Fevereiro de 2005
A Legenda Áurea, uma “obra eterna”
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Recensão

A Legenda Áurea, uma “obra eterna”

La Légende Dorée, livro monumental, revela-nos um mundo dourado numa época maravilhosa, a Cristandade medieval, na qual as grandes virtudes davam o tom da vida

                                                                                                                                                   João Luiz Vidigal

S
e nos meios que seguem a moda, no Brasil de hoje, algum desavisado dissesse que gostaria de ler a história de um santo, imediatamente seria objeto de um silêncio carregado de desprezo, talvez de irritação. O neopaganismo –– essa “religião” obrigatória de nossos dias –– faz crer que só é moderno ler as aventuras sinistras de Harry Potter, as obras estranhas de Paulo Coelho e congêneres. Entretanto, há não muito tempo, no ano 2000, a imprensa internacional deu grande destaque à reedição de um livro que foi um grande best-seller da Idade Média, a famosa Legenda Áurea, publicada pelo Bem-aventurado Jacques [Tiago] de Voragine em 1260. Órgãos de grande tiragem como “Time”, “Le Monde”, “Le Figaro”, “L’Express” entre outros, dedicaram amplo espaço a essa obra, pois a Legenda Áurea, publicada há quase 750 anos, permanece um livro de surpreendente atualidade.

Em plena Idade Média, o frade dominicano Jacques de Voragine quis escrever uma obra sem precedentes: a narrativa da vida dos 180 santos mais conhecidos até sua época. Ele o fez em latim popular, e o objetivo era claro: o clero necessitava de leitura acessível que o inspirasse em suas pregações, apresentando exemplos de vida que corriam de boca em boca somente através das tradições populares. O resultado de tal iniciativa foi impressionante: em alguns anos a obra tornou-se, juntamente com a Bíblia, o livro mais copiado, lido, escutado, comentado e parafraseado nos países da Cristandade.

Em 1265, Jacques de Voragine foi eleito Provincial de sua ordem na Lombardia. Nesse período teve a honra de ser o superior de Santo Tomás de Aquino. Em 1292, foi nomeado Arcebispo de Gênova, cargo que ocupou até a sua morte, aos 70 anos, em 1298.

Esplendor dourado da virtude

No século XIII, quando instituições como as corporações de ofício estavam no seu auge e, ao mesmo tempo, floresciam as primeiras universidades, Voragine quis oferecer uma dádiva ao povo, ocupado em construir igrejas e catedrais, ávido por conhecer a verdadeira fé. Escreveu ele com fervor e entusiasmo uma história, retraçando todos os conhecimentos e lendas acumulados com o passar dos séculos, sobre a vida dos santos. Nasceu assim o primeiro livro religioso realmente acessível a todos: a Legenda Sanctorum, ou “o que deve ser lido dos santos”. Em pouco tempo a obra recebeu o nome de Légende Dorée — Legenda Áurea, porque, diziam então, seu conteúdo era de ouro.

O livro, reproduzido em mais de 10 mil manuscritos, narra com uma força surpreendente as incríveis e maravilhosas histórias dos santos, seus milagres e martírios, recuando até os primeiros anos da Cristandade medieval e abarcando os lugares mais longínquos e recônditos do mundo de então. O religioso dominicano evoca também as principais festas do calendário litúrgico e mariais.

Efeito fundamental nas artes

Outro efeito, contudo, permitiu que o livro alcançasse ainda mais importância. O texto maravilhou os artistas, que dele prazerosamente se apoderaram desde os primórdios da Renascença italiana, tornando-o referência inconteste de todos os pintores, que ali encontravam fonte inesgotável de inspiração. Isso ocorreu com os maiores artistas, tais como Giotto, Duccio, Fra Angelico, Simone Martini, Piero della Francesca, Masaccio, Masolino, Pietro Lorenzetti, Ambroggio etc. Mas também outros menos conhecidos, embora não menos inspirados, empregaram seu gênio para exaltar cenas da vida de santos e enriquecer as igrejas, conventos e mosteiros com afrescos, retábulos, vitrais e polípticos.

Reunir em um livro de arte o texto original e as obras artísticas que ele suscitou nos séculos XIV e XV foi a idéia genial das Éditions Diane de Selliers (www.editionsdianedeselliers.com/Legende_Doree), de Paris. Seu trabalho de pesquisa, que durou três anos e reuniu mais de 400 reproduções fotográficas de altíssima qualidade, foi dignamente recompensado com duas edições francesas, uma italiana e uma portuguesa — esta última recém-publicada com o texto revisto por uma autoridade na matéria, diretamente do original latino.

Se uma centena dessas reproduções artísticas são universalmente conhecidas, pode-se dizer, entretanto, que mais de um terço delas são totalmente inéditas: afrescos escondidos no fundo de conventos, retábulos descobertos em igrejas desconhecidas, seqüências espalhadas em diversos museus, ou mesmo em coleções privadas. A conjunção do livro do Beato Voragine com as obras de arte que ele suscitou foi uma agradável surpresa, e realçou a beleza extraordinária, cheia de sabedoria e de maravilhoso da Idade Média.

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A Editora Civilização, de Portugal, publicou para o Natal de 2004 essa jóia da literatura hagiográfica, que Catolicismo recomenda a seus leitores (Legenda Áurea – Tiago de Voragine, Editora Civilização, Porto, Portugal, 2004, 680 páginas em 2 volumes, formato 24,5 x 33cm).

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