Junho de 2002
Deus sempre atende orações confiantes?
A Palavra do Sacerdote
Cônego José Luiz Villac

Pergunta

Eu rezo, rezo, rezo, mas tenho a sensação de que Deus não me atende. Não recebo as graças que peço. Minha vida familiar sempre foi muito tranqüila e feliz, mas de uns tempos para cá introduziu-se uma grande desavença entre nós. Por outro lado, há cerca de um ano, minha situação financeira sofreu um grave colapso. Essa dupla situação traumática, familiar e financeira, me aflige tanto que, não tendo a quem apelar, apelei para Deus. Mas Deus permanece surdo à minha voz. Isto me leva a uma pergunta: que resposta podemos dar aos ateus quando se riem de nós, dizendo que nossa oração não passa de mera elucubração de nosso espírito, e portanto não tem nenhum valor, nenhum sentido?

Resposta

Deus é fiel a suas promessas. E como tudo em Deus é infinito, deve-se mesmo dizer que Ele é infinitamente fiel a suas promessas. Ora, Deus prometeu atender às nossas orações; logo, atendê-las-á infalivelmente. Porém, Deus não estabeleceu prazos para nos dar o que pedimos. E se demora para nos atender, é porque prepara uma solução ainda melhor para o nosso caso concreto. É preciso portanto ter calma e paciência, e jamais seremos desiludidos em nossa fé.

Esta é a resposta teológica clássica para perguntas como a do consulente. Entretanto, é compreensível que, se essas palavras não forem acompanhadas de uma graça especial, deixarão perfeitamente indiferente uma pessoa que passa por tais provações. Torna-se necessário abordar o tema por outro lado, mais próprio a tocar as almas nessas condições.

Santa Mônica, que obteve a graça da conversão de Santo Agostinho: modelo de confiança na oração

Agnósticos e ateus

Quando os agnósticos e ateus dizem que nossa oração é um flatus vocis (uma palavra vazia e sem sentido), o raciocínio deles decorre obviamente da negação da existência de Deus (ateus), ou pelo menos de que Deus possa ser conhecido pelo homem (agnósticos). Na perspectiva deles, a oração — o apresentar-se o homem diante de Deus, para conversar com Ele, pedir-Lhe graças etc. — é uma operação totalmente destituída de conteúdo, inútil, risível.

Entretanto, Deus, que é onisciente (tudo vê e tudo sabe), também toma conhecimento do que exprimimos. Mas ele vai além, pois conhece até os nossos pensamentos mais recônditos, os nossos desejos mais secretos. Assim, a rigor, nem sequer precisaríamos exprimir a Deus o que se passa no interior de nossa alma, pois Ele o sabe. Mas Deus quer que o façamos, para entrarmos em comunicação voluntária com Ele, e assim Lhe prestarmos culto de adoração, de louvor, de reparação, de petição e de ação de graças.

Portanto, ao contrário do que pensam os ateus e agnósticos, nossa comunicação com Deus é possível, necessária, valiosa. Necessária, porque precisamos de sua ajuda. Valiosa, porque sendo onipotente, pode dar-nos tudo de razoável que Lhe peçamos.

Oração "importuna"

Como acontece então que, às vezes, não vemos o fruto de nossas orações?

Deixemos de lado a hipótese de que tenhamos rezado pouco e mal. Neste caso, é claro, Deus espera de nós maior empenho. Mas vamos supor exatamente que tenhamos rezado com a insistência necessária, chegando até a importunar Deus com a nossa santa insistência, como o próprio Divino Mestre nos aconselhou (cfr. Lc 11,8). Vem então a pergunta do consulente: por que Deus parece não nos atender nessas situações?

Aqui entra a explicação com que iniciamos esta resposta: Deus prometeu atender todos os nossos pedidos justos, e atender-nos-á infalivelmente. Nossa oração nunca será frustra. Mas as ações de Deus se enquadram no plano geral de sua Providência. Deus tem planos a respeito de cada homem em particular, como tem planos a respeito da humanidade em geral. Às vezes, Deus dá a entender a uma alma seus desígnios a respeito dela; outras vezes, porém, mantém a alma na obscuridade. Ele quer dessa alma uma fidelidade a toda prova, mesmo na mais completa escuridão. Então é preciso que a alma persevere na oração, até mesmo na oração "importuna", e confie que sua oração não será frustrada. Quantos anos de oração e rios de lágrimas custaram a Santa Mônica a conversão de seu filho Agostinho!

Dia virá em que a pessoa conhecerá que foi atendida além de toda medida, segundo os desígnios maravilhosos de Deus a respeito dela. E o auge desse conhecimento dar-se-á no Céu. Inclusive Deus pode estabelecer que, só depois de fechar os olhos para esta Terra e abri-los no Céu, a alma entenderá o que se passou, vendo que suas orações foram cumuladas com graças que sobrepassavam todo o conhecimento e todas as esperanças terrenas. E ficará eternamente grata.

São Luís Grignion de Montfort ressalta a eficácia da oração confiante dirigida à Virgem Santíssima

Vítimas expiatórias

Queremos aqui nos referir a almas muito privilegiadas, que Deus escolhe como vítimas expiatórias pelos pecados da humanidade; ou, mais especificamente, pelo bem da Igreja, submetida hoje ao ataque soez e articulado de adversários traiçoeiros, e de outro lado, infelizmente, às infidelidades, apostasias, delitos e quedas de toda ordem, que desonram o nome cristão. Nessa situação, ser escolhido pela Providência, na escuridão de nossa alma, como vítima expiatória, é um privilégio cuja glória só no Céu compreenderemos perfeitamente.

Mencionamos aqui este caso extremo, porque pode dar-se com qualquer alma, quando ela menos o espera. Se fosse o caso do consulente, seria um privilégio e uma glória para ele. Mas nem todos estão nesse caso extremo. O mais escrito: "Qui habitat in coelis irridebit eos" (Ps 2,4) — Aquele que habita nos Céus rir-se-á deles.

Intercessão infalível

Esta resposta, entretanto, não estaria completa se não lembrássemos que o católico deve elevar suas preces a Deus pela mediação de Nossa Senhora, cuja intercessão em nosso favor é infalível. Assim o diz São Bernardo, na célebre oração Lembrai-Vos, e o repete São Luís Maria Grignion de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem: "Ela é tão comum é que Deus vá dilatando o atendimento de nossas orações, à espera do momento mais oportuno para nos tirar do apuro. E então veremos que fomos atendidos muito acima das expectativas mais otimistas, confirmando-se a verdade acima supra lembrada, de que Deus é absolutamente fiel às suas promessas.

E quem se rirá então dos ateus seremos nós, será Deus, segundo está caridosa, que não repele ninguém que implore sua intercessão, ainda que seja um pecador; pois, como dizem os santos, nunca se ouviu dizer, desde que o mundo é mundo, que alguém que tenha recorrido à Santíssima Virgem, com confiança e perseverança, tenha sido desamparado ou repelido" (nº 85).