Fevereiro de 2005
Deus é bom e onipotente. Por que não evitou essa catástrofe (do Tsunami)?
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A Palavra do Sacerdote

Cônego José Luiz Villac
Pergunta
— Os últimos dias do ano de 2004 foram assinalados pela monumental catástrofe dos tsunamis no Oceano Índico. Além da natural comiseração pelas vítimas e o amplíssimo movimento internacional de solidariedade (em nenhum momento ouvi o termo “caridade cristã”...) para ajudá-las, a tragédia suscitou algumas questões teológicas para as quais não li nem ouvi explicações convincentes. Gostaria de apresentá-las ao Cônego José Luiz Villac, para obter dele respostas mais satisfatórias:

a) Vários comentaristas mencionaram o falso dilema, atribuído a Epicuro, segundo o qual, se Deus é bom e onipotente, por que não evitou essa catástrofe? Se não pôde evitá-la, não é onipotente; se não quis evitá-la, não é benevolente. A conclusão é que Deus não existe, ou pelo menos não tem as perfeições que os homens lhe atribuem.

b) A Terra é a moradia dos homens. Catástrofes de toda ordem acontecem a todo momento em várias partes do mundo. Mais uma vez, se Deus é bom e onipotente, por que não tornou a Terra um lugar mais seguro para os homens viverem, sem esses contínuos sobressaltos que freqüentemente atingem vítimas inocentes, com milhares de crianças mortas, como ocorreu agora?

c) Segundo outros, não há por que pôr Deus no meio dessas catástrofes. Mesmo admitindo-se que Ele exista, Ele criou o mundo tal como é: e na natureza ocorrem normalmente esses tipos de desastres, razão pela qual se chamam precisamente “desastres naturais”. O homem deve se acomodar às coisas como são: ele que se aplique em adquirir os conhecimentos científicos necessários para dominar a natureza, naquilo em que ela for dominável; e no que for superior à capacidade humana, conformar-se, pois tal é a condição de inferioridade do homem ante as forças cegas da natureza.

Resposta — As duas primeiras perguntas parecem mais impressionantes que a terceira, pois à primeira vista colocam diretamente em cheque nossa crença em Deus. Entretanto, esta última é mais cavilosa, porque afasta Deus do problema mais do que as duas primeiras. Comecemos por ela.   

Como resultado da educação dita “científica” que comumente recebemos nas escolas, fomos formados na concepção de que ciência e fé são campos separados que nada têm a ver um com o outro. E que, portanto, Deus tomou distância do mundo depois de o ter criado, em nada intervindo no curso das coisas nesta Terra.

Ora, esta concepção nega o dogma católico da Providência Divina, pelo qual Deus não abandonou o mundo à própria sorte, mas o rege e governa. Aliás, segundo a doutrina de Santo Tomás, o Universo criado constitui um só conjunto inter-relacionado, abrangendo: a) os seres exclusivamente materiais — minerais, vegetais e animais irracionais; b) o homem, que é em parte material e em parte espiritual; c) os anjos (bons e maus), que são exclusivamente espirituais. E os seres dessas três ordens interagem, não constituindo ordens separadas, mas uma ordem só — a ordem do Universo criado — com Deus por cima regendo e governando tudo pelo ministério dos anjos.

Assim, imaginar que Deus criou o Universo e o abandonou, para que funcionasse por si mesmo prescindindo do Criador, é uma concepção gravemente errônea do ponto de vista da doutrina católica, porque rejeita a intervenção contínua da Divina Providência, primeiro para o manter na existência, e depois para que se desenvolva adequadamente, de acordo com as regras pré-estabelecidas pela infinita sabedoria de Deus.

Adão não estava inicialmente sujeito a males

Após o pecado original debilitou-se a capacidade humana
Quando Deus criou Adão e Eva, enriqueceu-os com dons especiais, alguns dos quais estavam acima da natureza humana: dons propriamente sobrenaturais, como a graça divina, que adota o homem à Família Divina, até tornando-o “participante” da própria divina natureza; os dons chamados preternaturais (praeter = além de), isto é, que vão além do essencialmente constitutivo do homem, e que são dons gratuitos, comuns à natureza dos anjos, que adornam a natureza do homem, sem lhe serem estritamente necessários. Tais são, quanto à alma, a imunidade da concupiscência desordenada e da ignorância; e quanto ao corpo, a imunidade em relação à morte e às misérias desta vida, à qual se acrescentava um certo domínio sobre o mundo animal e as forças da natureza. São os chamados dons preternaturais.

