Dezembro de 2009
Tribunal europeu proíbe crucifixos, e Itália se insurge
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Destaque

Tribunal europeu proíbe crucifixos,
e Itália se insurge

O processo de unificação européia revela seu espírito perseguidor e anticristão, e suscita reações populares. Agora foi a vez de os católicos italianos abrirem os olhos e se indignarem.

Marcelo Dufaur

A Itália reagiu firmemente contra uma sentença do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, de Estrasburgo, segundo a qual a presença de crucifixos nas salas de aula constitui “violação da liberdade dos pais de educar seus filhos segundo suas convicções”, e uma “violação da liberdade religiosa dos alunos.(1) Como revide à absurda sentença, de norte a sul da Itália prefeituras e particulares começaram a instalar mais crucifixos em escolas e locais públicos. Em Varesotto, em resposta à “proibição” de Estrasburgo, um empreiteiro instalou em sua granja um cruzeiro de seis metros de altura.(2) A indignação espraiou-se também por inúmeros ambientes católicos do exterior.

A decisão anticristã é inteiramente consonante com o espírito e as finalidades do processo de unificação europeu. O Tribunal Europeu de Direitos Humanos pertence ao Conselho da Europa, e julga com base na Convenção Européia dos Direitos Humanos, inspirada na filosofia da famigerada Declaração dos Direitos Humanos da Revolução Francesa.

O Conselho da Europa e o Tribunal Europeu de Direitos Humanos não devem ser confundidos com análogos órgãos da União Européia (UE), porém o quase indecifrável labirinto de organismos da UE e do Conselho da Europa faz com que o comum dos europeus os considere uma só e mesma máquina burocrática opaca que tudo invade.

Os povos europeus acompanharam o processo unificador com displicência, ponderando as vantagens materiais que ele trazia. Porém não se convenceram da filosofia e objetivos últimos que o inspiravam. Aliás, nem tomaram conhecimento pormenorizado da existência dessa filosofia, e jamais lhes foi explicado com clareza quais eram tais objetivos.

Processo que deu origem do caso

Em 2002, Soile Lautsi Albertin processou a escola pública Vittorino da Feltre, da cidade de Albano Terme, pelo fato de ostentar crucifixos nas salas de aula. Ela alegou a laicidade do Estado italiano.

O tribunal administrativo do Vêneto deu ganho de causa à escola, porque a cruz é “o símbolo da história e da cultura italiana”. A decisão foi confirmada pelo Conselho de Estado em 2006.

Recentemente a Corte Européia dos Direitos Humanos cassou as decisões da Justiça italiana e puniu o país com multa de 5.000 euros. Essa corte não tem poder para cassar decisões da Justiça, e sua decisão não é coercitiva. Entretanto, a pressão moral a que ficou submetido o governo italiano é enorme.

Italianos reagem  energicamente

A indignação foi de âmbito nacional. Não fez muitas distinções no dédalo burocrático UE-Conselho da Europa, e voltou-se contra os dois órgãos. O premiê Berlusconi percebeu a magnitude da reação e qualificou a sentença de “absolutamente inaceitável”. O governo italiano apelou.

“Ninguém, nem sequer uma corte européia ideologizada, conseguirá apagar nossa identidade”, protestou a ministra de Educação, Mariastella Gelmini. “Estou desconcertado”, disse o ministro de Justiça Angelino Alfano. Roberto Calderoli, ministro para a Simplificação, achou que “a corte européia pisoteou nossos direitos, nossa cultura e nossos valores, [...] os crucifixos permanecerão nas paredes de nossas salas de aula”. “Sentença abstrata e falsamente democrática”, acrescentou o ministro da Agricultura, Luca Zaia.

Até a oposição de centro-esquerda — ativa promotora desse tipo de golpes de Revolução Cultural — pronunciou-se contra o descabido acórdão. O novo líder do Partido Democrático, Pier Luigi Bersani, observou que “uma tradição antiga como o crucifixo não pode ser ofensiva a ninguém”. Pier Ferdinando Casini, da União do Centro Democrático, foi além: “O acórdão é conseqüência da timidez dos governantes europeus, que se recusaram a mencionar as raízes cristãs na Constituição Européia: o crucifixo é um símbolo da identidade cristã da Itália e da Europa”. De fato, aderindo à dita Constituição contida no Tratado de Lisboa, decisões como essa que indignou a Itália são inevitáveis.

