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Entrevista

Catolicismo — Muitas pessoas creem que o diálogo inter-religioso é um substitutivo da evangelização. O que V. Reverência acha disso?

Pe. Guy Pagès — Um cristão não pode renunciar a afirmar que conhece a Verdade (2 Co 11.10), sem o que ele renegaria o próprio Jesus Cristo que disse: “Eu sou A Verdade” (Jo 10.6). E só A Verdade, que se deve conhecer e proclamar, nos libertará (Jo 8.32). Tal situação é que leva São Paulo suspirar: “Mas como acreditarão n’Aquele sobre quem eles não ouviram falar?”. E acrescentava, pensando em nós: “E como ouvirão falar dele se não há ninguém que pregue?” (Rom 10. 14). A interrogação de São Paulo — “E como pregar sem antes ser enviado?” — não deve servir a ninguém de pretexto para não se sentir concernido, pois “os fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja, têm a vocação e a missão de anunciar o Evangelho: para esta atividade eles estão habilitados e engajados pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo” (João Paulo II, Christifideles laici, no. 33). “Evangelizar é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade” (Paulo VI, Evangelii nuntiandi, n°14).

Contrariamente ao que promove o espírito do mundialismo e da Nova Era, um cristão não pode aceitar situar-se num imaginário ponto Omega que transcenderia todas as confissões religiosas. Ele renegaria o Absoluto, que é unicamente Jesus de Nazaré, em comunhão com o seu Pai e o Espírito Santo. Um cristão não pode tampouco aceitar como base de diálogo com os muçulmanos o fato de que eles compartilhariam uma mesma afirmação monoteísta (o monoteísmo cristão se identifica com o dogma trinitário combatido obsessivamente pelo islã), ou que as suas religiões seriam religiões do Livro (o cristianismo não se define em relação a um livro, mas a uma Pessoa, Cristo Jesus), ou da Lei (o cristão não se salva pela sua obediência à Lei, mas ao Espírito de Deus), ou que eles tivessem um parentesco comum em Abraão (o cristão não tira a sua existência da carne e do sangue, cfr. Jo 1.13; 8.39).

Sabendo que não há senão uma única Igreja de Cristo, "que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica" (Catecismo da Igreja Católica, n° 811), é contraditório e suicida para um cristão honrar o Islã como religião, em vez de denunciá-lo aberta e largamente como uma impostura característica do Anticristo (1 Jo 2.22-23 ; Ap 20.7-8).

Catolicismo — Por que os países muçulmanos não concedem aos cristãos os mesmos direitos que seus seguidores gozam aqui no Ocidente?

Pe. Guy Pagès — Porque a confrontação com a razão, solicitada pela teologia cristã (é um pleonasmo), levaria o Islã a se questionar. Esta recusa da confrontação com a verdade está escondida, bem entendido, sob o pretexto de preservar os muçulmanos do perigo de apostasia pelo contacto com os infiéis, e a fortiori com os cristãos, culpados do único pecado irremissível: a fé na Trindade (Alcorão, 4.48).

Catolicismo — Fala-se dos frutos da civilização islâmica ao longo da História. São assim tão brilhantes?

Pe. Guy Pagès — Toda a glória que a civilização muçulmana pode ter tido, ela a deve aos povos islamizados que conseguiram salvaguardar de suas culturas anteriores suficiente gênio próprio para fazê-lo frutificar, não “graças ao”, mas “apesar do” Islã. O amálgama entre o Islã e essas civilizações foi facilitado pela imposição da língua árabe. A imposição desta impediu pouco a pouco os povos islamizados de aceder às suas culturas próprias, e os conduziu à estagnação característica dos povos islamizados. O que aconteceu com as brilhantes civilizações do Egito, de Bizâncio, de Cartago ou da Pérsia uma vez conquistadas pelo Islã, para que se possa creditar a este qualquer valor civilizatório?

Ibrahim al-Buleihi: "Olhai em torno de vós [...] Percebereis que tudo quanto é belo em nossas vidas procede da civilização ocidental."

