Junho de 2001
Qual a relação entre alma e espírito?
A Palavra do Sacerdote

A Palavra do Sacerdote

Pergunta: Qual a relação entre alma e espírito? Temos alma e espírito ou a alma é o espírito?



O Apóstolo São Paulo afirma que a palavra de Deus “chega até a separação da alma e do espírito”. São Paulo — Autor desconhecido (séc. XIX) — Igreja de São Francisco, Bogotá (Colômbia)

Resposta: Quem pergunta provavelmente refere-se à Carta de São Paulo aos Hebreus, onde diz o Apóstolo que “a palavra de Deus é viva e mais penetrante do que toda espada de dois gumes; chega até a separação da alma e do espírito” (Hb. 4, 12). O homem é um ser composto de corpo e alma, e portanto é ao mesmo tempo um ser material e espiritual. Neste sentido, quando se fala de espírito do homem, estamos querendo nos referir à sua alma. E portanto, nesta acepção, alma e espírito são uma só e mesma coisa.

Quando um homem morre, se diz que ele expirou. Esta palavra vem do fato de que, ao morrer, o último ar que restava nos pulmões é expelido. Os antigos viam nisso o sinal de que o espírito do homem o abandonava nesse momento, porque o ar — que é normalmente invisível — simbolizava para eles o espírito. A própria Sagrada Escritura, ao narrar a morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, se acomoda a essa linguagem, dizendo: “E Jesus, clamando outra vez com voz forte, emisit spiritum, isto é, “emitiu [expeliu, lançou fora de si] o espírito” (Mt 27, 50). Atentos ao significado último da expressão, os autores costumam traduzi-la por “entregou” ou “rendeu o espírito”. Despediu-se do Corpo a sua Alma Santíssima.

A alma humana é imortal

A alma é que dá vida ao corpo. A palavra alma vem do latim animam, porque é ela que anima o corpo. E assim, quando ela abandona o corpo, este fica inanimado, isto é, desfalecido, morto. As coisas inanimadas são as que não têm alma. Os vegetais, que também têm vida, têm uma alma vegetativa (que faz as plantas viverem e crescerem). Os animais, por sua vez, têm uma alma sensitiva (mais perfeita que a vegetativa, pois os animais têm ademais uma sensibilidade física). Mas tanto a alma vegetativa quanto a sensitiva são puramente corpóreas e materiais, e portanto perecíveis. Não são espirituais. Chamam-se princípios vitais.

Ao contrário dos vegetais e dos animais, a alma humana é uma substância espiritual, daí o ser chamada também espírito. Mas ela assume igualmente o governo das funções vegetativas e sensitivas do homem. Contudo, transcende essas funções meramente corpóreas, porque ao mesmo tempo ela é racional, isto é, dotada de inteligência e vontade. Acrescente-se a sensibilidade espiritual, mediante a fantasia e a memória.

Por ser espiritual, a alma do homem é imortal: tem começo, mas não terá fim. Ela é criada por Deus no instante mesmo em que é infundida no corpo gerado pelos pais; porém, depois da dissolução do corpo, a alma não cessa de existir. Ela se separa do corpo, é julgada (Juízo particular) e fica aguardando no Céu, no Inferno ou no Purgatório a ressurreição deste, no fim dos tempos. A ressurreição dos corpos é o que professamos no Credo quando dizemos “creio na ressurreição da carne”.

{Para nos ajudar a crer nessa ressurreição geral que se dará no fim dos tempos, Deus tem produzido, ao longo da História, diversas ressurreições individuais, por intercessão de seus santos. É o caso, por exemplo, do filho da viúva ressuscitado pelas orações do Profeta Elias. Também nos tempos modernos vários santos obtiveram ressurreições por meio de suas orações, como é o caso de Santa Mariana de Jesus (séc. XVII; cfr. “Catolicismo”, maio/2001), São Francisco Xavier (séc. XVI), São João Bosco (séc. XIX) e muitos outros}.



Marighella, marxista brasileiro que praticou atentados terroristas

Pergunta: Antigamente, “Che” Guevara e Marighella eram considerados revolucionários, inimigos da Igreja. Agora, aqui na secretaria da nossa paróquia, foram colocados os quadros desses dois personagens, em destaque. Gostaria de um esclarecimento do Sr. sobre isso.

