Fevereiro de 2018
Lituânia, 10 anos depois
Lituânia

Lituânia, 10 anos depois

Comemoram-se 10 anos da independência da Lituânia em relação à União Soviética. Uma década de indubitáveis progressos. A  marca da dominação comunista, contudo,  ainda permanece.

  • Renato Vasconelos
    Alemanha

Situada às margens do Mar Báltico, com  uma população de 3.700.000 habitantes numa extensão territorial de 62.000 km², a Lituânia é um dos menores países do Leste europeu. Encontra-se encastoada entre duas faixas de território russo — ao sul e a leste — e sempre constituiu objeto de cobiça de seu  poderoso e gigantesco vizinho.

A conversão do Grão-Duque Vytautas, o Grande, em fins do século XIV, arrancou a Lituânia das trevas de um paganismo milenar e trouxe-lhe as luzes do Cristianismo e da Civilização Cristã. Foi a última nação da Europa a abraçar o Cristianismo, apesar dos ingentes e reiterados esforços apostólico-militares dos cavaleiros da Ordem Teutônica.

1795: Perda da independência

A conversão dos lituanos à Fé católica teve também uma conseqüência política importante: o Grão-Ducado da Lituânia uniu-se à Coroa Polonesa, mantendo contudo sua independência, que só veio a perder com a tripartição da Polônia em 1795. Na divisão, a parte referente à Li­tuâ­nia coube ao Império russo dos Romanovs. Em 1863 houve uma heróica tentativa de romper os laços com São Pe­tersburgo (então capital da Rússia), esmagada implacavelmente pelos russos. Em contrapartida, intensificou-se a russificação. A língua lituana permaneceu proibida durante mais de 40 anos.

1918-1940-1990: Independência e escravidão

Em 1918 os lituanos declararam novamente sua independência. Liberdade de curta duração. O ominoso pacto Ribbentrop-Molotov entre a Alemanha nazista e a Rússia stalinista (que revelou a grande afinidade existente entre nazismo e comunismo) devolveu o pequeno país báltico à União Soviética em 1940, em plena Segunda Guerra mundial.

Os cinqüenta anos seguintes, sob a bota do comunismo russo, foram devastadores para a Lituânia nos campos religioso, moral, cultural e econômico: igrejas fechadas e transformadas em celeiros ou estábulos; as aulas de religião abolidas nas escolas e o ateísmo ensinado oficialmente, segundo programas marxistas; o russo imposto novamente como idioma oficial; os contatos com o Ocidente rompidos e a intelectualidade jovem lituana formada nas universidades de Moscou.

A par disso, a Rússia soviética estabeleceu uma formidável e tirânica rede de controle do povo, o sistema de espionagem dirigido pela KGB. Ademais, a deportação de centenas de milhares de lituanos para a longínqua e gélida Sibéria fez com que o país perdesse um terço de sua população!

A estatização da indústria e do comércio foi total, e o solo declarado propriedade do Estado. O dirigismo, substituindo a livre iniciativa privada, instituiu os planos qüinqüenais; no campo, instituíram-se as fazendas coletivas, os famigerados kolkhozes, cujas ruínas enegrecidas e cercadas de mato vêem-se ainda hoje por toda a parte, quando se viaja pelo inte­rior do país.

A Lituânia parecia estar irremediavelmente integrada ao bloco marxista soviético. Contudo, anseios de libertação dos grilhões comunistas jamais deixaram de palpitar nos peitos lituanos. A queda do Muro de Berlim, em 1989, deu inesperado e possante impulso a esses anelos.

A campanha da TFP em prol da Lituânia

Manifestação da TFP brasileira na Praça Ramos de Azevedo, durante desfile de encerramento da campanha em prol da libertação da Lituânia do jugo soviético
Foi nesse contexto que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP brasileira e inspirador de outras TFPs nos cinco continentes, planejou e dirigiu uma campanha de envergadura mundial, de coleta de assinaturas em apoio à declaração de independência da Lituânia, que fora proclamada no dia 19 de março de 1990, mas não aceita pelo regime comunista de Moscou.

O impressionante abaixo-assinado, de mais de cinco milhões de assinaturas coletadas nos cinco continentes,  foi entregue em dezembro de 1990 em Moscou, por uma delegação de membros de diversas TFPs americanas e européias. Ele teve grande repercussão mundial e contribuiu decisivamente para que uma pressão da opinião pública ocidental se fizesse sentir em favor da libertação da simpática nação báltica. Chegou a ser reconhecido pelo Guiness Book (O Livro dos Recordes) como o maior abaixo-assinado da História.

À política imperialista da Rússia não convinha porém reconhecer a declaração de independência da Lituânia. Um mês depois da entrega do abaixo-assinado da TFP, precisamente na noite de 13 de janeiro de 1991, caiu afinal a máscara sorridente de Gorbachev, deixando entrever sua carranca dura e implacável. Pressionado de todos os lados, ele foi obrigado a sair de dentro das ambigüidades da Glasnost e da Perestroika para admitir que não permitiria à Lituânia recobrar sua independência.

