Junho de 2001
Imagens de Nossa Senhora são proibidas pela Bíblia?
Página Mariana
Imagem de Nossa Senhora de Belém, venerada na Missão São Carlos Borromeu, na Califórnia (EUA)

Imagens de Nossa Senhora são proibidas pela Bíblia?

Apresentamos a nossos leitores algumas considerações que podem
auxiliá-los a defender o culto de imagens da Santíssima Virgem contra uma
das falsas e mais freqüentes acusações lançadas por protestantes

Valdis Grinsteins

 Alguém vai debater com protestantes o tema Nossa Senhora. Eles então, com freqüência, despejam uma enxurrada confusa de textos bíblicos fora do contexto e mal interpretados, apresentando-os com ar de vencedores de concursos inexistentes. E ficam especialmente surpresos (e furiosos!) quando encontram um católico bem instruído nessa matéria, que os refuta usando também argumentos bíblicos. O que não é difícil, aliás.

Os que debatem com protestantes sabem que eles se concentram especialmente no ataque a Nossa Senhora e seus privilégios. Hoje não está mais na moda atacar o Papado e o Clero, como antigamente; o alvo preferido é diretamente a Mãe de Deus, considerada por esses hereges como sua principal adversária.

Ora, nós católicos dispomos de respostas para todos os falsos argumentos que eles apresentam para atacar Nossa Senhora. E seria um lindo presente oferecido a Ela empenharmo-nos nesse estudo, com a finalidade de defender nossa Fé.

Acusação e réplica

Normalmente as discussões sobre Nossa Senhora começam com uma acusação feita por algum protestante: “Deus proíbe fazer imagens, e vocês, católicos, não apenas fazem imagens de Nossa Senhora, mas, pior: adoram-nas”.

Vejamos bem como é isso. Lê-se no livro do Êxodo (20, 4-5): “Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma do que há em cima no céu, e do que há nas águas debaixo da terra. Não adorarás tais coisas, nem lhes prestarás culto”.

Portanto, à primeira vista, pareceria que os protestantes têm razão. Mas, para confusão deles, em outros trechos da Bíblia o mesmo Deus ordena fazer imagens. Por exemplo, no próprio livro do Êxodo (25, 18-19) está escrito: “Farás também dois querubins de ouro batido nas duas extremidades do oráculo. Um querubim esteja dum lado, o outro do outro”. Note-se bem, o próprio Deus ordena a confecção desses dois anjos, como também colocá-los nas laterais da Arca da Aliança.

Outro trecho no qual Deus manda fazer uma imagem encontra-se no livro dos Números (21, 8): “E o Senhor disse-lhe [a Moisés]: faze uma serpente de bronze, e põe-na por sinal; aquele que sendo ferido olhar para ela, viverá”. Ou seja, Deus ordena a Moisés, servo fiel, fazer uma imagem, não para destruí-la, detestá-la ou mostrá-la como mau exemplo, mas para que aqueles que tinham adoecido pelo pecado a olhassem e assim se curassem.

Deus não é contraditório

Como explicar essa aparente contradição? Deus, ao mesmo tempo, proíbe e manda fazer imagens?

A resposta é que fazer imagens não constitui pecado em si mesmo, mas pode sê-lo, dependendo da finalidade com que elas são esculpidas. Por isso, Deus proí­be terminantemente produzir uma imagem com a finalidade de adorá-la, como se fosse um deus. Isto se explica porque, naquela época, os israelitas estavam cercados por nações pagãs idólatras (ou seja, que acreditavam serem deuses as estátuas, ou dotadas de propriedades divinas; por isso, as adoravam), e eram tendentes a imitá-las. Mas quando se trata de algo bom, que seja um símbolo do poder e da bondade do Criador, Ele mesmo ordena a confecção de imagens. Há vários trechos do Livro III dos Reis, nos quais Salomão, ao edificar o Templo de Jerusalém, por ordem expressa de Deus, colocou imagens que serviam de adorno e instrução ao povo (ver III Reis 6, 23-32; 7, 25-30).