“No Brasil, eu sei que a frouxidão, as seitas protestantes, e até mesmo o Islã, ganham terreno. É uma grande tristeza e motivo de grande inquietude”

Aos que julgam de bom tom criticar a civilização cristã, nada de mais eloquente do que a seguinte constatação feita por um escritor muçulmano, o saudita Ibrahim al-Buleihi, publicada no quotidiano saudita “Okaz” em 29 de abril de 2009: “Olhai em torno de vós [...] Percebereis que tudo quanto é belo em nossas vidas procede da civilização ocidental. [...] Como nenhuma outra civilização anterior, ela trouxe o conhecimento, o savoir-faire, novas descobertas. As realizações da civilização ocidental cobrem todos os domínios: a gestão, a política, a ética, a economia e os direitos humanos. [...] Passando em revista os nomes dos filósofos e sábios muçulmanos tais como Ibn Rushd, Ibn al-Haythan, Ibn Sina, Al-Farbi, Al-Razo, Al-Khwarizmi e semelhantes, cuja contribuição ao Ocidente é reconhecida por escritores ocidentais, descobrimos que eram todos discípulos da cultura grega e que se mantinham à margem da corrente [islâmica] dominante. Eles eram e continuam sendo ignorados por nossa cultura. Nós chegamos a queimar seus livros, a persegui-los, colocamos a população em alerta contra eles, e continuamos a considerá-los com suspeita e aversão. Como podemos nos orgulhar de pessoas que afastamos e cujo pensamento rejeitamos?”.

Catolicismo — V. Reverência já recebeu ameaças de morte por suas denúncias?

Pe. Guy Pagès — Sim, eu recebi ameaças de morte. Fui comunicá-las à polícia, que só depois de muita dificuldade aceitou, assegurando-me, no entanto, que a mesma não serviria para nada, ante a impossibilidade em que ela encontra de levar adiante todas as reclamações, de tal modo são numerosas...

Catolicismo — Em um vídeo, V. Reverência diz que “ser cristão é ser mártir”. Não teme que seja pedir demais aos cristãos de hoje?

Pe. Guy Pagès — Eu não penso que Nosso Senhor tenha alguma vez dito que as exigências do Evangelho (Lc 14.26-27) um dia deveriam ser atenuadas, mas antes, sabemos que Ele duvidou encontrar ainda fé no dia de seu retorno (Lc 18.8)... Certamente, a perda da fé que Ele entreviu está justamente ligada ao fato de não se ter visto que vale a pena tudo sofrer e morrer para guardá-la, de tal modo ela é preciosa, pois nos dá acesso à vida eterna. “A obra de Deus consiste em que creiais n’Aquele que Deus enviou” (Jo 6.29); “Sem a fé, é impossível agradar a Deus” (He 11.6).

Catolicismo — Como V. Reverência considera o futuro da Igreja e do mundo? Como o fiel católico deve enfrentar esse porvir?

Pe. Guy Pagès — No tempo das invasões bárbaras foram os mosteiros que guardaram os tesouros da vida cristã e os transmitiram às gerações futuras com todos os tesouros da cultura antiga desenvolvidos por eles. De igual modo, em nossa época cada vez mais alheia à vida da fé — vida de fé muito frequentemente ausente até entre os próprios sacerdotes, ai! —, a solução parece efetivamente estar na reunião de fiéis fervorosos, inteiramente entregues a Deus e à Igreja. Creio que os tempos vindouros não permitirão mais a tibieza. Será preciso ser santo ou demônio. Livre e abertamente.

Catolicismo — Gostaria de dirigir uma mensagem especial aos leitores de Catolicismo?

Pe. Guy Pagès — O Brasil é o maior país católico pelo número de fiéis. É uma grande responsabilidade, pois implica também uma grande força, da qual muitos fiéis no mundo têm necessidade... Entretanto, eu sei que a frouxidão, as seitas protestantes, e até mesmo o Islã, ganham terreno no Brasil. É uma grande tristeza e motivo de grande inquietude. Assim, não posso senão recomendar aos irmãos e irmãs do Brasil que fortifiquem sua fé através da leitura, do estudo, da oração e numa vida de amor e de serviço ao próximo, sobretudo aos nossos irmãos católicos (Gal. 6.10). Assim, ela dará seu fruto que é a salvação eterna.

Aproveito a ocasião para propor a um leitor de Catolicismo que participe de meu apostolado colocando subtítulos em português em meus vídeos no site http://www.youtube.com/AbbePagesWorldwide

Viva Cristo Rei!

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Nota:
Os vídeos do Padre Pagès podem ser vistos nos seguintes endereços eletrônicos:
http://www.youtube.com/abbepages
http://videos.islam-et-verite.com/
http://www.youtube.com/AbbePagesWorldwide

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