Janeiro de 2012
Qual a posição em que devemos receber o Corpo de Cristo?
A Palavra do Sacerdote

Monsenhor JOSÉ LUIZ VILLAC

Pergunta — Qual a posição em que devemos receber o Corpo de Cristo? Ajoelhados ou de pé? E, depois da comunhão, ficamos ajoelhados ou sentados em agradecimento?

Resposta — Por ocasião do Concílio Vaticano II (1962-1965) e depois dele, os espíritos se agitaram a tal ponto que as concepções mais insólitas foram colocadas em circulação. Uma delas dizia que os cristãos de nossos dias ultrapassaram as fases da infância e da adolescência e que hoje são cristãos adultos. E que era chegado o momento de dar um passo avante. A Igreja constantiniana — assim chamada porque nasceu com o fim das perseguições dos imperadores romanos e a conquista da liberdade decretada pelo imperador Constantino no Édito de Milão, no ano de 313 — correspondia às fases de infância e adolescência do cristianismo. Comentava-se que o Concílio Vaticano II deveria, pois, criar as instituições, doutrinas e ritos próprios para a fase adulta da Igreja a que se chegara.

No que concerne à liturgia da Missa, dizia-se que os leigos deveriam ter uma participação ativa e exercer funções antes realizadas exclusivamente pelo sacerdote oficiante. Assim, algumas leituras e orações deveriam ser confiadas aos assistentes, tanto homens como mulheres, em particular a leitura da Epístola. Mesmo o sermão não havia por que não ser pronunciado por leigos e até leigas (sugestão que abriria caminho para a posterior reivindicação do sacerdócio das mulheres).

Primeira Comunhão – Blanchard (sem data). Museu da Civilização, Quebec, Canadá.

No que se refere à recepção da comunhão, preconizava-se que deveria ser recebida na palma da mão, e não na boca. A Sagrada Eucaristia constitui nosso alimento espiritual, e um adulto se alimenta por si mesmo, não precisa que se lhe ponha na boca, como se faz às criancinhas.

E para indicar que se atingiu a maturidade, é melhor estar de pé do que ajoelhado, ao receber a comunhão. Estar ajoelhado significaria manifestação de inferioridade em relação a outrem, o que não convém a fiéis adultos, co-participantes com o sacerdote no mistério eucarístico que está sendo celebrado.

Com estas medidas, resgatar-se-ia a maturidade dos fiéis e, ademais, se romperia aquela (presumida) passividade dos assistentes durante as Missas do período constantiniano. Na mesma ordem de idéias, o altar deveria estar voltado para o povo fiel, para que ficasse mais evidente sua co-participação no ato “presidido” pelo sacerdote.

A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II

Conforme noticiou Catolicismo (março/2011, n° 723), trava-se presentemente na Igreja uma viva discussão acerca do grau de assentimento devido aos documentos do Concílio Vaticano II. Um dos pontos dessa discussão envolve a reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio, promulgada sob a égide de Paulo VI. Referimo-nos a ela apenas para enquadrar melhor a pergunta do missivista.

Tal como foi aplicada, a reforma litúrgica conduziu a muitos abusos que obrigaram os papas sucessivos a intervir diversas vezes para coibi-los. Assim, a Instrução Redemptionis Sacramentum, da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicada por indicação de João Paulo II em 25 de março de 2004 e assinada pelo Cardeal Francis Arinze, prefeito da dita Congregação, depois de tratar da reforma litúrgica, acrescenta: “Certamente ‘não faltam sombras’ (cfr. João Paulo II, Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia, de 17-4-2003, n° 10)”. E prossegue: “Assim, não podem ser silenciados os abusos, inclusive gravíssimos, contra a natureza da Liturgia e dos sacramentos, bem como contra a tradição e a autoridade da Igreja, que, em nossos tempos, neste ou naquele ambiente eclesial, não raramente prejudicam as celebrações litúrgicas. Em alguns lugares, a prática de abusos em matéria litúrgica se converteu em costume, o que evidentemente não se pode admitir e deve cessar (doc. cit., n° 4).

