Dezembro de 1997
Uma significativa confusão: música barroca mineira com partituras de Vivaldi e Mozart...
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Brasil Real

Uma significativa confusão: música barroca mineira com partituras de Vivaldi e Mozart...

Christóvão Colombo Nunes Pires

Segundo informa o musicólogo paulista Maurício Monteiro (1), o famoso pesquisador alemão Curt Lange, na década de 40, enviou algumas partituras, que havia encontrado numa de suas pesquisas, ao diretor do Instituto de Musicologia de Innsbruck, na ≡ustria, Dr. Walther Sens. Este, por sua vez, encaminhou-as ao maior especialista no assunto, Dr. Hans Halm, diretor do Arquivo Nacional de Munique, pedindo-lhe que identificasse, sem pressa, a época, o lugar e o autor das mesmas.

Depois de examiná-las acuradamente, o Dr. Halm concluiu: "É música de primeira qualidade, escrita por um grande mestre, estilisticamente o mais puro compositor pré-clássico, e foi composta dentro dessa região..."

O Dr. Halm apontou então no mapa uma área compreendida, mais ou menos, entre o sudoeste alemão, noroeste da ≡frica e o norte e nordeste da Itália, regiões por onde andaram os filhos de Bach, como Johan Christian, além de Samartini, Vivaldi e Mozart, dentre outros compositores.

Em resposta, o Dr. Walhter Sens disse-lhe:

-- "Quanto à primeira parte da resposta, o senhor tem razão, mas quanto à localização houve um engano de quase dez mil quilômetros. A música foi composta por um mestiço, em pleno sertão brasileiro, no ano de 1792"...

* * *

O Brasil do século XVIII, dos amplos casarões e das belas igrejas em estilo barroco, também apresentou notável florescimento musical religioso, em regiões como Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e Goiás.

Entretanto, foi em Minas Gerais que a música sacra barroca alcançou -- sem exagero -- uma culminância. Irmandades de músicos, cantores e compositores, mestiços em sua quase totalidade, produziram obras que hoje surpreendem tanto os estudiosos quanto o público. Eram Missas, Novenas e Ofícios, concebidos com originalidade, dentro dos padrões clássicos, em consonância com o que se produzia ao norte da Itália, na Baviera e na ≡ustria.

Dentre os mais destacados compositores dessa época destacam-se: Manoel Dias de Oliveira, Marcos Coelho Neto, Joaquim Emérico Lobo de Mesquita e o Pe. José Maurício Nunes Garcia.

Esquecidas pouco a pouco pelas gerações seguintes, quase sepultadas em velhos armários por mais de um século, tais partituras foram descobertas e devidamente avaliadas.

Pouco a pouco, felizmente, estas obras vêm sendo cada vez mais colocadas ao alcance do público.

É o caso, por exemplo, de excelentes gravações em compact disk, lançadas recentemente graças ao meritório trabalho do Centro Cultural Pró-Música, de Juiz de Fora, e do Coral Ars Nova, associado à Universidade Federal de Minas Gerais, de Belo Horizonte, com o apoio de diversas empresas (2).

* * *

Coube ao músicólogo alemão Francisco Curt Lange, aludido no início deste artigo, o mérito de haver descoberto velhas partituras desses autores barrocos. Pesquisando em cidades do interior de Minas Gerais, viajando de jipe, Lange batia de porta em porta para perguntar às viúvas dos netos dos compositores se havia sobrado alguma partitura antiga entre os guardados do marido...

"Elas me apresentavam baús cheios de preciosidades. Eu ia oferecendo dinheiro e salvando a papelada da fogueira. O preço aumentou, mas cheguei tarde demais. Quase tudo havia sido destruído", revela o pesquisador.

Dessa forma, perdeu-se um patrimônio cultural incalculável de nossa história. Mesmo assim, ao final da década de 50, Curt Lange já havia reunido milhares de partituras de compositores coloniais brasileiros. E é lastimável que isto que restou tenha sido salvo por um estrangeiro!

Se uma pequena parcela das grandes verbas oficiais que têm sido concedidas nos últimos tempos para os desvarios carnavalescos -- como na construção de sambódromos --, tivesse sido aplicada desde as décadas de 30 e 40 em pesquisas como as de Curt Lange, o nível cultural do País poderia ser outro.

O Brasil não seria conhecido como o país do carnaval, mas apontado como nação soube preservar seu patrimônio artístico e cultural, não só na arquitetura e artes plásticas, como as obras do Aleijadinho, mas também em sua produção no campo musical.

Para concluir, apenas um comentário: bons tempos esses, em que a música composta por um desconhecido brasileiro, em pleno sertão, podia ser confundida com as produções artísticas dos filhos de Bach, de Vivaldi e de Mozart...

______________________

Notas:

1) Revista Concerto, São Paulo, janeiro/fevereiro-1997.

2) CD gravado pelo Centro Cultural Pró-Música de Juiz de Fora, com obras do Pe. José Maurício Nunes Garcia, Ignacio Pereira das Neves, Francisco Gomes da Rocha. Fone (032) 215-3951 Juiz de Fora (MG), Av. Rio Branco 2329, CEP 36010-011, preço R$20,00.

O CD do Coral da Universidade Federal de Minas Gerais está à venda, ao preço de R$15,00, na sede do Coral, fone (031) 224-6712, Av. Afonso Pena 867, sala 1215, CEP 30130-905 - Belo Horizonte/MG.

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