Fevereiro de 2006
A Graça Santificante (Parte III)
Leitura Espiritual

 

A Graça Santificante (Parte III)

Na parte que vimos anteriormente, Mons. Zaffonato(*) descreve como a graça eleva a natureza humana. Na seqüência, ele trata da distinção entre a ordem natural e a ordem sobrenatural.

Depois da conversão de Maria Madalena, Deus concedeu-lhe abundantes graças. Ela foi a primeira a vê-Lo após sua Resurreição.
P
ela ordem puramente natural, isto é, exigida por sua natureza e possível às suas forças, o homem teria tido:

a razão, não a Revelação;

a sua capacidade natural, não a graça;

e, cumprindo o seu dever, uma felicidade natural, não o Paraíso.

Irmão, verás como Deus, infinitamente bom, tanto te amou a ponto de elevar-te a uma ordem superior, ordem sobrenatural, sem que tivesses o mínimo direito.

Mas deves conhecer agora três deveres:

• considerar-te a obra-prima de Deus, o rei da criação, um mundo pleno de vida e não te deixares dominar pela matéria, mas sim dominá-la;

• agradecer efusivamente a Deus pelo riquíssimo patrimônio que te concedeu com o corpo e a alma, com os sentidos e as potências;

• regular e desenvolver as tuas forças naturais segundo a vontade do Senhor, porque elas tornar-se-ão o instrumento de tua elevação e atividade sobrenatural.

A ordem sobrenatural

O Divino Mestre premia o criado bom e fiel com o convite: “Entra no gáudio do teu Senhor”.

É possível ao homem gozar a felicidade de Deus? Sim, se Deus lhe comunica a sua vida. Ele o faz elevando-o ao estado sobrenatural.

Sobrenatural é aquilo que nada deve à natureza, e portanto supera a essência, as forças, as exigências e o mérito da natureza. Isso, porém, é um dom divino, gratuito, que aperfeiçoa e eleva o ser acima do plano natural. Por isso se chama graça.

Como se vê, o sobrenatural não é supersensível. Para os profanos, é sobrenatural tudo o que ultrapassa o limite da experiência sensível, como Deus, a alma, os anjos, a vida futura, os milagres. Há nisso um equívoco. Não existem seres sobrenaturais. Cada ser tem a sua natureza. O sobrenatural é algo sobreposto à natureza, algo de superior que eleva a natureza, algo de gratuito que é concedido à natureza sem que lhe seja devido.

Exemplos: uma planta não pode ter a vida do animal, um gato não pode ter a inteligência do homem, o homem não pode naturalmente ter a vida de Deus. Se uma planta pudesse ter a vida sensitiva, um gato a intelectiva e o homem a vida divina, deveríamos concluir que eles têm uma sobrenatureza.

Por isso é que se diz que o sobrenatural é algo de sobreposto, de superior e de gratuito.

Não porém contrário à natureza, não para depender dela, mas para utilizá-la. Os seres inferiores devem obedecer aos superiores, e a natureza deverá ser o instrumento do sobrenatural.

É claro, portanto, que o sobrenatural, longe de excluir a ordem natural, considera-a essencialmente como base, não sendo outra coisa senão a sua própria elevação, a sua transposição para um plano superior.

Ora, nós afirmamos com toda a certeza que o homem foi elevado a uma ordem sobrenatural. É esta a realidade ensinada em todo o Evangelho e pela Tradição. Negá-la é negar toda a Redenção e o Cristianismo.

_____________
Nota:

(*)Mons. Giuseppe Zaffonato, O Dom de Deus – Reflexões sobre a Graça Santificante, Edições Paulinas, São Paulo, 1959.