Assim sendo, é louvável a atitude dos fiéis quando mandam fazer ou rezam an­te uma imagem de Nossa Senhora. Tal imagem é uma representação que nos ajuda a lembrar-nos dEla, amá-La e invocá-La. O mesmo se passa quando guardamos uma pintura, fotografia ou escultura de nossos pais ou parentes. Temos gosto em vê-las, recordando as pessoas. Acusar alguém de “adorar” uma fotografia de sua mãe, só porque a osculou, seria agir de modo protuberante contra o bom senso. O mesmo acontece com uma imagem de madeira ou gesso representando Nossa Senhora.

Imagens para quê?

Toda imagem é uma representação ou símbolo. Na mesma Bíblia encontramos símbolos que nos ajudam a entender o próprio Deus. Por exemplo, o Profeta Daniel refere-se ao ancião cheio de dias, para fazer entender a eternidade de Deus. Lemos em Daniel (7, 9-10): “Estava eu atento ao que via, até que foram postos uns tronos, e o ancião dos (muitos) dias sentou-se; e o seu vestido era branco como a neve, e os cabelos de sua cabeça como a pura lã; o seu trono era de chamas de fogo, e as rodas deste trono de fogo ardente”. Se quiséssemos imaginar como é Deus, poderíamos representá-Lo aproveitando essa imagem descrita pelo próprio profeta. De modo semelhante pode-se agir em relação a Nossa Senhora. Faríamos uma imagem que nos auxiliasse a imaginar uma pessoa bondosa, doce, santa, puríssima etc. Não é sem razão que a grande maioria das imagens de Nossa Senhora representam-na enquanto mãe, levando nos braços o Menino Jesus, e assim lembramo-nos mais facilmente de que Ela é também Mãe nossa.

O católico não adora Nossa Senhora, mas presta-lhe um culto especial


O católico adora somente a Deus. Todos os tipos de cultos que podem existir estão infinitamente abaixo da adoração (latria), devida única e exclusivamente a Deus. A Jesus Cristo, por ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem, tributa-se o culto de adoração. Assim, os Reis Magos O adoraram.

Aos santos devemos simplesmente veneração (dulia), pela alta virtude de que deram provas. Dentre os santos, considera-se geralmente São José como sendo o primeiro deles, pela excelência de suas virtudes e pelo fato insigne de ser o Pai adotivo de Nosso Senhor Jesus Cristo e o Esposo castíssimo da Virgem Santíssima. Assim, a veneração (dulia) que se presta a ele é como sendo o primeiro (proto); de onde o culto a São José ser designado de protodulia.

A Nossa Senhora prestamos um culto diferente — acima dos santos, embora, evidentemente, abaixo de Deus — que vai além (hiper) da dulia, por isso chamado na Teologia de hiperdulia. Ou seja, é a própria veneração, mas elevada a um grau tão excelso, que forma um culto à parte, único e admirável. Tal culto a Nossa Senhora é superior à especial veneração que se deve a São José e está incomensuravelmente (não infinitamente) acima da veneração aos demais santos. Isso devido ao fato de Ela ser a Mãe de Deus, e também por sua excelsa santidade, que sobrepuja imensamente a de todos os anjos e santos, a ponto de ter sido chamada pelo Arcanjo Gabriel, embaixador do Deus altíssimo, “cheia de graça” (Lc 1, 28).

Não é um exagero haver diversas imagens da Virgem Santíssima?

Todos conhecemos mães que possuem numerosas fotografias de seus filhos, mesmo que estes habitem na mesma casa e elas os vejam diariamente. A razão disso salta aos olhos: elas apenas desejam ter algo junto a si que sempre lhes recorde seus entes amados. É apenas uma das manifestações do amor materno.

Por que então um católico não pode ter várias imagens ou representações de Nossa Senhora em sua casa? Assim como a mãe aprecia as fotografias de seus filhos quando meninos, quando se formaram, se casaram etc, assim também nós, católicos, sentimos prazer em relembrar as diversas graças e virtudes de Maria Santíssima, e nos rejubilamos em representá-La como Mãe, Rainha, Auxiliadora, Consoladora, Imaculada etc. Nada há de exagerado nessa atitude, apenas uma forma de externar nosso filial amor.