Prefaciando o livro de Mons. Klaus Gamber sobre a reforma litúrgica, o então Cardeal Ratzinger (hoje Bento XVI), usa palavras ainda mais incisivas: “Na sua realização concreta, [a reforma litúrgica] não foi uma reanimação, mas uma devastação” (cfr. Klaus Gamber, La réforme liturgique en question, Éditions Sainte Madeleine, Le Barroux, 1992, p. 6).

Confirmados por essas afirmações, é compreensível que muitos fiéis manifestem sua estranheza diante de certas novidades introduzidas nos ritos católicos, como, por exemplo, sobre a maneira de comungar.

Tradição: comunhão na boca e de joelhos

Uma das novidades foi a que motivou as perguntas da missivista: deve-se comungar de pé ou de joelhos? A ação de graças deve-se fazer de joelhos ou sentado? Era uma pergunta que não se punha antes da reforma litúrgica conciliar.

Resolvamos antes uma questão que a leitora não pôs, mas que aflige a muitos: comunhão na mão ou na boca? — O modo tradicional é recebê-la na boca, porque a ninguém ocorria pensar que estava sendo tratado como criança fazendo-o assim. Ainda hoje, embora permitindo que se receba na mão, a Congregação para o Culto Divino não deixa de advertir para diversos perigos que daí decorrem. Assim, no n° 92 da citada instrução Redemptionis Sacramentum, se adverte: “Todo fiel tenha sempre o direito de receber a sagrada Comunhão, segundo seu desejo, na boca ou, se quiser, na mão [...] e dessa maneira lhe seja administrada a sagrada comunhão. Contudo, tenha-se especial cuidado que o comungante consuma imediatamente a hóstia diante do ministro, e ninguém se retire levando na mão as espécies eucarísticas. Se existe perigo de profanação, não se distribua aos fiéis a Comunhão na mão”.

A forma tradicional é na boca, e não na mão, segundo já registrava Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica: “Por reverência a este sacramento, nada pode tocá-lo a não ser que esteja consagrado: daí que o corporal e o cálice são consagrados, bem como as mãos do sacerdote, para tocar neste sacramento” (parte III, questão 82, artigo 3, terceira resposta).

Quanto a se ajoelhar, este é um ato por excelência de adoração, indispensável no momento da Comunhão. Assim escreve Bento XVI na exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, de 22 de fevereiro de 2007 (n° 66): “Um dos momentos mais intensos do Sínodo vivemo-lo quando fomos à Basílica de São Pedro, juntamente com muitos fiéis, fazer adoração eucarística. Com aquele momento de oração, quis a assembléia dos bispos não se limitar às palavras na sua chamada de atenção para a importância da relação intrínseca entre a celebração eucarística e a adoração. Neste significativo aspecto da fé da Igreja, encontra-se um dos elementos decisivos do caminho eclesial que se realizou após a renovação litúrgica querida pelo Concílio Vaticano II. Quando a reforma dava os primeiros passos, aconteceu às vezes não se perceber com suficiente clareza a relação intrínseca entre a Santa Missa e a adoração do Santíssimo Sacramento; uma objeção então em voga, por exemplo, partia da ideia que o pão eucarístico nos fora dado não para ser contemplado, mas comido. Ora, tal contraposição, vista à luz da experiência de oração da Igreja, aparece realmente destituída de qualquer fundamento; já Santo Agostinho dissera: ‘Nemo autem illam carnem manducat, nisi prius adoraverit; [...] peccemus non adorando — ninguém come esta carne, sem antes a adorar; [...] pecaríamos se não a adorássemos’ (Enarrationes in Psalmos 98, 9)”.

É digno de nota que, segundo consta, o atual Pontífice Bento XVI, a partir da solenidade do Corpo de Cristo de 2008, somente distribui a Comunhão diretamente na língua e estando os fiéis ajoelhados. Assim, é notória a tendência da autoridade suprema de retornar à forma tradicional.

E pela mesma razão de reverência e adoração ao Santíssimo Sacramento deve-se fazer a ação de graças também de joelhos, a menos que incômodos de doença ou outra debilidade física momentânea não o permita.

É o que vivamente recomendamos à distinta consulente.