Resposta: Evidentemente, a colocação em destaque dos quadros de “Che” Guevara e Marighel­la na secretaria de uma paróquia católica tem o significado que o consulente bem intuiu: eles não seriam mais considerados como inimigos da Igreja.

Diga-se desde logo que, aos olhos dos que introduziram esses quadros, o fato de os dois personagens serem revolucionários não é um mal, mas um bem. Pois, para eles, o verdadeiro cristão deve ser um revolucionário, e não um conformado com a situação atual; e muito menos alguém que admire as glórias antigas da Cristandade. Portanto, eles foram entronizados na secretaria da paróquia exatamente por serem revolucionários, e ainda que não tenham professado a Fé cristã, eles teriam sido — segundo essas pessoas que os entronizaram — profunda e fundamentalmente cristãos!... Para essas pessoas, maus católicos seríamos nós, propugnadores da doutrina tradicional da Igreja.

O marxismo instiga a luta de classes

Procuremos entender essa fenomenal inversão de conceitos.

Segundo o comunista Karl Marx e seu sequazes teóricos ou práticos, vivemos hoje numa sociedade fundamentalmente dividida em duas parcelas: a dos que possuem bens, de um lado; e os despojados de bens, do outro lado. O mecanismo social e econômico que leva a essa divisão de bens é profundamente viciado, pois alguns (poucos) se apoderam ilegitimamente de uma quantidade maior de bens do que lhes seria necessário, de forma que não sobra para os outros (a grande maioria), os quais vivem numa situação de miséria indigna e injusta. Levados, pois, por esse mecanismo social viciado, os poucos possuidores de muitos bens constituíram — às vezes até sem terem plena consciência disso — uma sociedade que oprime os menos afortunados. Logo, eles tornam-se opressores de seus irmãos, porque estão numa sociedade que de si mesma é opressora. Naturalmente, o quadro se agrava quando eles se apegam desordenadamente a esses bens possuídos em excesso, e se recusam a partilhar com os despossuídos aquilo que lhes é supérfluo. O resultado é que, conscientemente ou não — dizem eles — criou-se uma sociedade em que impera uma injustiça institucionalizada, contra a qual não só é um direito, mas um dever lutar. Portanto, segundo essa falsa concepção, devemos ser todos revolucionários, para restabelecer a justiça no mundo...

A Teologia da Libertação desfigura a doutrina católica

O marxismo é visceralmente ateu, e enquanto tal, bem como em seus princípios antinaturais, foi diversas vezes condenado pela Igreja. A mais célebre dessas condenações foi a de Pio XI, na encíclica Divini Redemptoris, de 19 de março de 1937, sobre o comunismo ateu. A insistência com que a Igreja se viu obrigada a salientar o caráter ateu das doutrinas comunistas obnubilou em alguns católicos mal orientados a oposição em que o marxismo se colocava também contra os princípios de Direito natural referentes à família e à propriedade. Daí excogitarem eles um comunismo não ateu, isto é, um comunismo que não renegasse oficialmente a Deus, mas se opusesse aos referidos princípios do Direito natural (família e propriedade), confirmados pelos Mandamentos do Decálogo.

Tal foi a obra da malfadada Teologia da Libertação! Assumindo totalmente a visão marxista da sociedade, segundo a qual vige uma situação de violência institucionalizada, como acima descrevemos, a Teologia da Libertação tentou passar um verniz cristão nessa teoria. Segundo seus partidários, Jesus Cristo veio efetivamente libertar o homem do pecado, porém não do pecado original, segundo ensina a doutrina católica tradicional, e sim do pecado social, que produz a tal violência institucionalizada, a qual por sua vez gera a “luta de classes”. Nessa concepção, Jesus Cristo teria sido o primeiro e o modelo dos revolucionários. O verdadeiro cristão deveria pois imitá-Lo..., ser um “guerrilheiro”.

Assim fica fácil de entender por que os quadros de “Che” Guevara e Marighella foram instalados na secretaria de uma paróquia católica. Diante dos esclarecimentos acima, não seria temerário deduzir que os responsáveis por essa decisão são partidários da Teo­logia da Libertação.