Manifestações jubilosas de muçulmanos e ateus

Adel Smith (foto), presidente da União dos Muçulmanos da Itália, alegrou-se com a “proibição”: “Num Estado laico não se pode oprimir as outras religiões exibindo um símbolo de uma determinada confissão”.

Também manifestou euforia Raffaele Carcano, da União de Ateus e Agnósticos, que comemorou a sentença como “uma grande data para o laicismo italiano”. De fato, foi uma vitória para o ateísmo e o agnosticismo.

Em sentido oposto, multiplicam-se movimentos sadios no país, os quais promovem a entronização de crucifixos em locais públicos, inclusive nas escolas.

Afronta às tradições e à alma da Itália

“Il Giornale” noticia as reações na Itália
Para “Il Giornale(3) de Milão, a unificação européia “começou astutamente pela economia e pela moeda”. Mas agora atingiu o ponto crítico de desvendar sua tendência atéia e agnóstica, passando o trator nos símbolos visíveis da Religião. Segundo o mesmo jornal, isso implica atacar na península italiana a arquitetura, a pintura, os crucifixos, as imagens de Nossa Senhora, que fazem parte de “tradições de um país que se alimentou, ao longo dos séculos, da beleza do Evangelho. Seria impossível imaginar um São Francisco de Assis sem a doce paisagem da Úmbria, um São Bento sem a ordenada gravidade das terras romanas, um Rafael sem a apaixonada contemplação da Virgem Maria. Hoje se quer tirar o crucificado das escolas públicas... Mas também milhares de capelinhas de Nossa Senhora, que protegem os viajantes nos cruzamentos das estradas, estão em locais ‘públicos’; logo alguém desejará que sejam eliminadas”. Se prevalecer o critério da Corte Européia, “nenhum povo seria um povo. Mexer com os costumes religiosos significa mexer com a alma dos povos. É uma coisa perigosíssima”, acrescentou.

A reação de eclesiásticos

Cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano: “Nossa reação não é senão de deploração”
O jornal milanês relembra que até eclesiásticos desempenharam nessas concessões destacado papel, levando os fiéis a aceitar o processo de unificação européia. Recentemente o episcopado irlandês exortou os católicos a aprovarem o Tratado de Lisboa, ou Constituição Européia, aduzindo que ela garantia suficientemente os direitos religiosos dos católicos... A decisão de Estrasburgo patenteia que tal promessa é apenas uma das fraudes que pavimentam a estrada da unificação européia.

O Cardeal Tarcísio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, declarou aos jornalistas: “Nossa reação não é senão de deploração”. Acrescentou que a cruz sempre foi “símbolo de amor universal, não de exclusão, mas de acolhida(4) Mas observou, logo em seguida, que a “Santa Sé não pode nem quer interferir nas decisões da Corte de Estrasburgo”...

“Fechar o manicômio de Estrasburgo”

No seu editorial, “Il Giornale(5) destacou que “a estupidez da sentença é agravada pelo desconhecimento dos valores do cristianismo”. Os juízes, para serem coerentes, terão que banir campanários, catedrais, mosteiros, capelas e tudo aquilo que em locais públicos apresenta o sinal da cruz para as crianças; e o próprio ensino da língua, da história e da filosofia italiana é impossível sem a referência à cruz. São Francisco, Dante e Manzoni, para citar alguns dos maiores referenciais da língua italiana, deveriam ser censurados nos livros de texto. Por fim, o diário pergunta se não seria o caso de “fechar o manicômio de Estrasburgo”, sede do tribunal. A conclusão sem dúvida reflete a vigorosa oposição suscitada pelo acórdão, mas não vai ao fundo do problema.

Os países europeus foram ludibriados por uma unificação inspirada numa filosofia contrária à Igreja Católica e não explicitada. Enquanto continue vigente tal filosofia igualitária, liberal e anticristã, de pouco adiantarão as nobres e justas reações expressadas por órgãos de imprensa como este.

 

“É só pela compreensão do papel da dor e do mistério da Cruz que a humanidade pode salvar-se da crise tremenda em que está afundando, e das penas eternas que aguardam os que até o  último momento permanecerem fechados ao vosso convite para trilhar convosco a via dolorosa”

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Plinio Corrêa de Oliveira, Catolicismo, abril/1957

 

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Notas:

1. “La Nación”, Buenos Aires, 4-1-09.

2. http://www.aciprensa.com/noticia.php?n=27495

3. “Il Giornale”, Milão, 4-11-09.

4. “La Stampa”, Turim, 4-11-09.

5. “Il Giornale”, id. ibid.


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