Novembro de 2001
Posição da Igreja em relação ao suicida -- O purgatório termina com o Juízo Final?
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A Palavra do Sacerdote
Cônego José Luiz Villac

A Palavra do Sacerdote

Pergunta

Sr. Cônego, lendo sua secção no n. 608 [de Catolicismo], fiquei sabendo que em geral o homem não consegue pagar nesta Terra sua penitência, tendo que completá-la no Purgatório. Mas o que acontecerá conosco no dia do Juízo Final, quando o Purgatório provavelmente deixará de existir?

Resposta

Quando chegar o dia do Juízo Final, todas as almas que estão no Purgatório deverão estar com as suas “contas pagas”, a fim de apresentar-se purificadas diante do Senhor. Como ajustar a cronologia desses eventos, sendo que certamente haverá então pessoas recentemente falecidas, que possivelmente não terão tido “tempo” de “pagar as suas contas”? — Essa a pergunta do leitor, a qual parte do pressuposto de que o tempo nesta Terra e o do Purgatório correm paralelamente.

Na realidade, antes do ato criador de Deus não existia o tempo, como também não existia o espaço. É um erro imaginar que antes da Criação havia um enorme espaço vazio, que Deus preencheu colocando nele as coisas criadas. O tempo, bem como o espaço, são noções ligadas ao universo material: como explica a sã filosofia, e os cientistas modernos admitem, o tempo e o espaço começaram a existir no “instante zero” da Criação, isto é, no momento em que Deus pronunciou o seu fiat!

Assim, tempo e espaço prosseguirão até que o mundo acabe, quando então se realizará o Juízo Final.

Quando alguém morre, seu corpo é sepultado e sua alma vai para o Purgatório (se morreu na graça de Deus), onde passa por um processo purificador que se realiza fora do “tempo” como o concebemos aqui na Terra. Esta purificação final dos eleitos é absolutamente distinta do castigo aplicado aos condenados ao inferno. Com base em certos textos da Sagrada Escritura (por exemplo, I Cor 3, 15; I Pt 1, 7), a Tradição da Igreja explica que as almas do Purgatório sofrem o efeito de um fogo purificador, “até que lhes seja franqueado o acesso da Pátria celestial, onde nada de impuro pode entrar” (Catecismo Romano, Parte I, cap. VI, 3). As almas assim purificadas são pois levadas imediatamente para o Céu, de onde voltarão à Terra para reunirem-se aos seus corpos e terem suas sentenças de salvação confirmadas no Juízo Final.

Esse processo de purificação das almas é sem dúvida misterioso, tanto mais para nós que temos dificuldade em conceber algo sem as noções de espaço, tempo e matéria; de onde também termos dificuldade em compreender esse “fogo purificador”, que não é material e atua sobre as almas, que são espirituais!

De qualquer modo, é certo o que o leitor diz: no dia do Juízo final o Purgatório não terá mais razão de existir.



Juízo Universal (detalhe) - Fran Angélico (séc. XV), Museu de São Marcos, Florença (Itália. Por ocasião do Juízo Final, todas as almas que estiverem no Purgatório deverão já ter expiado suas penas e apresentar-se-ão purificadas diante de Deus.

Pergunta

Em minha família tivemos um ente querido que cometeu suicídio, era irmão de minha esposa, e no seu velório o Padre se recusou a rezar por sua alma. Eu e minha família ficamos extremamente chocados. Gostaria de saber se o senhor poderia me explicar a atitude do Padre. Se foi uma atitude isolada ou se é sempre assim. Podemos mandar rezar Missas em intenção da alma de meu cunhado?

Resposta

Nada justifica o suicídio porque, por mais árduas que sejam as condições de existência de uma pessoa, o homem foi feito para enfrentar durante a vida situações adversas, às vezes duríssimas. E Deus nunca recusa ao homem os auxílios de que precisa para cumprir seus deveres familiares, profissionais e sociais e para superar todas as provações. Auxílios esses que alcançamos de Deus muito especialmente através da oração: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa a meu Pai em meu nome, Ele vo-la dará”, disse Nosso Senhor Jesus Cristo (Jo 16, 23). “Tudo que pedirdes, com fé, na oração, o recebereis” (Mt 21, 22). O desespero do suicida é uma negação pecaminosa da misericordiosa paternidade de Deus e da promessa infalível de Jesus Cristo.