Diante do ultimato soviético, houve uma explosão de indignação popular na Lituânia. Um entusiasmo patriótico arrebatou a população de Vilnius, a capital. Em torno do edifício do Parlamento e barrando a ponte sobre o rio Neris, que lhe dá acesso, ergueram-se prontamente barricadas com material de um prédio vizinho em construção. Entrementes, um grupo de jovens ocupava a torre de rádio e televisão.

Numa tentativa de esmagar a insurreição popular, modernos tanques soviéticos adentraram as ruas de Vilnius e dirigiram-se ao Parlamento, onde os deputados se encontravam em vigília. Na praça, em frente ao edifício, conglomeravam-se dezenas de milhares de pessoas. A opinião pública ocidental, previamente preparada pelo abaixo-assinado da TFP e outros fatores, apoiava decididamente os lituanos. Nesse quadro, os chefes comunistas não ousaram dar ordens aos tanques para que atravessassem o rio Neris e disparassem contra a multidão, o que teria provocado um massacre de proporções aterradoras.  Assim, os tanques receberam ordem de se dirigir à torre de rádio e televisão, onde ocorreram as dramáticas cenas que ainda permanecem na memória de muitos: jovens esmagados por tanques ou fuzilados impiedosamente por soldados russos, protegidos por suas carapaças de aço.

A reação internacional face à brutalidade soviética — o emprego de tanques e metralhadoras contra jovens desarmados — atingiu um paroxismo de indignação. E Gorbachev viu-se obrigado a ceder diante das pressões das potências ocidentais, aceitando como fato consumado a independência da Lituânia. Os soldados russos, porém, permaneceram ainda em solo lituano. Só abandonaram o país três anos mais tarde.

1991-2001: Progressos e apreensões

Moscou, 6-12-90 - Delegação das TFPs diante da Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, após entregar no escritorio de Gorbachev carta expondo a Campanha a favor da Lituânia
Transcorreu uma década. Que progressos fez a Lituânia nesse período? Que dificuldades vem enfrentando? Quais são as perspectivas que ela vislumbra para o futuro?

O país esteve imobilizado pelo sistema antinatural do comunismo durante cinco décadas. Atualmente ocorre com ele o mesmo que se dá com um braço engessado do qual se retira o gesso: nos primeiros dias está atrofiado, seus movimentos são lentos e penosos. 

A Lituânia de hoje encontra-se ainda atrofiada, mas em fase de franca convalescença. Há muita coisa  ainda por ser colocada em ordem. Não obstante isso, os progressos materiais são notórios.

Quem conheceu o país logo depois da independência, e retorna agora, fica surpreso com o que vê. Antes, era difícil conseguir até mesmo um copo de leite. Agora pode-se comprar facilmente qualquer alimento.

Vitória comunista nas eleições

Habilmente explorando a difícil situação sócio-econômica, e acusando o governo conservador de não haver encontrado a verdadeira solução para os problemas do país, a esquerda conseguiu canalizar a insatisfação de dezenas de milhares de desempregados. Resultado: nas eleições comunais de abril passado, os assim chamados neocomunistas conseguiram eleger  prefeitos na maior parte dos municípios.

Embora se previsse nova vitória dos neocomunistas nas eleições parlamentares de outubro, reinava a divisão no campo político-partidário.

Os partidos de direita e de centro, fracionados, propiciaram novos elementos favoráveis para uma vitória comunista nas eleições parlamentares de 8 de outubro último. Os rumos do país serão ditados nos próximos quatro anos pela Coalizão Social-Democrata, sob a direção de Algirdas Brazauskas, um comunista de velha guarda.

É a segunda vez que a esquerda volta ao poder, depois da declaração de independência em 1990. Mais uma prova da devastação moral e psicológica causada por 50 anos de comunismo. Os neo­comunistas agirão provavelmente com tato e não “engessarão” completamente o país. Para que os eleitores não percebam a estultice que cometeram...

Futuro depende do apostolado com a juventude, à luz de Fátima

No campo moral, um fator de preocupação é a invasão torrencial da imoralidade, favorecida pela televisão, pela moda e costumes provenientes do Ocidente. Infelizmente, vai a juventude lituana rapidamente acertando o passo com o dos países ocidentais, dominada pela busca neopagã e desenfreada do prazer. Assim, a indiferença religiosa, estimulada por meio século de ateísmo oficial, só tende a aumentar.

Uma mudança decisiva do país para as vias da Civilização Cristã levaria ainda anos, provavelmente, dependendo do apostolado que se faça hoje com os pequenos lituanos e supondo-se que tal apostolado fosse coroado de êxito. Mas quem faz esse apostolado?

Assim, a grande esperança para a Lituânia está ligada ao imenso movimento de conversão mundial que se deve esperar do desencadear dos acontecimentos previstos em Fátima.  Aí sim, a Lituânia continuará a fazer jus a seu belo e multissecular título de Terra de Maria.