A imunidade da ignorância decorria da ciência infusa, isto é, o conhecimento das verdades religiosas, morais e físicas necessárias à instrução de si mesmo e de seus filhos. Esta ciência é chamada infusa porque não fora adquirida pelo estudo, mas infundida diretamente por Deus na alma, por uma benevolência especial do Criador.

Quanto à imunidade em relação à morte, fazia com que o homem, no Paraíso terrestre, após algum tempo de prova, passaria diretamente para o Céu sem conhecer a morte.

Porém, como é sabido, Adão e Eva pecaram, desobedecendo a Deus, e por esse pecado — o pecado original — entrou o mal no mundo. São Paulo o diz expressamente na Epístola aos Romanos (5, 12): “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte”.

Lembrados estes pontos da doutrina católica, fica fácil responder as perguntas do missivista.

O falso dilema de Epicuro cai por terra

Epicuro
Como se vê, pelo seu poder e por sua bondade, Deus criou para o homem as melhores condições para sua vida nesta Terra. “Criou-os à sua imagem e semelhança”. Foi o homem que, rebelando-se contra Deus, abusando da grande prerrogativa da liberdade, como castigo perdeu a imunidade da morte e a preservação dos demais sofrimentos, que caracterizam a vida do homem após o pecado original. Assim se desfaz o falso dilema de Epicuro, que via nos males desta Terra uma ausência de poder ou bondade de Deus.

É igualmente conseqüência do pecado original que a ciência infusa de Adão foi-se transmitindo a seus descendentes de maneira cada vez mais diluída, perdendo o homem a capacidade de prevenir-se adequadamente também contra os desastres naturais. Por ocasião do tsunami no Oceano Índico, foi muito salientado pelos comentaristas o fato de que, entre os atingidos pelo terremoto, não se encontrou o corpo de um só animal terrestre! Todos eles pressentiram a aproximação das ondas gigantes e se refugiaram em tempo em lugares elevados. Houve até o caso da população de uma das ilhas atingidas que, notando a fuga dos animais, entendeu que se aproximava uma catástrofe, e refugiou-se ela também nos lugares elevados... Pode-se supor que Adão estivesse dotado dessa capacidade premonitória, ou pelo menos teria sabido interpretar corretamente o sinal emitido pelos animais. Sem contar que, após o pecado original, a própria natureza deixou de ser dócil ao homem e por vezes o açoita. Na Sagrada Escritura (Livro do Gênesis, 3, 17) declara Deus explicitamente: “A terra será maldita por tua causa”, após a maldição lançada sobre a serpente (o demônio) e o exemplar castigo — para não chamar de maldição —aplicado a nossos primeiros Pais e à sua descendência, que somos nós.

Portanto, se em sua sabedoria divina Deus não quis eliminar da Terra a possibilidade dessas catástrofes naturais — há cientistas que sustentam terem elas seu papel na renovação da atmosfera terrestre e nas condições de habitabilidade da crosta terrestre, e inclusive da própria existência da vida sobre a Terra — dotou até mesmo os animais de sensores para escapar em tempo de suas conseqüências desastrosas. Quanto mais não o fez Deus para o homem, concedendo a Adão o dom da ciência infusa. É uma blasfêmia, pois, culpar a Deus pelo fato de os homens serem inertes diante de sinais que os próprios animais irracionais sabem interpretar.

Note-se que não tratamos de um ponto crucial no que se refere ao tsunami: terá sido ele um castigo de Deus pelos pecados dos homens? Por exemplo, só no Brasil, em apenas um ano, são assassinadas 950.000 vidas indefesas, no ventre materno, por pais, médicos e enfermagem malditos (Cfr. “Folha de S. Paulo”, 12-12-04). Que é um tsunami diante de tais cifras e crimes? Será um prenúncio de novas catástrofes? Tais considerações nos levariam muito longe, e não se referem propriamente às questões levantadas pelo leitor.

Muito ainda teríamos a dizer sobre as três perguntas apresentadas. Limitamo-nos a constatar que elas abstraem de conceitos que antigamente se ensinavam nas aulas de catecismo, mas que hoje parecem ter caído no olvido geral, principalmente a noção do pecado original, sem o qual a miséria da condição humana nesta Terra se torna inexplicável.

Convidamos o leitor a reler as perguntas apresentadas à luz destas explicações, e verificar por si mesmo como tais questões falseiam a noção de um Deus sábio, onipotente e infinitamente bom, que deseja a salvação dos homens, mediante até o holocausto de Seu próprio Filho Unigênito Jesus Cristo, no Calvário, e para eles preparou uma vida de eterna felicidade. Desde que, é claro, mantenham sua vida fora da trilha do pecado e na observância amorosa dos Mandamentos da Lei de Deus e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, vindo à Terra pela mediação de Maria.

 

 

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