Santos] de sua mãe, Dona Lucilia, em cujo meio Plinio viveu, era uma seleção de pessoas as mais conservadoras e tradicionais das famílias de São Paulo. Por sua vez, Dona Lucilia era um dos membros mais conservadores de sua família.

Espírito sério, inclinado para a observação e inspirado por ­convicções religiosas profundas, Dona Luci­lia, mãe extremamente dedicada, orientou o espírito de seus filhos numa direção similar. Assim, já antes de eles sabe­rem como dizer “mamãe” ou “papai”, eram ensinados a re­conhecer uma imagem do Sagrado Coração de Jesus.

Juntamente com suas tendências religiosas, Plinio possuía uma atração bem definida e fora do comum pelo maravilhoso e o sublime, transmiti­da pela tradição. Mesmo antes de poder ler ex­ten­samente livros tratando de matéria doutrinária, Plinio tinha vivo interesse pelos assuntos religiosos, políticos e sociais. Entretanto, sua mente não concebia essas idéias como escondidas em livros poeirentos e embolorados, mas sim inseridas na realidade da vida humana. Para Plinio, o contexto social animava as idéias, as quais, por sua vez, ­agiam nas diferentes mentalidades.

Oposição decidida contra os “espíritos fortes” que blasonavam seu ateísmo

Embora as tendências de alma de Plinio correspondessem favoravelmente à tradição e ao ambiente que teve em casa desde sua mais tenra idade, a questão que se põe é: essas inclinações são o resultado, ou não, de uma aceitação passiva dos valores do establishment por um menino sem personalidade, discernimento ou capacidade de auto-afirmação? Os fatos dissipam completamente essa questão.

Plinio era muito precoce. Ele pronunciou as primeiras palavras aos seis meses, e estava falando francês e alemão aos quatro anos. Sua personalidade mostrava as características típicas do povo de Pernambuco e São Paulo: era surpreendentemente lógico numa tenra idade, e demonstrou cedo afeição para o debate de idéias e a oratória.

O ambiente na casa de Dona Lucilia, como em outras casas em São Paulo, permaneceu ideologicamente dividido devido à controvérsia sobre o futuro político do Brasil. Con­tra os católicos, os “espíritos fortes” orgulhosamente ostentavam seu ateísmo; e, como entusiastas republicanos com decisivas tendências socialistas, criticavam os monarquistas. Os “espíritos fortes” e os adeptos republicanos sempre apareciam nas conversas no papel de vitoriosos profetas do futuro, enquanto os tradicionalistas pareciam confusos e na defensiva. Como Dona Lucilia não participava dos debates político-ideológicos da família, é certo dizer que o ambiente da casa de Plinio lhe oferecia um sério convite a tomar uma posição ideológica contrária às suas inclinações. Ele entretanto se recusou, escolhendo defender a tradição.

No período de 1918 a 1928, começou a estudar História seriamente, em particular a da França - Aguardando a Carruagem - Salvador Sanchez

O fim da “belle époque” e o processo de mudanças denominado “democratização”

Depois da I Guerra Mundial, todos os países passaram por um período de rápidas mudanças, particularmente agudas durante a década de 1918 a 1928. A ascensão do comunismo na Rússia e a onda de agitações que se espalhou pela Europa Central foram sentidas também em São Paulo, onde as lutas de rua e agitações de classe eram com freqüência muito violentas.

Gradualmente, o tônus da vida social e cultural de São Paulo se foi transformando, e muito do esplendor e brilho que caracterizavam a belle époque da metrópole do café começou a dissipar-se. Esta mudança foi denominada “democratização” *.

A crescente mecanização da vida favoreceu esse processo. Naquele tempo, São Paulo estava começando um vertiginoso crescimento industrial que transformaria a pequena, rural e aristocrática cidade dos anos vinte no maior centro industrial da América do Sul, com mais de oito milhões de habitantes atualmente [década de 70].

O lançamento do movimento feminista, a promoção de modas masculinas para mulheres e a introdução das mais espontâneas maneiras “esportivas” começaram a criar um “mundo novo”, cada vez mais avesso às tendências de Plinio. O prestígio das primeiras auto-estradas, das primeiras estações de rádio e das primeiras comunicações aéreas se somava ao enorme prestígio do cinema. Filmes de Hollywood fascinavam literalmente as multidões e apresentavam as transformações do após-guerra como fato consumado. A euforia da paz, prosperidade e progresso deixou praticamente todas as almas — de um público ingênuo e sem vigilância — vulneráveis ao insidioso processo de “democratização”, ignorando os graves problemas que ele trouxe e os amargos frutos que o século XX está começando a experimentar.

Aos 10 anos, Plinio já observava os acontecimentos que estavam começando a transformar São Paulo, e enquanto ele se tornava mais maduro, sua rejeição à tendência de “democratização” se aprofundava. Adquiriu o costume de se engajar em polêmicas, inicialmente contra os “espíritos fortes” nas reuniões de família, e sobretudo começou a desenvolver o hábito de reflexão, com o propósito de analisar o significado dos acontecimentos que se passavam em torno dele.

Quanto mais a vida se transformava, mais Plinio tornava-se persuadido de que certas coisas não deveriam nunca mudar, e que outras deveriam mudar numa direção diametralmente oposta à da tendência do tempo. Em resumo, a rejeição de Plinio ao processo de “democratização” começou a cristalizar-se numa consciente resistência, linha de conduta que ele deveria manter durante a vida.

Nota da Redação — A expressão “democratização”, neste resumo biográfico, não se refere necessariamente ao regime político democrático, mas sim a um conjunto de hábitos, costumes e modos de ser que foram se espalhando no Ocidente após a Primeira Guerra Mundial, sobretudo a partir da influência do cinema norte-americano. A respeito do regime político conhecido como “democracia”, a posição da TFP foi lapidarmente expressa por Plinio Corrêa de Oliveira: “Extrapartidária por definição, a TFP não opta por formas de governo. Ela aceita o ensinamento de Leão XIII, confirmado por São Pio X, de que nenhuma das três formas de governo — monarquia, aristocracia ou democracia — é intrinsecamente injusta” (“Projeto de Constituição Angustia o País”, Vera Cruz, 1987, pág. 20).

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