Junho de 2002
Tradição e continuidade familiar (parte II)
SOS - Família
Desenho representando diversos ofícios de artesãos na Idade Média

Tradição e continuidade familiar — Parte II —

Ação recíproca entre hereditariedade e tradição no florescimento das qualidades características de cada família e de cada indivíduo. Em contraposição à ação da propaganda massificante, tendente à destruição do povo e generalização dos indivíduos desagregados e sem personalidade.

Em continuação à matéria que publicamos na última edição, prosseguimos a transcrição de trechos selecionados da memorável conferência proferida por Plinio Corrêa de Oliveira em 1966, no Auditório da Federação do Comércio em São Paulo.

Para melhor assimilação, recordemos alguns pontos desenvolvidos anteriormente:

  • é uma ilusão imaginar que o divórcio pode trazer felicidade;

  • a instituição familiar tem função enquanto pilar do Estado e da sociedade;

  • uma sociedade orgânica se constituiu na Europa após a queda do Império Romano do Ocidente;

  • grandes cidades se formaram a partir do século XIII, dando início a uma sociedade anorgânica;

  • sobretudo depois da Revolução Francesa (1789), o Estado tornou-se centralizador;

  • com o aparecimento das democracias e do poder dito do "povo", este vai se transformando em "massa";

  • devido principalmente à tirânica influência dos meios de comunicação, a propaganda guia as multidões, transforma as opiniões e, em conseqüência, depaupera o homem moderno.

A personalidade própria de cada criatura

O tema que o conferencista desenvolve a seguir pede uma breve explicação, pois o público de nossos dias não está muito familiarizado com ele: a aseitas (aseidade). Segundo o dicionário Aurélio: do latim medieval, aseitate. Atributo divino fundamental, que consiste em existir por si próprio.

Para que o homem contemporâneo não se deixe influenciar pela mídia, não se "massifique", mudando ao sabor dos ventos, das modas e da propaganda o seu modo de ser próprio, Plinio Corrêa de Oliveira aponta uma solução. Trata-se da necessidade de ter de uma personalidade muito definida e forte, a fim de não sofrer abalos na característica própria de cada um — a aseitas de cada um. Característica essa que Deus deseja que o indivíduo desenvolva ao máximo, para sua própria santificação, para maior brilho da Criação e melhor semelhança com o Criador, pois cada qual é único e inconfundível no conjunto da obra da Criação.

***

"A aseitas — prossegue o conferencista — é a condição de Deus, aquilo que é característico de Deus, pelo qual Ele tudo tem de si, tudo faz de si e nada recebeu de ninguém. Deus é O único do qual propriamente se pode dizer que tem aseitas, porque só Deus é perfeito, eterno, absoluto. Mas, a par dessa aseitas infinita, poderíamos considerar uma minúscula aseitas (com quinhentas aspas de cada lado) relativa, contigente, limitada, que é a pequenina aseitas da criatura humana, que tudo recebeu de Deus, e que tem, numa zona interna de sua alma, de seu ser, uma nota característica de sua individualidade, que é recebida de Deus, mas que em relação às outras criaturas não é recebida de ninguém [...].

Tradição e hereditariedade produzem o ambiente dentro do qual a família proporciona o inteiro desabrochar das características individuais

A hereditariedade e as características familiares

É na vida de família que a aseitas encontra verdadeiramente o seu apoio, que é, em primeiro lugar, a hereditariedade.

Uma família, porque tem uma hereditariedade definida, pelo impulso dos fatores biológicos atuando sobre os fatores psíquicos e informados por sua vez pelos valores da fé e da cultura, constitui um pequeno mundo interior próprio, no qual cada pessoa que nasce encontra-se, a bem dizer, maravilhosamente instalado.

Porque ela nasceu de um substratum [essência ou base] comum, existente entre todos os membros da família, aquilo corresponde exatamente à aseitas de cada um no que ele tem de mais profundo. Ela estimula cada um a ser aquilo que é, e favorece o desabrochar sem timidez das características da própria família; e, por isso mesmo, estimula também o desabrochar das características individuais ligadas às da família.

Simbiose entre hereditariedade e tradição

Mas ao lado disso há a tradição. Cada família transmite o seu modo de ser à outra geração, e com esse transmitir há uma caracterização cada vez mais forte. Com isso, a tradição reforça a hereditariedade biológica. Assim, tradição e hereditariedade, numa simbiose, produzem o ambiente dentro do qual a família proporciona o inteiro desabrochar do indivíduo.

Devemos figurar o caso de uma família, não uma pequena família-célula — pai, mãe e filhos —, mas uma família numerosa com muitos filhos, ligada a um grande número de parentes de vários graus e que freqüentam a casa.

Tudo isso constitui uma espécie de três distâncias: a primeira é a minha casa, toda ela afim comigo; uma outra é das casas mais distantes de minha família, algo parecidas e algo diversas; e depois uma terceira distância, a rua, que é o ponto de encontro fortuito e casual de todas as semelhanças e de todas as dessemelhanças.

Se eu sou apoiado e posso me expandir por essas três distâncias, quando chego à rua eu tenho ao meu lado minha parentela toda, que se apresenta nos lugares públicos pensando como eu, sentindo como eu, impondo-se como eu. Eu enfrento a popularidade ou a impopularidade, porque tenho no que me apoiar, tenho elementos para expandir a minha aseitas.

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