O suicídio é um pecado escandaloso, que atenta contra os direitos de Deus, supremo e único Senhor da vida e da morte. É um pecado que agride brutalmente o convívio familiar e social, privando os familiares e os amigos da presença de um ente querido, e muitas vezes de um sustentáculo material, afetivo e espiritual. É um pecado gravíssimo que precipita a alma diretamente no inferno.

Por esta razão, as leis da Santa Igreja (cânones 1184/5) vedam conceder exéquias eclesiásticas aos “pecadores manifestos” — como é o caso dos suicidas — “a não ser que antes da morte tivessem dado algum sinal de arrependimento”.

O ítem 3º do cânon 1184 introduz a precisão de que a privação das exéquias elcesiásticas deve ser aplicada aos “pecadores manifestos, aos quais não se possam conceder exéquias eclesiásticas sem escândalo público dos fiéis”

O sacerdote, ao recusar-se a rezar pela alma da pessoa que cometeu o suicídio, presumivelmente examinou a situação concreta para, conforme diz o ítem acima referido, evitar o “escândalo público dos fiéis”. Compreende-se, pois, a atitude assumida por ele.

Convém ainda acrescentar que não basta a mera suposição de que talvez, nos últimos instantes (entre o ato suicida e a morte efetiva), pela infinita misericórdia de Deus, ter-se-á arrependido de seu ato tresloucado e obtido o perdão. É preciso que haja algum testemunho fidedigno de que o suicida, antes de expirar, tenha por exemplo beijado devotamente um crucifixo ou alguma imagem ou objeto piedoso, tenha batido no peito dando mostras de arrependimento de seu pecado, tenha pedido que lhe levassem um sacerdote, ainda que este não tivesse chegado a tempo etc. Sem estes sinais, o sacerdote não pode dar-lhe “sepultura eclesiástica”, ou seja, rezar publicamente pelo defunto, encomendar-lhe a alma, benzer sua sepultura etc., nem celebrar as Missas de exéquias.

De qualquer modo, como resta a possibilidade de Deus ter concedido in extremis ao suicida a graça do perfeito arrependimento, sem que ele o tenha podido manifestar publicamente, é permitido rezar privadamente pelo defunto, e mesmo encomendar Missas em sua intenção, desde que estas sejam celebradas privadamente e assistidas só pelos familiares e amigos mais íntimos, sem comunicar ao ato nenhum caráter social (como anúncios em jornal, por exemplo).

Infelizmente, essas sábias e razoáveis disposições eclesiásticas, que antigamente eram bem conhecidas dos ­fiéis, hoje não mais o são, o que explica que o consulente e sua família tenham ficado extremamente chocados com a atitude do sacerdote. Em vista disso, teria sido conveniente, talvez, que ele desse uma explicação à família.

A triste realidade de nossos dias é que vivemos numa sociedade que se distanciou de Deus.Noções como a da extrema seriedade da vida, na qual devemos, pela honestidade de nossos atos, ganhar o Céu, e portanto evitar qualquer transgressão dos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, não fazem mais parte das cogitações habituais de um número enorme de nossos contemporâneos. Restam apenas alguns fiapos de tradições cristãs, como a de rezar pelos defuntos no velório, chamar um Padre para que encomende a sua alma etc.

E ainda é forçoso reconhecer que mesmo esses fiapos estão desaparecendo. Contudo, a reação do consulente e de sua família, de ficarem chocados com a recusa do sacerdote de rezar publicamente pelo suicida, compreende-se em função do desejo de obter para ele a salvação. Que eles rezem, pois, pelo seu ente querido, pois Deus, em sua infinita misericórdia, na previsão dessas orações, pode ter dado ao defunto a graça do arrependimento in extremis. Até lá pode chegar a misericórdia divina!


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