Junho de 2002
A denúncia-surpresa contra o MST, apresentada pela mídia
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Fac-símile da p. A 14 da edição de 24-3-2002 de "O Estado de S. Paulo": militantes do MST ocupam a fazenda do Presidente

A denúncia-surpresa contra o MST, apresentada pela mídia

Gregorio Vivanco Lopes

Após décadas de generalizado favorecimento do MST, os meios de comunicação social passam a incriminá-lo, depois de ter obstinadamente silenciado denúncias do mesmo gênero feitas pela TFP. Como explicar o mistério?

Nos últimos meses, a mídia vem acusando o MST de usar a Reforma Agrária como pretexto para impor ao Brasil um regime socialista. Tal preocupação dos meios de comunicação tem sua explicação primeira num fato propagandístico criado pelo próprio MST: a invasão, com requintes de boçalidade, da Fazenda Córrego da Ponte, em Buritis (MG), de propriedade dos filhos do Presidente Fernando Henrique Cardoso, em 23 de março último.

Mas será só essa a explicação? A denúncia de que o MST está ligado à esquerda internacional e visa cubanizar o Brasil vem sendo feita há muito pela TFP. E o próprio movimento invasor nunca escondeu seus reais objetivos. O que está então por detrás dessa nova onda publicitária? Na matéria que segue, o leitor encontrará análises, hipóteses e importantes subsídios para esclarecimento desse mistério.

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Escarrapachados nos sofás como bichos-preguiças, os chamados sem-terra consumiram bebidas da melhor qualidade; dançando e pulando, destruindo, surrupiando objetos, deram até ridículas demonstrações de quererem ser vistos no Jornal Nacional da Rede Globo. Todos esses fatos se produziram durante a invasão da fazenda dos filhos do Presidente.

Presenciamos, a partir de então, a uma verdadeira avalanche de notícias e comentários, por todo o País, maciçamente contrários aos sem-terra. E com um acréscimo: a mídia desta vez procurou salientar que a verdadeira finalidade do MST não é a Reforma Agrária, mas sim a tomada do poder e a instauração de um regime socialista, tipo cubano. Ninguém mais está acreditando nessa história de "famílias" necessitadas invadindo terras para poder viver1.

Por exemplo, em artigo intitulado MST, a tropa de choque dos rebeldes 2, encontramos a informação de que "muito mais do que a Reforma Agrária, os militantes [do MST] pregam a reforma do País, até transformá-lo numa república `socialista e igualitária', como diz uma de suas cartilhas".

Mídia remexe o fundo do baú

Realmente, estamos diante de uma grande novidade. Mas essa novidade não consiste em que o MST tenha tais intenções subversivas. Pois o caráter marxista do movimento e sua índole revolucionária já estão afirmados e repisados pelo próprio MST em numerosos documentos antigos e recentes. E ademais tem sido objeto de denúncias reiteradas do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, e com ele a TFP, desde a década de 803.

Agora, porém, muitos documentos do MST, elaborados pelos seus mentores nestas últimas duas décadas, e que estavam esquecidos no fundo do baú, surgem de repente como elementos comprobatórios das más intenções do movimento. Tais documentos, de fato, provam. Mas por que só agora vêm a lume, se são antigos?

O que o MST diz de si mesmo vai muito longe. O próprio José Rainha já deixou claras as ligações, ao menos afetivas e metodológicas, entre o MST e o crime organizado. Pronunciou-se ele a favor da soltura dos bandidos das prisões e elogiou os métodos da organização criminosa conhecida como PCC4.

Banditismo não é novo

Se a posição do MST não constitui novidade, também não é novidade os seus membros se portarem com grosseria e estupidez em invasões de fazendas como a Córrego da Ponte, pois isso é o que habitualmente fazem. Embora, é claro, em se tratando de imóvel ligado ao Presidente da República, o fato adquira maior gravidade. É portanto perfeitamente compreensível que o deputado federal Francisco Graziano, falando dos "crimes [cometidos pelo MST] nos últimos dias", os tenha qualificado de "novo banditismo rural"5.

Por outro lado, o advogado Fábio de Oliveira Luchesi esclarece: "Não há diferença conceitual entre crimes de furto, roubo e esbulho possessório. A diferença reside apenas na natureza do objeto. Os primeiros, furto e roubo, dizem respeito a coisas móveis, enquanto o esbulho possessório diz respeito às coisas imóveis, isto é, o ladrão não pode carregar [...], inclusive com a agravante do crime de formação de bando para esse fim". Em seguida o advogado critica "a omissão dos poderes executivos, nos diversos estados da Federação, no exercício do poder de polícia, o que constitui crime de prevaricação"6.

