Junho de 2002
A França põe fora o PS e enterra o PC
Internacional
Lionel Jospin, após a derrota, diz adeus à vida política

A França põe fora o PS e enterra o PC

Wilson Gabriel da Silva

Enviado Especial

França

Jospin: fora!; Chirac: "vitória de Pirro"; Le Pen: "diabolizado". Com a histórica derrota do Partido Socialista francês, um mal-estar generalizado se apossou das esquerdas de todo o mundo.

Paris — Poucas vezes uma eleição pôs a nu tantos problemas de fundo quanto o recente pleito para a escolha do Presidente da República francês.

Tudo estava preparado para uma disputa entre o presidente centrista Jacques Chirac e o primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, quando um fator-surpresa estragou o jogo: o controvertido líder da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, a quem as sondagens de opinião atribuíam de 9,5 a 14% das intenções de voto no primeiro turno, saiu na frente de Jospin com quase 17%. Conseqüência: Jospin retirado da competição e da vida política! Um alívio para os franceses que estavam fartos de um longo domínio socialista.

Militantes do Partido Socialista ao tomar conhecimento dos resultados do 1° turno: frustração e desconcerto

A esquerda em frangalhos

O primeiro turno realizou-se a 21 de abril. Na noite desse mesmo dia foram anunciados os resultados. Da frustração ao desespero, basta um passo. Desde logo, o desconcerto tomou conta dos militantes da esquerda, reunidos no próprio quartel de campanha do primeiro-ministro derrotado.

No day after não faltaram metáforas apocalípticas nas manchetes dos jornais: "choque"; "terremoto"; "sismo político".

"NÃO", titulou o "Libération", periódico filho das desordens promíscuas da Sorbonne. "NÃO" em letras garrafais, como quem arranca os próprios cabelos.

"A imprensa francesa em estado de choque", titulou a agência Reuters. Por que "em estado de choque"? Não é dever da imprensa ser imparcial, a fim de ter as condições mínimas indispensáveis para cumprir com objetividade sua missão de informar? Uma surpresa eleitoral, afinal, não é normal numa democracia? No entanto, imprensa, rádio e televisão perderam as estribeiras.

Os números, porém, ali estavam, implacáveis, a documentar a desilusão: o primeiro-ministro foi incapaz de alcançar os 17% que as sondagens mais modestas lhe conferiam. E não existe nenhuma crise econômica a servir de pretexto ou explicação. Isso diz muito da desilusão dos franceses em relação ao PS.

Por sua vez, o Partido Comunista, que para afirmar-se havia insistido em apresentar candidato próprio, obteve menos que os votos em branco. Com apenas 3,3%, não alcançou sequer os 5% que a lei eleitoral estabelece como limite para reembolso das despesas de campanha pelo Estado. O PCF amarga agora dívidas de 1,5 milhão de euros (cerca de 3,3 milhões de reais), e sobretudo uma derrota histórica que praticamente o coloca fora do tabuleiro político.

Somando-se todos os votos dos candidatos de esquerda, temos um total de 42%. Os 58% restantes ficaram com os de centro-direita. Ou seja, o eleitorado francês, em sua maioria, quer permanecer conservador.

Robert Hue, líder do Partido Comunista Francês, que obteve apenas 3,3% dos votos, sendo varrido do tabuleiro político

O Episcopado no debate

Derrotada, a esquerda acionou todos os seus dispositivos para lançar uma ofensiva aberta e total contra Le Pen, da Frente Nacional (FN), a fim de evitar sua eleição no segundo turno, em 5 de maio. Mas Le Pen era apenas o pára-vento. Por detrás dele, visava-se pressionar e atemorizar os franceses que nele votaram, para que voltassem atrás.

Essa ofensiva foi tão abrangente, que até membros do Episcopado, habitualmente cautos em emitir juízo sobre assuntos políticos, desta vez intervieram diretamente no debate eleitoral1.

"A Igreja critica declarações de Le Pen", lê-se em "La Croix" de 23-4-2002. "Uma frente religiosa contra a Frente Nacional", publica o mesmo jornal no dia 26, reproduzindo declarações de vários bispos. "A Igreja se opõe à Frente Nacional", volta a insistir em 30 de abril, na primeira página.

O Bispo de Clermont-Ferrand, Mons. Simon, declarou que o programa da Frente Nacional "é estranho à mensagem bíblica" 2. Ele considera os seguidores desse partido bastante afastados do cristianismo, denunciando seu neopaganismo. É possível e até provável que Mons. Simon tenha razão. O que causa perplexidade é a ausência total de qualquer declaração episcopal contra o perigo marxista, igualmente neopagão, que salta aos olhos nos programas dos partidos de esquerda. Nestas circunstâncias, não será contrário à caridade esquecer as 100 milhões de vítimas do comunismo catalogadas no Livro Negro sobre essa ideologia atéia, criminosa e nefasta?

Nicolas Sarkozy, ministro do Interior do novo governo: "A França nos disse algo. Devemos levar em conta"

"Se o povo vota contra"...

"A República está em perigo!" foi a palavra de ordem. Acionaram-se então os dispositivos partidários e associativos de esquerda, arrebanhando adolescentes e até meninas de colégio para manifestações de rua em todo o país contra os 4,8 milhões de franceses que votaram em Le Pen. Curioso zelo "democrático", após o povo ter-se manifestado democraticamente nas urnas! De fora do coro, uma revista3 lembrou a propósito o dito de Bertold Brecht: "Já que o povo vota contra o governo, é preciso dissolver o povo"...

Em todo caso, a orquestração publicitária e a pressão social obtiveram resultado ponderável. A esquerda em peso, inclusive trotskistas, submeteu-se à humilhação de votar em Chirac, o adversário da véspera, acusado de corrupção. Apesar de sair em primeiro lugar no primeiro turno, com 19,9% dos votos, Chirac tivera o pior resultado dos últimos tempos para um Presidente da República candidato. No segundo turno, com a diminuição das abstenções (de 28,5 para 20%) e o apoio da esquerda, ele pôde vencer facilmente, obtendo 82% dos votos.

Livre de Jospin e de Le Pen, a França respirou aliviada. Entretanto, como declarou o segundo homem do governo, Nicolas Sarkozy, atual ministro do Interior, "a escolha de 21 de abril não foi esquecida. A França nos disse algo. Devemos levar em conta".4 O novo governo parece ter captado a mensagem de advertência da França profunda, mas a mídia não trata disso.

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