Tudo isso é verdade, mas daí ao fato de os meios de comunicação reconhecerem o "banditismo" dos invasores vai um abismo. Como disse bem o ex-ministro Paulo Brossard, "em todo o Brasil têm se sucedido invasões de propriedades rurais, e as vítimas têm sofrido os maiores agravos, de ordem moral e de ordem material, diante da indiferença do poder público, federal ou estadual, que, a essa luz, se equivalem"7. E o jornalista Paulo Saab acrescenta: "Eu sou punido ao violar uma mínima lei de trânsito como estacionar em local proibido; por que os integrantes do chamado MST podem cometer crimes e infrações graves e, pior ainda, anunciar previamente a prática de futuros crimes, e a autoridade pública não se move?". E, referindo-se expressamente à atuação da mídia, prossegue: "A `opinião pública' é manipulada para sentir `pena' dos pobres invasores"8.

O que houve agora, para a mídia de repente mudar e se tomar de zelo contra os crimes dos sem-terra?

Novidade: mídia condena MST

A autêntica novidade não está, pois, na ação do MST, mas sim na posição atualmente assumida pelos meios de comunicação social. Estes, de modo praticamente unânime, condenaram o movimento em inúmeros artigos e editoriais, denunciaram de modo bombástico seu programa de índole comunista e merecidamente o apontaram à execração popular.

Isto, sim, é novidade! Pois, anteriormente a esses fatos, a mídia vinha tendo em relação ao MST todas as condescendências, tratando-o não como movimento subversivo, mas como "movimento social", destacando o papel importante que ele supostamente estaria exercendo para melhorar a distribuição de terras no Brasil. E sobretudo dando-lhe uma cobertura propagandística como nunca se viu igual no Brasil para qualquer associação ou entidade. Cada novo acampamento dos sem-terra, cada crítica que um deles fazia ao governo, cada bravata ou ameaça, tudo era devidamente registrado de modo simpático e levado ao público como proveniente de uma entidade forte e respeitável. Bastava qualquer líder do MST respirar um pouco mais fundo, que já lá ia um repórter entrevistá-lo, perguntar suas opiniões e preferências.

Aliados tomam distância

Mais extraordinário ainda é que tal posição dos meios de comunicação foi respaldada por aliados tradicionais do MST que passaram a dissolidarizar-se dele, como, por exemplo, o PT. Mesmo o governo, que — brigas verbais à parte — tem sido o grande benfeitor do MST, pronunciou-se acidamente contra ele. Assim, o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Arthur Virgílio, não poupou adjetivos ao MST: "bandidos, celerados, proxenetas [que exploram a prostituição] da reforma agrária e gigolôs da miséria alheia"9.

Isto significará o fim do MST?

Se o fenômeno aumentar e vier a tornar-se permanente, seria, de fato, o fim. Pois o MST, há muito sem respaldo popular10, só consegue subsistir artificialmente graças ao apoio incondicional da "esquerda católica", à propaganda permanente na mídia, ao dinheiro que indiretamente recebe do governo e à cobertura da esquerda internacional.

Segundo Gilmar Mauro, um dos líderes do MST, "quem nos defende são as entidades internacionais e personalidades do meio cultural e intelectual"11. Para citar um exemplo recente de vinculação do MST a organismos do Exterior, basta lembrar a presença de um militante do MST, Mário Lill, no Oriente Médio, ao lado de Yasser Arafat, Presidente da Autoridade Palestina (AP), que segura uma bandeira do movimento. Para conseguir essa foto, o MST não regateou: "a viagem de um militante como Mário Lill a Israel custa cerca de 5 mil dólares, entre passagem e estada"12. E a história teve mais um capítulo: "seis sem-terra embarcam em Porto Alegre, rumo à Palestina. Pretendiam `resgatar' seu colega Mario Lill, cercado por tropas de Israel no quartel-general de Yasser Arafat"13.

E os apoios são amplamente divulgados. Em 13 de março último, o jornal da Arquidiocese de São Paulo, "O São Paulo", publicou foto de José Rainha ofertando ao Cardeal D. Claudio Hummes um chapéu-símbolo da marcha dos sem-terra.

Se tais apoios vierem a faltar, o destino do MST é rolar pelo chão, como o gigante de pés de barro de que nos fala o Profeta Daniel (2,23). Exemplo característico foi o acampamento que fizeram em Buritis (MG) para protestar contra a prisão dos líderes da invasão à fazenda Córrego da Ponte. A impopularidade dos sem-terra era tal, que o máximo que conseguiram foi apavorar a população local com sua presença. Foi preciso que o coordenador do MST, Gilmar de Oliveira, se esforçasse por acalmar os habitantes: "Queremos tranqüilizar a população de Buritis. Não temos a intenção de quebrar o patrimônio. É um ato de paz", garantiu ele discursando na ocasião14.

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